quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PERSONA


11.Quarta-feira

Chove. Tentação dizer lá fora. Rio. Ridículo, mas chove lá fora, há um ruído discreto e permanente, já são dias tais como hoje, não ria você, você não, já é noite, ou melhor, é bem manhãzinha, tipo uma da manhã, dia 29 ou dia 30, é isso, um dos dois, e o Chico está há dias, desde o natal tocando no meu computador, nunca, nunca isso aqui foi tão confortável, tão farto. Você acha estranho eu dizer assim ‘Chico’, só isso, como se.... ah, não me perturbe, te digo, eu sou brasileiro. Uma coisa que eu gosto de brasileiro é esta insistência na alegria. Sem metafísicas, por favor, hoje não. Tou cansado e triste. E alegre por ser brasileiro hoje. Meu computador, meu quarto, minha janela, a varanda, chove lá fora, Chico canta como encantado, incenso, tomei pílulas para dormir, estou dormindo bem fora do normal, tipo dormindo durante o dia, e agora, tipo 2 e 20 da manhã tomei tantão de remédio pra dormir, estou cansado, e começo a descansar, me sinto algo culpado, fiquei desconectado, fora do ar por mais que um dia, sem internet, sem energia por algumas horas, muita chuva, barra, difícil passagem, seja entrada seja saída. Ela se foi. Foi bem. Foi bom. Estou bem, como me sinto não interessa a ninguém. É isso. Chico, papai tá lá roça, não me faça rir, pra ser um tutumarambá, vem que eu te quero todo meu, rio, das chuvas que apanhei, que quero te mostrar as marcas que eu ganhei, uau, juro que fazia sentido, juro que isso faz sentido sempre e quando, qualquer coisa, qualquer trem venha a fazer sentido. Meu corpo. Uau. Isso tá muito difícil. Tenho tudo o que eu quiser. Tou me sentindo muito estranho.

- Parece-me falta de imaginação.

Não me importa o que parece. Me escute apenas, por favor. Queria sentir sono, queria dormir dormir , mais que este tanto que dizem que estou dormindo, quero dormir muito, melhor dizer logo que não vou tomar mais remédio, sei o que quer dizer isso, estou em pânico, não quero ficar aqui, ou quero? Não, não, isso tá decidido, não fico aqui, meu lugar é lá, onde tudo deveria ser, ser lá, sei lá, seria escuro? Saudade de alguma inocência, todo mundo sabe disso, sabe da minha inocência, mas sei, inocência de repente consigo atribuí-la a mim, tudo está bem, eu disse, mas não sei, difícil sustentar isso, mas alguma coisa estava bem agora, alguma coisa, eu tava só cansado, você também, o dizia toda hora, mas não sei se sabia tudo o que você dizia, por exemplo, foi esquisito aquela história de me dizer que o pior era saber que eu ia passar por aquilo, muito difícil, meu susto, meu engolir seco, seu susto, sua recuperação, ‘nesta hora você não vai se importar, vai se lembrar que todo mundo passa por isso, mais dia, menos dia”, seu susto, meu medo, medo, medo, triste eu estou, vou ficar assim, mas quero te dizer que vou tentar ficar bem. Me mudo amanhã. Vou tentar ficar bem.

Magda Maria Campos Pinto

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