quarta-feira, 17 de novembro de 2010

PERSONA


6. Sábado


Ele chega amável como sempre, me abraça, está cada dia mais bonito, mais animado. Inteligente, curioso, sempre tem novidades pra contar. Começou a se vestir bem, a vencer uma timidez de raiz e a se enfeitar discretamente. Fala tranquilo, está solto, cheio de imaginação, de desejos, planos ousados, quer andar pelo mundo, conhecer muitos povos, conhecer pessoas diferentes, quanto mais diferentes melhor, quer andar pela Ásia, África, América e onde mais o vento levar. Quer se casar, ter muitos filhos, muitos filhos? É, sabe que isso é contracorrente, sabe que o mundo está mal, que as pessoas estão desagradáveis, perversas, e tudo isso que todo mundo fala, fala, fala... mas pensa que falam sem pensar, e como ele gosta de pensar muito, também na contra-mão (sorri abertamente, diz estar se acostumando a viver na contramão, hoje não sofre tanto, quase acostumado...), é isso, gosta de pensar e pensa que a única maneira de melhorar nossas condições de vida, é, entre outras coisas, naturalmente, ter filhos, cuidar muito bem deles, desenterrar a delicadeza, acordar a gentileza, esquecer esta competição idiota, esta idiota mania de ganhar dinheiro, de ter uma profissão de sucesso, por que sucesso quer dizer profissão de destaque?, ora, ora, já sabe sim, é porque todo quer reconhecimento, isso é sério, necessário, você não acha?, é, antes ele pensava que não precisava de reconhecimento nenhum, hoje pensa diferente, pensa que ser reconhecido é fundamental, mas não quer ser reconhecido como qualquer um, aí está a questão, é isso, por isso está assim alegre, quer ser reconhecido diferente, é verdade... Não é arrogância, é?, não, acho que não pois sou uma pessoa simples, nem gosto de gente demais perto de mim, gosto de gente diferente, gosto de novidades, entende? E todo mundo quer só uma profissão de sucesso porque é a maneira de ganhar dinheiro, e dinheiro quer dizer tudo, ou seja, tudo que todo mundo pensa que quer, verdade, é uma grande confusão, todo mundo está certo que dinheiro pode virar qualquer coisa, imagine, dinheiro atualmente vira respeitabilidade, caráter, conforto, saúde.... Imagine. Mas ele não pensa assim, acha tudo isso ridículo, risível, absurdo. Pra não dizer nojento, pois de fato tem um enorme nojo de tudo isso, tem algum receio de ser mal interpretado, algum, na verdade é sempre mal interpretado, não se adapta, acaba brigando, acaba se sentindo mal, mas tem antipatia até mesmo do mal estar que sente, pois não tem dúvida de si mesmo, não tem dúvida da vida horrível que todos vivem hoje, tem nojo desse consenso em torno do dinheiro. É certo que em alguns dias tem vontade de se livrar de tudo, sente-se cansado, e até triste. Muito triste às vezes. É que não entende por que as pessoas insistem em coisas como mentir, trair, tirar vantagens pessoais, buscar o poder individual. Não entende mesmo! É tão fácil perceber o vazio, a burrice, a mesmice, a mediocridade geral de tudo. Economia, economia, economia. Violência, violência, violência. Cansei, ele diz. Não te disse que cansei de ser infeliz? Disse? Direitos humanos!! Oh, preguiça. Ninguém vê? Não, ninguém vê. Sabe o que é pior? Às vezes, as pessoas são tão truculentas que conseguem me assombrar, fico arrasado e até duvido de mim, é verdade, duvido de mim, fico pensando se não sou eu o errado, o torto, o idiota. Olho, e até penso que as pessoas estão felizes, mas olho de novo e vejo a verdade. Desculpe, desculpe mesmo, mas só vejo merda. Os olhos dele aumentam de repente, crescem e se enchem de lágrimas. Sorri timidamente, e diz: vê como sou esquisito? De repente, me emociono. Me diga você, por favor, eu sou louco? Ah, nem adianta você falar, eu sei que não sou louco, só não sou normal, eu sei, não entendo por que as pessoas são tão más, tão ridiculamente infelizes, tão miseravelmente rasas... Não gosto deste jeito que você olha pra mim, vai me xingar? Tou falando besteira? Sou um idiota? Sou. Sou um idiota.
- Eu te adoro.
Ele sorri muito sem graça, depois gargalha e diz: você é louca, mas acho que não é idiota.
- É?
- Adoro crianças.


Magda Maria Campos Pinto

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