segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Para Amel: falaremos em Samuel Beckett por alguns dias

“(...) Eu conhecia mal as mulheres, naquela época. Ainda as conheço mal, aliás. Os homens também. Os animais também. O que conheço menos mal são minhas dores. Penso nelas todas, todos os dias, é rápido, o pensamento vai tão depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim, há momentos, principalmente à tarde, em que me sinto sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio. Aliás, conheço mal também minhas dores. Isso deve ser porque não sou apenas dor. Aí está a astúcia. Então me afasto, até o espanto, até a admiração, como de um outro planeta. Raramente, mas é o bastante. Nada cretina, a vida. Ser apenas dor, como simplificaria as coisas! Ser todo-dolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. Eu lhes contarei assim mesmo, um dia se me lembrar, e tomara que consiga, minhas estranhas dores, em detalhes, e distinguindo-as bem, para maior clareza. Falarei das dores do entendimento, as do coração ou afetivas, as da alma (muito simpáticas, as da alma) e depois as do corpo, primeiro as internas ou ocultas, depois as da superfície, começando pelos cabelos e descendo metodicamente e sem pressa até os pés, abrigo dos calos, cãibras, joanetes, unhas encravadas, frieiras, pés-de-atleta e outras esquisitices."

In Primeiro Amor, Samuel Beckett, Cosac & Naify, 2004.

Samuel Beckett nasceu em 13 de abril de 1906 em Dublin, na Irlanda e morreu em 22 de dezembro de 1989, em Paris, na França. É considerado um dos principais dramaturgos do século XX, tem uma vasta obra, traduzida em vários idiomas. Filho de uma família burguesa e protestante, formou-se em literatura, italiano e francês. Em 1928 foi lecionar em Paris, onde conheceu e tornou-se amigo de James Joyce. Vinculou-se à resistência francesa durante a segunda guerra. Em 1969, Beckett ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Durante a vida escreveu poemas e textos em prosa, como romances, novelas, contos e ensaios, além de textos para o teatro, o cinema, o rádio e a televisão.
Depois da peça “Esperando Godot”, é chamado, juntamente com Ionesco, fundador do teatro do absurdo.Samuel Beckett morreu em 1989, cinco meses depois de sua esposa. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse.

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