quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

PERSONA

10. Segunda-feira

Há conexões disponíveis, parece-me a última mentira que registrei, e digo que registrei porque te estou contanto isso e tenho que admitir, sob vários pontos de vista, as coisas, as coisas... Humm, te conto: estou cansada (isso você já sabia), senti uma súbita e intensa fraqueza, um desânimo absoluto. Não há como dizer isso; e tudo era exuberante. As árvores estavam verdes, meio verdes, verdíssimas. Verdes. Verdes claros. Escuros. E eu estava exangue. Subitamente. Tive memórias. Boas. Más. Em muitos sentidos. Eu senti raiva, medo, alegria, frescor, força, esperança e tanto e tanto e tanto de inconsciência e de amor pelo meu pai, e agora a falta que todo mundo inventa que ele faz é, é só mais mentira. Amo o teatro, abomino o real burocrático. É possível que eu esteja enlouquecendo, ahhh, doce ilusão, nem isso conseguirei mais. Você vai me suportar até quando? E agora eu tenho um laptop, um quarto só pra mim, uma cama só pra mim. Tenho demais pra mim, e sinto uma boa saudade do meu pai. Tenho demais, mas sim há muita falta, uma falta que é outra, não tem nada a ver com meu pai, é a mesma que já se sentia sempre, desde sempre, sempre, desde a primeira vez que a senti, e me lembro muito bem, muito claramente, foi quando senti de maneira quase material que a minha mãe não existia. Preciso reescrever isso: a minha mãe não existia. Nunca existiu. E agora, o que eu faço com esta pessoa que atravessa o meu caminho toda hora, finge que eu não existo, e logo depois finge que eu existo demais, mas uma única coisa acontece, de novo, e sempre, como sempre, desde quando não havia laptop, nem casa, nem cama, nem luz, nem amor. Rio, minto, não rio, das conexões disponíveis. Eu vivi sem conexão, sim, sim, sou a rainha das histórias. Foi assim, a rainha das histórias, chegando ao porto, com séquito e tudo o mais que uma rainha tem direito, tapete vermelho, por exemplo. Mas eu te dizia: estou só, continuo só, e ela, a minha ex-mãe (outro nome impossível), nem aí, é claro, isso e/ou nada mudou. Eu contava que nossa amiga morreu, foi atropelada por uma motocicleta no dia trinta e um de dezembro de dois mil e dez, às seis horas da tarde. Saía do salão de beleza, estava ficando bonita para o baile, depois da missa. Naquele dia, solene. No dia seguinte, os corajosos filhos dela agradeciam a Deus por terem tido aquela mãe, e por terem fé. São admiráveis. Sinto-me muito mal, são tantas pessoas, tantas coisas difíceis, ninguém é privilegiado, mas eu não quero perdoar. Não quero. Quase morro por causa de um cigarro, não posso fumar. Dizer: e agora José? Seria uma banalidade, um esnobismo, uma solidão, mais uma, e ninguém sabe, ninguém quer saber. Eu contava? A outra queria morrer, que mais eu podia dizer? Que não morresse? Como assim? Se eu mesma queria morrer? Eu mesmo? Ah, eu mesma? E de repente me perco em questões assim: eu mesmo, eu mesma... E isso quer dizer que não quero morrer? Estou cansada e isso não importa a ninguém. Tenho vontade de cantar um salmo. Prepara-me misericórdia e verdade que me protejam... Há conexões disponíveis?

- Digo duas coisas: à caça de conexões... Me agrada. Acreditei: verdade e prudência só, purinhas, sequinhas, é muito pra uma só pessoa. Põe ficção nisso, põe.

Magda Maria Campos Pinto

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