sexta-feira, 26 de novembro de 2010

PERSONA


8. Segunda-feira



Ele está cabisbaixo. O corpo está tenso, mais que isso: está estirado, ou melhor, parece feito de outra matéria, não são músculos, não são ossos. Parece mesmo uma coisa rígida, madeira? Ferro? Ele se arrasta, convido para se sentar, não responde e se deixa cair na cadeira. Faz barulho, a cadeira balança, vacila, ele não, permanece duro, com as pernas esticadas como se nem fossem dele, fossem estranhos apêndices incômodos. Cabisbaixo. Cumprimento, puxo conversa. Não responde, resmunga e não deixa que eu veja os olhos. Não se move, eu insisto, quero conversa, falo do tempo chuvoso e de minha vontade de chorar. Ele não se comove. Mudo. E eu desisto. Me aquieto; sinto rancor e começo a pensar numa maneira de matá-lo. Queria vê-lo morrer sofrendo bastante, sangrando e gemendo. É isso, acho que é isso que ele merece, uma coisa dura assim deveria sofrer radicalmente assim, talvez amaciasse um pouco. Me imagino surrando-o com um porrete, é, amaciando seu corpo a pauladas, como se faz com um bife. Um bom bife. Argh, acho que nunca mais vou comer carne. Mas que me importa? É isso, ele não me interessa, que se dane, que saco! É, acho que não tenho que agüentar isso. Se eu cortasse seu pulso com uma incisão perfeita, com uma lâmina bem fininha que rompesse só a veia eu poderia assistir ele sangrando devagarzinho, o sangue saltaria primeiro com força, com a pressão que ele deve ter agora, mas depois ia cair, e caindo, caindo, depois gotejando... Hummm, mais interessante se eu cortasse as duas veias, uma de cada pulso, e observasse ele perdendo sangue aos poucos, aposto que ele ia amolecer, ia amolecendo... Quando já o vejo assim sangrando, amassado, assim humano, ele resolve falar. Inicia um discurso sobre a injustiça social, a má distribuição de renda, a corrupção dos políticos, cita filósofos. Pensa nas revoluções e na apatia dos povos. Não encontra sentido na vida se não for na luta pelo bem comum. Mas não tem a menor idéia de como fazer isso. Sente-se inviável, sorri como quem não acredita no que acabou de dizer, continua sem jeito, sem conforto, puro trejeito. Não penso mais, só ouço. Ele continua a discursar sobre a falta de sentido da vida não dedicada ao bem comum. E por isso, afirma que é impossível viver dignamente. E levanta a cabeça.
E então, eu percebo a absurda tristeza de seus olhos, a dor em seus braços e pernas estirados. Vejo o horror que enrijeceu o corpo, a injustiça que o silenciou... E então, sinto a esperança que, apesar de tudo, o alimentou. E sou, neste instante, só gratidão. Digo sou gratidão e ele respira um discreto sorriso.


Magda Maria Campos Pinto

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