quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

de Lóri para Wolf:


“(...) Foi o próprio Freud quem admitiu em 1895: “Não fui sempre um psicoterapeuta...; tenho ainda, eu mesmo, uma impressão curiosa de que as histórias clínicas que escrevo devem ser lidas como novelas...”
A arte de contar é conseqüente à arte de saber escutar, a qual ‘equivale quase àquela do bem falar’, escreve Jacques Lacan em 1964. As implicações levam longe: diante da dificuldade de descrever o desenvolvimento de um caso clínico, Freud evoca o trabalho artístico, falando mesmo de ‘composições poéticas inconscientes’. Certo: a clínica psicanalítica é também uma poética (poiésis): saber perceber as dobras da narrativa, saber ouvir as línguas que nela falam, saber entender o que foi esquecido, deslocado, superposto, transposto, travestido, repetido. A palavra ‘é semente de operação’ (Dante, O Banquete): com ela se faz e se desfaz, se pensa e se fantasia, se desenha e se projeta incessantemente a realidade. Mas é uma realidade a ser entendida como Wirklichkeit , ou seja , uma realidade que , enquanto efeito de um agir e e um produzir, se plasma na eficácia da palavra.
A clínica psicanalítica foge do modelo positivista. E a noção de ciência que ela implica é bem mais ampla que o critério positivista. A ciência da escuta inventada por Freud – que não se resolve na aplicação de uma ‘técnica’, como pensa a versão medicalista adotada pela psicoterapia – acentua aquela ‘ciência do particular’, diante da qual é preciso sabedoria, prudência (a phronèsis aristotélica). Quando muito, no ato psicanalítico não há téchne sem phronèsis, ou seja, sem aquela prudência cuja natureza é a mesma que encontramos no exercício da júris-prudência ou da júris-dição. O ato de palavra é um ato jurídico que tem uma eficácia material sobre a realidade ‘A cura pela fala’ (no duplo sentido): é a primeira formulação com que Freud definiu o método psicanalítico.


In As cidades de Freud, Giancarlo Ricci, Jorge Zahar Editor, RJ, 2005.

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