sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PERSONA


7. Domingo


Diz que está com sono, e que queria dormir para sempre. Sorri amarelo, dormir para sempre é quase morrer, mas não digo morrer porque eu sou covarde, talvez porque dormir é melhor que morrer. Quem sabe? Pensei de repente que se eu tivesse descansado ontem, sábado, talvez eu pudesse ressuscitar hoje. Ah, piada sem graça, né? Pior, sem sentido. Afinal, quem descansa sábado é judeu, e quem ressuscita domingo é cristão. Eu não sou uma coisa nem outra. Sabe que sofro de empolgações, não sabe? Pois é, numa dessas cismei de saber tudo sobre esta história complicada de judeu, semita, anti-semita, holocausto, diáspora (ah, o dia que conheci esta palavra, adorei, fiquei repetindo um tempão, tantão de vezes: ‘diáspora’, mas então o professor, eu tava no colégio, ouviu, perguntou em que planeta eu estava e me mandou pra fora de sala, continuei lá fora repetindo di-ás-po-ra, mas verdade é que até hoje não entendo lá muito bem o que é isso, sei o que é, claro que sei, mas não entendo, se pensar um pouquinho mais, não entendo! Dormi muito mal esta noite, resolvi começar a ler Freud. Um judeu, né? Ou alemão? Arre! Tá vendo? Num dá pra entender direito, melhor não querer entender. Ah, lembrei, já sei, melhor não querer que tudo seja entendível, né? Entendi. Acho que o Freud pensou nisso, que as coisas não eram só entendíveis, mas também desintendíveis (esta palavra ficou feia né?, é, mas você entendeu, não entendeu?). Cala-se. Vejo-o cansado e triste. Vejo também que não gosta de se sentir triste, briga com isso, ou melhor, briga com alguém que não vê razões para que ele se entristeça. Eu penso diferente, acho que são muitas as razões pra que ele se entristeça, tenho até medo de pensar que o justo mesmo é ser triste e quando penso nisso tenho mais medo porque me sinto como ele, me sinto misturada, e decido: melhor não pensar. Ah! Olha ele aí de novo. Droga. Hoje é domingo. Não importa, hoje é domingo e pra mim domingo é bonito. É cheiroso. É macio, e acho que tem cheiro de Deus, não me importa se isso tem ou não tem sentido, se Deus existe ou já morreu, pra mim domingo tem cheiro de Deus, e é um cheiro bom, cheiro que ficou em mim, não sei desde quando, mas está em mim, acho mesmo que gosto muito deste cheiro de Deus em mim. Ele continua falando, não ouço, não quero ouvir mais, prefiro ficar olhando pra ele. Ele é muito bonito, mas não sabe disso. É bom, não sabe também. É um homem, nem desconfia.


Magda Maria Campos Pinto

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