segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

PERSONA


13. Sábado

Havia um alpendre; a palavra alpendre me encantou. Quando a ouvi e entendi que se tratava de uma parte da casa, entendi também que seria a minha parte. Aos poucos percebi coisas incríveis sobre o alpendre: ele ficava na entrada, partia direto da rua, não tinha paredes inteiras, eram três meias paredes, um piso de ladrilhos verdes com desenhos brancos, e dois degraus que nos...

Era um esconderijo perfeito, você entende? Era aberto e as meias paredes me protegiam, ninguém se dava ao trabalho de olhar por cima de uma meia parede, era certo que não havia nada ali. Era uma entrada mas a porta que levava ao interior da casa estava sempre trancada, e todas as pessoas chegavam pelo chamado portão dos fundos (que ficava ao lado do alpendre) que levava diretamente da rua à porta da cozinha por um corredor lateral, e permanecia aberto dia e noite. Vivíamos numa aldeia do interior. Vivi pouco tempo na aldeia, e um tempo infinito no alpendre: contei-lhe os ladrilhos, aprendi seus desenhos finos, floridos, repetidos ao infinito. Gravei cada linha, cada marca, cada relevo mínimo, antigo ou novo, em suas meias paredes. Desconheci a parede inteira que carregava a porta para o interior da casa. Escolhi o infinito do alpendre. Saí da aldeia e carreguei o alpendre comigo. Ao infinito. Por exemplo, carreguei o Tunico Doido. Nada sei dele, ou sei tudo? Sei não. Eu o amava, ele andava pelas ruas, não tinha casa e conversava com as pedras. Era moreno, magro, tinha fartos cabelos negros, às vezes barba (como ele fazia barba?) e sempre bigode. Usava paletó preto sobre camisa de mangas compridas. Nunca sem paletó. Ele dizia para si mesmo: nunca sem paletó. Ele só falava consigo mesmo. Às vezes aparecia descomposto, é, não ria, era assim que os adultos falavam quando ele aparecia rasgado, eles queriam dizer que ele estava nu e que era perigoso. Nunca vi perigo no Tunico. Vi sim um universo desconhecido e imenso. Como o alpendre. Ele tinha uma pedra de estimação. Sempre a levava debaixo do braço e conversava longamente com ela. Tenho certeza que ele conhecia todas as linhas daquela pedra, era seu amigo. Os adultos riam dele, abusavam. Algumas crianças também, certamente para agradar os adultos. Mas a minha amiga, a vizinha, aquela do quintal imenso, não abusava. Ela o chamava para ir à casa dela; ele ia, tomava banho, aceitava comida, uma roupa limpa. Depois punha a pedra debaixo do braço e, conversando com ela, voltava para as ruas. O Tunico era infinito, como o alpendre, entende? Eu só entendo isso agora... Os diversos universos que carrego comigo... Você acredita em mim?

Magda Maria Campos Pinto

De memória e de saudade... E agora, José?



Desenredo
(Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro)

Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio de vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tranças do teu desejo
O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe
A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando,
a vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do seu cabelo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

AOS QUE CURTEM CINEMA


Sabe aquele filme de que você gostou muito, mas cujo título você não se lembra, nem dos nomes dos atores e das atrizes? Tudo o que você quiser saber (ou lembrar) sobre filmes estrangeiros em 65 anos está catalogado e ao seu alcance. Ficha completa de filmes. Em vários deles você poderá clicar para ouvir novamente a bela música da qual você jamais se esqueceu, e também mais abaixo de cada fichário dos filmes você poderá clicar e ver rodar um pequeno vídeo sobre alguns destes filmes.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Convite/Dica/Informação



Acontece de 26 de janeiro a 27 de fevereiro a segunda edição do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica de Porto Alegre, “FILE POA 2011”, no Santander Cultural (R. Sete de Setembro, 1028, Centro Histórico, Porto Alegre).
Considerado o maior evento do gênero no Brasil e na América Latina, e um dos maiores do mundo, o Festival que reúne trabalhos de arte interativa, instalações e objetos sonoros, animações computadorizadas e vídeos, abre suas portas nesta quarta-feira com o FILE Symposium - um debate sobre cultura digital no mundo, da qual participam artistas, teóricos e pesquisadores brasileiros e estrangeiros da área de arte-tecnologia. O debate tem entrada franca e ocorre das 17h às 19h, no Santander Cultural.

Para o meu pai, feliz aniversário!

Um sonho de Juana

Ela perambula pelo mercado de sonhos. As vendedoras estenderam sonhos sobre grandes panos no chão.

Chega ao mercado o avô de Juana, muito triste porque faz muito tempo que não sonha. Juana o leva pela mão e ajuda-o a escolher sonhos, sonhos de marzipã ou algodão, asas para voar dormindo, e vão-se embora os dois tão carregados de sonhos que não haverá bastante noite.

in Mulheres, Eduardo Galeano, L&PM Pocket, Porto Alegre, 2004

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Um belo filme resolve sempre.....


Assisti NINE. Foi uma ótima experiência. Do tipo cinema que comove. A homenagem ao cinema, ao Fellini, ao humano, à sua estranha beleza. Comovente também o esforço de Daniel Day, e, aliás, de todo elenco. Mastroianni é Marcelo, e pronto. Mas Daniel é muito bom também. Está distante de 8 ½, mas merece aplauso. Muitos. Voltarão os tempos da delicadeza?

NegritoTítulo original: Nine . 2009 (EUA). Direção: Rob Marshall

Atores: Daniel Day-Lewis, Penélope Cruz, Marion Cotillar, Nicole Kidman.112 min.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Para o Paulo:


“Aos olhos de Vassili Kaschirin, condenado à morte pela forca, tudo adquiriu um aspecto pueril: a cela, a porta com o seu postigo, o velho relógio que sempre davam corda, a fortaleza com seus tetos cuidadosamente modelados e, acima de tudo, o boneco mecânico, munido de fuzil, que ia e vinha pelo corredor, assim como todos os outros bonecos que o espantavam olhando pelo postigo e estendendo-lhe o alimento, sem dizer palavra.
O que ele experimentava não era horror perante a morte. Ele até a desejara. A morte, em sua misteriosa e eterna incompreensão, era mais clara para ele do que todo aquele mundo que se agitava em redor, como um desfile de fantasmas. Ainda mais: a morte aniquilara-se completamente neste mundo de fantasmas e bonecos, perdia o seu supremo e misterioso sentido, tornando-se uma coisa mecância e, apenas paor isso, horrível: prender, conduzir, enforcar, puxar pela perna, cortar a corda, pôr dentro de um caixão, transportar, enterrar.
Um homem tinha desaparecido.”



In Os sete enforcados, Leonid Andreiev, Grandes Romances Universais, W.M. Jackson Inc. Editores, S. P. 1955.
Sim, sim. Andreiev é um dos grandes, e talvez este conto seja uma das obras primas do gênero. Ele, o conto, foi dedicado ao Leon Tolstoi, talvez o maior. Faça ótimo proveito. Ele é um gênio. Podemos trabalhá-lo na próxima oficina. Gracias.

Faz Paz!

Por certo, de repente a vida faz um enorme sentido....
(O principe D. João de Orleans e Bragança (de boné e máscara) faz trabalho voluntário ajudando as vítimas da chuva no Rio de Janeiro. A questão é que de fato o outro existe... e só há sentido nisso)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cinema: Globo de Ouro / 2011

Vale a pena conhecer:

Melhor ator coadjuvante:
Andrew Garfield - “A rede social”
Geoffrey Rush - “O discurso do rei”
Jeremy Renner - “Atração perigosa”
Michael Douglas - “Wall Street: o dinheiro nunca dorme”
Cristian Bale – O vencedor – Vencedor

Melhor atriz em série dramática
Julianna Margulies - "The good wife"
Piper Perabo - "Covert affairs"
Elisabeth Moss - "Mad men"
Katey Sagal - "Sons of anarchy" - VENCEDORA
Kyra Sedgwic - "The closer"

Melhor minissérie ou filme de TV
"Carlos" - VENCEDOR"
The pacific"
"Pillars of the earth"
Temple grandin "
"You don’t know Jack"

Melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou filme de TV
Eric Stonestreet - "Modern family"
Chris Colfer - "Glee" - VENCEDOR
Scott Caan - "Hawaii 5.0"
Chris Noth - "The good wife"
David Strathairn - "Temple grandin"


Melhor ator em série dramática
Michael C. Hall - "Dexter"
Bryan Cranston - "Breaking bad"
Jon Hamm - "Mad Men"
Hugh Laurie - "House"
Steve Buscemi - "Boardwalk empire" - VENCEDOR

Melhor série dramática
"Mad men"
"Boardwalk empire" - VENCEDOR
"Dexter"
"The good wife"
"The walking dead"

Canção original
“Bound to you” - “Burlesque”
“You haven’t seen the last of me” - “Burlesque” - VENCEDORA
“There’s a place for us” - “As crônicas de Narnia: a viagem do peregrino da alvorada”
“Coming home” - “Country strong”
“I see the light” - “Enrolados”

Trilha sonora original
“127 horas”
“O discurso do rei”
“Alice no país das maravilhas”
“A rede social" - VENCEDORA
“A origem”

Melhor animação
“Meu malvado favorito”
“Enrolados”
“Como treinar o seu dragão”
“Toy story 3" - VENCEDORA
“O mágico”

Melhor atriz musical ou comédia
Anne Hathaway - “O amor e outras drogas”
Angelina Jolie - “O turista”
Annette Bening - “Minhas mães e meu pai” - VENCEDORA
Julianne Moore - “Minhas mães e meu pai”
Emma Stone - “A mentira”

Melhor ator em minissérie ou filme de TV
Idris Elba - "Luther"
Ian McShane - "Pillars of the earth"
Al Pacino - "You don't know Jack" - VENCEDOR
Dennis Quaid - "The special relantionship"
Edgar Ramirez - "Carlos"

Melhor atriz em minissérie ou filme de TV
Hailey Atwell - "Pillars of the earth"
Claire Danes - "Temple grandin" - VENCEDORA
Judi Dench - "Return to Cranford"
Romola Garai - "Emma"
Jenifer Love Hewitt, "The client list"

Melhor roteiro
Danny Boyle e Simon Beaufoy - “127 hours”
Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko - "Minhas mães e meu pai"
Christopher Nolan - “A origem”
David Seidler - “O discurso do rei”
Aaron Sorkin - “A rede social” - VENCEDOR

Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV
Hope Davis, "A miraculous year"
Jane Lynch, por "Glee" - VENCEDORA
Kelly Macdonald, "Boardwalk empire"
Julia Stiles, por "Dexter"
Sofia Vergara, por "Modern family"

Melhor filme estrangeiro
“Biutiful” (México)
“The concert” (França)
“The edge” (Rússia)
“I am love” (Itália)

Melhor atriz em série cômica ou musical
Tony Colette - "The united states of Tara"
Edie Falco - "Nurse Jackie"
Tina Fey - "30 rock"
Laura Linney - "The big C" - VENCEDORA
Lea Michele" - "Glee"

Melhor ator em série cômica ou musical
Alec Baldwin - "30 rock"
Steve Carell - "The office"
Jim Parsons - "The big bang theory" - VENCEDOR
Thomas Jane - "Hung"Matthew Morrison - "Glee"

Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams - “O vencedor”
Helena Boham Carter - “O discurso do rei”
Melissa Leo - “O vencedor” - VENCEDORA
Mila Kunis - “Cisne negro”
Jacki Weaver - “Animal kingdom”

Melhor diretor
Darren Arronofsky - “Cisne negro”
David Fincher - “A rede social” - VENCEDOR
Tom Hooper - “O discurso do rei”
Christopher Nolan - “A origem”
David O. Russell - O vencedor”

Melhor série cômica ou musical"
Glee" - VENCEDOR
"30 rock"
"The big bang theory"
"Modern family"
"Nurse Jackie"
"The big C"

Melhor ator musical ou comédia
Johnny Depp - “O turista”
Johnny Depp - “Alice no País das Maravilhas”
Paul Giamatti - “Barney’s version” - VENCEDOR
Jake Gyllenhaal - “O amor e outras drogas”
Kevin Spacey - “Casino Jack”

Melhor atriz de drama
Halle Berry - “Frankie and Alice”
Nicole Kidman - “Rabbit hole”
Natalie Portman - “Cisne negro” - VENCEDORA
Michelle Williams - “Blue valentine”
Jennifer Lawrence - “Inverno da alma”

Melhor filme musical ou comédia
“Burlesque”
“O turista”
"Minhas mães e meu pai” - VENCEDOR
“Red – Aposentados e perigosos”
“Alice no País das Maravilhas”

Melhor ator de drama
Jesse Veisenberg - “A rede social”
Colin Firth - “O discurso do rei” - VENCEDOR
James Franco - “127 horas”
Ryan Gosling - “Blue Valentine”
Mark Wahlberg - “O vencedor”

Melhor filme drama
“O cisne negro”
“O vencedor”
“A rede social” - VENCEDOR
“O discurso do rei”
“A origem”

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

... porque de repente a memória...


La canción final de la Cantata de Santa María de Iquique:

Ustedes que ya escucharon
La historia que se contó
No sigan allí sentados
Pensando que ya pasó.
No basta solo el recuerdo,
El canto no bastará.
No basta solo el lamento,
Miremos la realidad.

Quizás mañana o pasado
O bien, en un tiempo más,
La historia que han escuchado
De nuevo sucederá.
Es Chile un país tan largo,
Mil cosas pueden pasar
Si es que no nos preparamos
Resueltos para luchar.
Tenemos razones puras,
Tenemos por qué pelear.
Tenemos las manos duras,
Tenemos con qué ganar.

Unámonos como hermanos
Que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos
Jamás lo podrán lograr.
La tierra será de todos
También será nuestro el mar.
Justicia habrá para todos
Y habrá también libertad.
Luchemos por los derechos
Que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro,
De nadie más ha de ser


http://www.youtube.com/watch?v=_vKRosziN2A&feature=related

PERSONA

12. Quinta-feira

Eu nunca pensei que ninguém me amava. Eu sempre pensei que todos me amavam, que eu era o melhor de todos, eu era bom, não, eu sou bom, você sabe disso. Não sabe? Mas sempre soube que alguma coisa estava fora do lugar. Claro, as pessoas não me entendiam, não me entendem, acho que eu posso dizer isso. Acho que posso, as pessoas não me conhecem. Ah, nem sei o quê estou dizendo, nem sei. Tenho um segredo. Tinha, porque agora eu vou te contar. Tudo começou há mil anos... Não ria de mim, é a sensação que eu tenho, há mil anos. Eu não sabia o que fazer e criei uma ilha pra mim. Verdade. Criei uma ilha. Todos os dias, até hoje, eu vou até ela, e lá eu cuido da minha vida. Lá eu tenho uma casa. Linda! Ela tem um quarto enorme, com móveis pesados, antigos, grandes. A minha cama é imensa, ou melhor, a nossa cama. É verdade, lá eu também tenho um grande amor. Ela é tranqüila e bonita. Tem uns cabelos lisos, muito lisos, que lhe caem sobre os olhos e às vezes lhe cobrem a face inteira. Ela é loira. Tem uma voz macia, e gosta de falar baixinho. Eu a conheci na infância, eu a vi crescer. Fomos feitos um para o outro. Ela é muito independente, gosta de muitas coisas e faz todas as coisas de que gosta. Quando chego à nossa ilha, ela está a minha espera. Então conversamos, caminhamos de mãos dadas pela praia (ela gosta do contato com a areia, eu acho graça disso porque ela caminha sorrindo, sentindo a areia, falando com a areia). Eu gosto da água, logo quero dar meus mergulhos, caio no mar. Ela fica na areia me olhando, me observando com ansiedade. A coisa que eu mais gosto é de emergir de um mergulho e vê-la na praia, aguardando por mim. Me manda beijos quando me vê. Então eu mergulho novamente. Quando me canso volto para a praia, e como não gosto tanto assim da areia – na verdade, desgosto – ela deixa que me deite sobre ela. Eu me deito, e descanso. Depois voltamos pra casa, puros e justificados. A nossa casa tem uma varanda, não é grande, pelo contrário, é bem pequena, cabe apenas uma rede. E quase todos os dias ficamos ali, os dois. Deitados na rede, abraçados. Ela fica ouvindo os sons do mar e repetindo-os. É engraçado, não é engraçado: é delicioso ouvi-la pertinho do meu ouvido... o mar: http://www.youtube.com/watch?v=GEl-Qu7ApGQ . Agora, hoje, não quero contar mais...
Magda Maria Campos Pinto

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Boa leitura! Mais que isso...

(óleo sobre tela de Sabrina Hemmi - conheça: www.sabrinahemmi.com)


(...) “Eu acho que a mulher sai durante o dia! Vou contar por que – em segredo: eu a vi!
Posso vê-la por qualquer uma das minhas janelas!
É a mesma mulher, eu sei, porque ela está sempre rastejando, e a maioria das mulheres não rasteja por aí à luz do dia.
Eu a vejo na longa alameda sombreada, rastejando para um lado e para o outro. Vejo-a por entre as parreiras, rastejando em volta do jardim.
Eu a vejo naquela longa estrada, embaixo das árvores, rastejando, e quando uma carruagem passa, ela se esconde embaixo da amoreira. Não a censuro nem um pouco. Deve ser muito humilhante ser apanhada rastejando, em plena luz do dia!
Eu sempre tranco a porta quando rastejo durante o dia.” (Charlotte Perkins Gilman, O papel de parede amarelo)


In Freud e O Estranho, Contos fantásticos do Inconsciente, Casa da Palavra, RJ, 2007.

ps. obrigada, Débora F.

Auto2


Autoretrato

DON BELIANÍS DE GRECIA A DON QUIJOTE DE LA MANCHA
Soneto
Rompí, corté, abollé y dije y hice
Más que en el orbe caballero andante;
Fui diestro, fui valiente, fui arrogante;
Mil agravios vengué, cien mil deshice.
Hazañas di a la Fama que eternice;
Fui comedido y regalado amante;
Fue enano para mí todo gigante,
Y al duelo en cualquier punto satisfice.
Tuve a mis pies prostrad la Fortuna,
Y trajo del copete mi cordura
A la calva Ocasión al estricote.
Mas, aunque sobre el cuerno dela luna
Siempre se vio encumbrada mi ventura,
Tus proezas envidio, ¡oh gran Quijote!
Magda Maria Campos Pinto

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Auto1

Autoretrato

Primeiro parágrafo do prólogo de Cervantes ao Dom Quixote. Desocupado lector: sin juramento me podrás creer que quisiera que este libro, como hijo del entendimiento, fuera el más hermoso, el más gallardo y más discreto que pudiera imaginarse. Pero no he podido yo contravenir al orden de naturaleza, que en ella cada cosa engendra su semejante. Y, así, ¿qué podía engendrar el estéril y mal cultivado ingenio mío, sino la historia de un hijo seco, avellanado, antojadizo y lleno de pensamientos varios y nunca imaginados de otro alguno, bien como quien se engendró en una cárcel, donde toda incomodidad tiene su asiento y donde todo triste ruido hace su habitación? El sosiego, el lugar apacible, la amenidad de los campos, la serenidad de los cielos, el murmurar de las fuentes, la quietud del espíritu son grande parte para que las musas más estériles se muestren fecundas y ofrezcan partos al mundo que le colmen de maravilla y de contento. Acontece tener un padre un hijo feo y sin gracia alguna, y el amor que le tiene le pone una venda en los ojos para que no vea sus faltas, antes las juzga por discreciones y lindezas y las cuenta a sus amigos por agudezas y donaires. Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de don Quijote, no quiero irme con la corriente del uso, ni suplicarte casi con las lágrimas en los ojos, como otros hacen, lector carísimo, que perdones o disimules las faltas que en este mi hijo vieres, que ni eres su pariente ni su amigo, y tienes tu alma en tu cuerpo y tu libre albedrío como el más pintado, e estás en tu casa, donde eres señor de ella, como el rey de sus alcabalas, y sabes lo que comúnmente se dice, que ‘debajo de mi manto, al rey mato’, todo lo cual te exenta y hace libre de todo respeto y obligación, y, así, puedes decir de la historia todo aquello que te pareciere, sin temor que calumnien por el mal ni te premien por el bien que dijeres de ella.
Magda Maria Campos Pinto

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Para o Lucas:


(...) “Has de saber, ¡oh Sancho amigo!, que yo nací por querer del cielo en esta nuestra edad de hierro para resucitar en ella la dorada, o de oro. Yo soy aquel para quien están guardados los peligros, las hazañas grandes, los valerosos fechos…”


In Don Quijote de la Mancha, Edición del IV Centenario; Real Academia Española, 2004.

Uma leitura em janeiro:

Soprou, nunca do nada, o passado. Um traço de cobrança, dívida antiga, esquecida, oitenta e sete, ou oito... Talvez. Chegou agora, e é bom. Vamos lá.


Georges Perec – A vida modo de usar –

1.
(...) “Podemos deduzir daí algo que é, sem dúvida, a verdade última do puzzle: apesar das aparências, não se trata de um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzles, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro.”


Georges Perec - (7 de março de 1936- 3 de março de 1982) romancista, roteirista e ensaista francês. Inovador. Considerado por alguns o maior romancista francês do século XX. Filho de família judaico-polonesa, encontrou-se órfão já na primeira infância. Foi paraquedista do exército e pesquisador em neurofisiologia. Com o sucesso do livro La Vie mode d’emploi, publicado em 1978, deixa os outros trabalhos e se dedica à literatura.
Passa os últimos 6 anos de sua vida com a cineasta Catherine Binet, tendo produzido o filme Les Jeux de la comtesse Dolingen de Graz. Morre em 3 de março de 1982 e é enterrado no Cemitério do Père-Lachaise. Possui uma série de textos publicados postumamente.
A obra escrita por Perec é permeada de engenhosos jogos de palavras, exercícios de escrita constrangida e reflexões sobre o estilo.
Georges Perec torna-se conhecido desde a publicação de seu primeiro romance, Les Choses. Uma história dos anos 1960, publicada por Maurice Nadeau na coleção Lettres Nouvelles da editora Julliard. Esta obra que retrata um tempo na fronteira da sociedade de consumo. O romance, Un Homme qui dort, é um retrato da solidão urbana inspirado tanto por Kafka e por Bartleby de Melville, acabando de classificar Perec na categoria dos inclassificáveis.
O que o lançamento de La Disparition acaba por confirmar. Além da extravagante proesa deste romance (La disparition é um romance onde desaparece a letra e, vogal mais utilizada no francês) as contorções à que a língua é submetida neste romance são à altura da sua temática: a ausência e a dor que ela causa.
Como outros autores dos anos 1960, Perec tem igualmente uma atividaderadiofônica, escreve para o teatro e publica ensaios. Após o lançamento de La disparition, Georges Perec publica em co-autoria um tratado sobre o Go, jogo que praticava frequentemente. Go, Weiqi ou Baduk é um jogo estratégico de soma zero, de informação perfeita para tabuleiro, em que duas pessoas posicionam pedras de cores opostas. Sua origem vem da antiga China, há cerca de 5 mil anos. Popularizou-se no Japão.

http://www.youtube.com/watch?v=UpKAKuN5G8k

GO

Obrigada, Ananias.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

mas, antes que o sol se ponha... que se ganhe o dia.


(...) “Há o hipotrélico. O termo é novo, de impesquisada origem e ainda sem definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado. Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se hipotrélico querendo dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou, talvez, vice-dito: indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência.”

Idem

outra vez...


(...) “E... sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado, apenas – mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal... e era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só.

Idem

porque de repente dói...


(...) “Me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era – o transparente contemplador?”


In Primeiras estórias, Guimarães Rosa, J. Olympio, RJ, 1972.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Beijos da Cristina Borges. Beijos para a Cristina Borges.


Queridos amigos tão queridos,

Como vem aí um ano novo novíssimo, tipo aqueles cadernos do primeiro dia de aula, com um cheiro de folha branca e um sabor de possibilidade, eu mando um poema (mais a vibração de um grande desejo: que 2011 seja uma maravilha!).

beijos!

Cântico XIII

Cecília Meireles.

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


Querida Cristina,
desejamos algo assim, assim... poético, lindo, suave, assim como você é capaz de inventar.... saudades. Até novos dias, novas invenções, então. Novos encontros com muita arte.

PERSONA


11.Quarta-feira

Chove. Tentação dizer lá fora. Rio. Ridículo, mas chove lá fora, há um ruído discreto e permanente, já são dias tais como hoje, não ria você, você não, já é noite, ou melhor, é bem manhãzinha, tipo uma da manhã, dia 29 ou dia 30, é isso, um dos dois, e o Chico está há dias, desde o natal tocando no meu computador, nunca, nunca isso aqui foi tão confortável, tão farto. Você acha estranho eu dizer assim ‘Chico’, só isso, como se.... ah, não me perturbe, te digo, eu sou brasileiro. Uma coisa que eu gosto de brasileiro é esta insistência na alegria. Sem metafísicas, por favor, hoje não. Tou cansado e triste. E alegre por ser brasileiro hoje. Meu computador, meu quarto, minha janela, a varanda, chove lá fora, Chico canta como encantado, incenso, tomei pílulas para dormir, estou dormindo bem fora do normal, tipo dormindo durante o dia, e agora, tipo 2 e 20 da manhã tomei tantão de remédio pra dormir, estou cansado, e começo a descansar, me sinto algo culpado, fiquei desconectado, fora do ar por mais que um dia, sem internet, sem energia por algumas horas, muita chuva, barra, difícil passagem, seja entrada seja saída. Ela se foi. Foi bem. Foi bom. Estou bem, como me sinto não interessa a ninguém. É isso. Chico, papai tá lá roça, não me faça rir, pra ser um tutumarambá, vem que eu te quero todo meu, rio, das chuvas que apanhei, que quero te mostrar as marcas que eu ganhei, uau, juro que fazia sentido, juro que isso faz sentido sempre e quando, qualquer coisa, qualquer trem venha a fazer sentido. Meu corpo. Uau. Isso tá muito difícil. Tenho tudo o que eu quiser. Tou me sentindo muito estranho.

- Parece-me falta de imaginação.

Não me importa o que parece. Me escute apenas, por favor. Queria sentir sono, queria dormir dormir , mais que este tanto que dizem que estou dormindo, quero dormir muito, melhor dizer logo que não vou tomar mais remédio, sei o que quer dizer isso, estou em pânico, não quero ficar aqui, ou quero? Não, não, isso tá decidido, não fico aqui, meu lugar é lá, onde tudo deveria ser, ser lá, sei lá, seria escuro? Saudade de alguma inocência, todo mundo sabe disso, sabe da minha inocência, mas sei, inocência de repente consigo atribuí-la a mim, tudo está bem, eu disse, mas não sei, difícil sustentar isso, mas alguma coisa estava bem agora, alguma coisa, eu tava só cansado, você também, o dizia toda hora, mas não sei se sabia tudo o que você dizia, por exemplo, foi esquisito aquela história de me dizer que o pior era saber que eu ia passar por aquilo, muito difícil, meu susto, meu engolir seco, seu susto, sua recuperação, ‘nesta hora você não vai se importar, vai se lembrar que todo mundo passa por isso, mais dia, menos dia”, seu susto, meu medo, medo, medo, triste eu estou, vou ficar assim, mas quero te dizer que vou tentar ficar bem. Me mudo amanhã. Vou tentar ficar bem.

Magda Maria Campos Pinto

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

PERSONA

10. Segunda-feira

Há conexões disponíveis, parece-me a última mentira que registrei, e digo que registrei porque te estou contanto isso e tenho que admitir, sob vários pontos de vista, as coisas, as coisas... Humm, te conto: estou cansada (isso você já sabia), senti uma súbita e intensa fraqueza, um desânimo absoluto. Não há como dizer isso; e tudo era exuberante. As árvores estavam verdes, meio verdes, verdíssimas. Verdes. Verdes claros. Escuros. E eu estava exangue. Subitamente. Tive memórias. Boas. Más. Em muitos sentidos. Eu senti raiva, medo, alegria, frescor, força, esperança e tanto e tanto e tanto de inconsciência e de amor pelo meu pai, e agora a falta que todo mundo inventa que ele faz é, é só mais mentira. Amo o teatro, abomino o real burocrático. É possível que eu esteja enlouquecendo, ahhh, doce ilusão, nem isso conseguirei mais. Você vai me suportar até quando? E agora eu tenho um laptop, um quarto só pra mim, uma cama só pra mim. Tenho demais pra mim, e sinto uma boa saudade do meu pai. Tenho demais, mas sim há muita falta, uma falta que é outra, não tem nada a ver com meu pai, é a mesma que já se sentia sempre, desde sempre, sempre, desde a primeira vez que a senti, e me lembro muito bem, muito claramente, foi quando senti de maneira quase material que a minha mãe não existia. Preciso reescrever isso: a minha mãe não existia. Nunca existiu. E agora, o que eu faço com esta pessoa que atravessa o meu caminho toda hora, finge que eu não existo, e logo depois finge que eu existo demais, mas uma única coisa acontece, de novo, e sempre, como sempre, desde quando não havia laptop, nem casa, nem cama, nem luz, nem amor. Rio, minto, não rio, das conexões disponíveis. Eu vivi sem conexão, sim, sim, sou a rainha das histórias. Foi assim, a rainha das histórias, chegando ao porto, com séquito e tudo o mais que uma rainha tem direito, tapete vermelho, por exemplo. Mas eu te dizia: estou só, continuo só, e ela, a minha ex-mãe (outro nome impossível), nem aí, é claro, isso e/ou nada mudou. Eu contava que nossa amiga morreu, foi atropelada por uma motocicleta no dia trinta e um de dezembro de dois mil e dez, às seis horas da tarde. Saía do salão de beleza, estava ficando bonita para o baile, depois da missa. Naquele dia, solene. No dia seguinte, os corajosos filhos dela agradeciam a Deus por terem tido aquela mãe, e por terem fé. São admiráveis. Sinto-me muito mal, são tantas pessoas, tantas coisas difíceis, ninguém é privilegiado, mas eu não quero perdoar. Não quero. Quase morro por causa de um cigarro, não posso fumar. Dizer: e agora José? Seria uma banalidade, um esnobismo, uma solidão, mais uma, e ninguém sabe, ninguém quer saber. Eu contava? A outra queria morrer, que mais eu podia dizer? Que não morresse? Como assim? Se eu mesma queria morrer? Eu mesmo? Ah, eu mesma? E de repente me perco em questões assim: eu mesmo, eu mesma... E isso quer dizer que não quero morrer? Estou cansada e isso não importa a ninguém. Tenho vontade de cantar um salmo. Prepara-me misericórdia e verdade que me protejam... Há conexões disponíveis?

- Digo duas coisas: à caça de conexões... Me agrada. Acreditei: verdade e prudência só, purinhas, sequinhas, é muito pra uma só pessoa. Põe ficção nisso, põe.

Magda Maria Campos Pinto