quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PERSONA


5. Sexta-feira

Hoje ele acordou feliz. Dormiu toda a noite, e jura que não teve sonhos. Talvez na verdade não se lembre deles, admite. Mas o que importa é que hoje acordou feliz. Não entende isso, e quase fica nervoso por causa disso. Esta vida é mesmo uma idiotice, ou qualquer coisa incompreensível. E também não aceita nenhuma das duas hipóteses; afinal adora muitas coisas da vida, tem muita gente boa, tem gente inacreditavelmente boa, e já viveu dias felizes. Tem que ser justo, pois foi assim, foi feliz muitas vezes, é verdade que ele é uma pessoa meio diferente, ou muito diferente, sabe-se lá, não quer parecer arrogante mas é assim mesmo que são as coisas, pois as coisas que o fazem feliz, felicérrimo! (ri macio, tranqüilo, bonito, e acrescenta: esta palavra não existe, né? Eu sei, mas gosto dela mesmo assim, pois é, de repente fico encantado, sei lá, coisas indizíveis, que não agradam à maioria das pessoas). E o pior, a maioria das coisas que fazem as pessoas felizes não lhe importam definitivamente. Quase não suporta tais coisas, e disso ele tem medo. É. Medo, pois muitas vezes explode, briga, berra, quer matar, e depois... depois se sente um idiota. Mas não pode fazer nada, é a mais pura verdade que odeia quase tudo que o povo gosta, assim tipo festa de natal, churrasco de domingo, cervejada, bebedeira.... sei lá, será que estou ficando velho? É isso?, não, não é, é verdade que já gostei, mentira, tentei gostar dessas coisas todas, e porque não gostava me sentia errado, só podia ser, afinal todo mundo tava se divertindo, enchendo a cara, pegando mulher, contando piada e eu lá.... tentando ser assim, juro que tentei, juro. Mas não deu. Não dá. Eu sou louco? Não. Acho que não. O meu problema é que gosto de pensar, é verdade, gosto mesmo, mas o problema também é que estou mudando, esquisito isto, estou mudando, eu era muito nervoso, e agora... bom, sou nervoso mas não tanto, e não me importo mais. É isso. Tou querendo viver minha vida, já disse que estou cansado de ser infeliz, pois é, não disse? Tou falando demais, isso também é novo, eu era muito calado, mas não falo com todo mundo não, mas falo muito mais que antes. Esquisita a vida, você não acha? , é , me lembro agora que um dia, há muito tempo, nem sei mais há quantos anos, eu estava no colégio e era o patinho feio da turma, ninguém me dava a mínima, não conversavam comigo, alguma coisa estava errada comigo, não sei o que era, mas aí eu tava dizendo que a turma ficou tipo em pânico porque o professor de português mandou, assim do nada, a gente fazer uma redação na hora, e nem deu um tema, disse que a gente escrevesse o que quisesse, e se sentou lá na mesa dele, abriu um livro e ficou lá, calado, lendo e esperando. Acho que ele tava num dia ruim, sem saco pra nada, eu acho. Eu nem liguei, achei foi bom e escrevi, pois eu já escrevia todo dia meu diário, escrevia escondido, mas escrevia. Naquele dia fiz como se estivesse escrevendo meu diário. Sabe o que aconteceu? A turma ficou suando, suspirando, e o professor lá, parado esperando. O cara do meu lado, que nunca falava comigo, me pediu, pelo amor de Deus!, baixinho, pra eu escrever pra ele, era minha chance, eu pensei, de fazer amizade com ele, e escrevi, me lembro, escrevi uma coisa chamada ‘Esquisitices”, ele tirou 10 e eu tirei 6, pra mim foi um vexame, claro!, mas fiquei tranqüilo porque agora ele seria meu amigo. Engano total. Ele nem me deu bola, e ainda abusou do meu 6. Mas agora, hoje, nem ligo. Pois é, importa é que hoje acordei feliz. Esquisito, né?

- É tão bom te ouvir.


Magda Maria Campos Pinto

Nenhum comentário:

Postar um comentário