sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Uma didática da invenção (conclusão)

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
Era a imagem de um vidro mole que fazia uma
Volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
Que o rio faz por trás de sua casa se chama
Enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
Que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

XX

Lembro um menino repetindo as tardes naquele quintal.


XXI

Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais
Ou no Viterbo –
A fim de consertar a minha ignorãça,
Mas só acrescenta.
- Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
- Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
- Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
- Coisa que não acaba no mundo é gente besta
E pau seco.
Etc.
Etc.
etc.
Maior que o infinito é a encomenda.
....

in O livro das Ignorãças, Manoel de Barros, op. cit.

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