sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

PERSONA

12. Quinta-feira

Eu nunca pensei que ninguém me amava. Eu sempre pensei que todos me amavam, que eu era o melhor de todos, eu era bom, não, eu sou bom, você sabe disso. Não sabe? Mas sempre soube que alguma coisa estava fora do lugar. Claro, as pessoas não me entendiam, não me entendem, acho que eu posso dizer isso. Acho que posso, as pessoas não me conhecem. Ah, nem sei o quê estou dizendo, nem sei. Tenho um segredo. Tinha, porque agora eu vou te contar. Tudo começou há mil anos... Não ria de mim, é a sensação que eu tenho, há mil anos. Eu não sabia o que fazer e criei uma ilha pra mim. Verdade. Criei uma ilha. Todos os dias, até hoje, eu vou até ela, e lá eu cuido da minha vida. Lá eu tenho uma casa. Linda! Ela tem um quarto enorme, com móveis pesados, antigos, grandes. A minha cama é imensa, ou melhor, a nossa cama. É verdade, lá eu também tenho um grande amor. Ela é tranqüila e bonita. Tem uns cabelos lisos, muito lisos, que lhe caem sobre os olhos e às vezes lhe cobrem a face inteira. Ela é loira. Tem uma voz macia, e gosta de falar baixinho. Eu a conheci na infância, eu a vi crescer. Fomos feitos um para o outro. Ela é muito independente, gosta de muitas coisas e faz todas as coisas de que gosta. Quando chego à nossa ilha, ela está a minha espera. Então conversamos, caminhamos de mãos dadas pela praia (ela gosta do contato com a areia, eu acho graça disso porque ela caminha sorrindo, sentindo a areia, falando com a areia). Eu gosto da água, logo quero dar meus mergulhos, caio no mar. Ela fica na areia me olhando, me observando com ansiedade. A coisa que eu mais gosto é de emergir de um mergulho e vê-la na praia, aguardando por mim. Me manda beijos quando me vê. Então eu mergulho novamente. Quando me canso volto para a praia, e como não gosto tanto assim da areia – na verdade, desgosto – ela deixa que me deite sobre ela. Eu me deito, e descanso. Depois voltamos pra casa, puros e justificados. A nossa casa tem uma varanda, não é grande, pelo contrário, é bem pequena, cabe apenas uma rede. E quase todos os dias ficamos ali, os dois. Deitados na rede, abraçados. Ela fica ouvindo os sons do mar e repetindo-os. É engraçado, não é engraçado: é delicioso ouvi-la pertinho do meu ouvido... o mar: http://www.youtube.com/watch?v=GEl-Qu7ApGQ . Agora, hoje, não quero contar mais...
Magda Maria Campos Pinto

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