terça-feira, 9 de novembro de 2010

PERSONA


4.QUINTA-FEIRA


Ele chega muito suado, tentando sorrir, ou melhor, forçando largamente a boca, dá-me um simulacro de abraço, pergunta se estou bem, sorrio de leve, digo que sim, pergunto: e você? Ele diz tudo bem, percebo a respiração curta, cansada, vejo olhos tristes e molhados. Carrega pesadamente o próprio corpo com dificuldade, parece pesar toneladas, e um odor acre o envolve. Penso em odor de dor. Senta-se vagarosamente; ou temerosamente? E inspira com profundidade. Os olhos crescem e se molham mais. Continua tentando sorrir e pergunta sobre minha vida, minha saúde, minha família. A tudo respondo apenas que está bem, tento ficar à vontade, mas o desconforto é grande. A atmosfera faz enorme barulho gritando: tudo é mentira! Ofereço um copo com água, ele agradece, não aceita. E então de repente se transforma. Muda de posição, começa a tremer grosseiramente as mãos e a bater os pés no chão. Os olhos molhados se tornam fontes abundantes e lágrimas despencam como cachoeiras; suspira, geme, torce e retorce pescoço, bate com a cabeça no espaldar da cadeira, tenta arrancar os cabelos, fecha as mãos com tal força que se fere, as unhas penetrando a carne de suas mãos, vejo gotas de sangue surgindo entre os dedos. Respira com tamanha velocidade que logo começa a demonstrar um absurdo cansaço. Espero. Ele continua chorando, agora aos gritos. Soltou-se. Bate os pés no chão muitas vezes, com força, e com as mãos sujas de sangue bate na própria face. Grita, gosta do barulho que está fazendo. Então peço que se acalme e fale comigo. Eu quero ouvir. Não me escuta e continua a cena de dor, esticando-se inteiro, estira os braços e as pernas como se perdesse as articulações. Todo seu corpo agora está rígido. Reto. Gemendo, grunhindo, suspirando, ele evita olhar-me nos olhos. Eu espero. Eu assisto. A cena continua por vários minutos. Não me movo. Algum tempo depois ele volta a respirar mais calma e profundamente. Encolhe-se lentamente. Dobra-se; agora é quase um feto. Permanece de olhos fechados, e chora silenciosamente. Fico quieta, pertinho. O tempo passa. Muito tempo passa. Então ele sussurra:

- Tudo dói. Pra que tanta mentira?
Magda Maria Campos Pinto

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