terça-feira, 21 de dezembro de 2010

PERSONA

(tela de Sabrina Hemmi)


9. Terça-feira

Ela levantou-se pesadamente. Pareceu-me estar colada na cadeira, foi um grande esforço ficar em pé. Arrastou-se. As pernas estavam travadas, o peso do mundo estava sobre seus ombros. Pensei. Jogou-se na cadeira, respirava pela boca, tentou sorrir, saiu apenas um esgar: irônico? Envergonhado? Cínico? Não. Não. Cansado. Exausto. E triste, muito triste. Sentei-me ao seu lado e ofereci água. Outro esgar. Irônico? Desdenhoso? Não saberia dizer. Digo que me sentei ao lado de um enigma triste. Tentei fugir para Drummond. Claro enigma. Não consegui, ouvi um suspiro bem perto, e dessa vez Drummond não me socorreu. Voltei-me para o suspiro. A respiração que era ofegante se acalmava, e apareceram grandes lagos em seus olhos. Estes brilhavam negros uma tristeza inteira, aquela que há pouco eu apenas supunha. Calada, emudeci de vez. Exausta, ela sussurrou ‘não quero me sentir ridícula, não quero me sentir idiota, não sou burra, não quero ter uma crise histérica, não quero trabalhar nem brilhar, nem ganhar dinheiro, muito menos ser dona de... ’ A estas alturas ela já estava falando alto, e os lagos transbordavam face abaixo. Soluçou, calando-se. Tentou sorrir e soluçou novamente. Retomou o sussurro ‘não vou arrancar os cabelos, não vou gritar... ‘. E gritou: ACONTECE QUE EU NÃO QUERO FAZER MAIS NADA. NADA. ENTENDEU? FILHO? É UMA BABAQUICE, SABIA? UMA ARMADILHA PRA GENTE SENTIR CULPA O RESTO DA VIDA, PRA GENTE MENTIR O RESTO DA VIDA. VIDA? QUE MERDA É ESTA? VOCÊ SABE? NÃO, VOCÊ NÃO SABE NADA. VOCÊ IMAGINA TUDO... As lágrimas secaram. Calou-se. Respirou fundo. Murmurou: ‘Você acha que acabei de ter uma crise histérica?’. Sorri. Cochichei: ‘Acho que não acabou’.
Magda Maria Campos Pinto

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