segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

PERSONA


13. Sábado

Havia um alpendre; a palavra alpendre me encantou. Quando a ouvi e entendi que se tratava de uma parte da casa, entendi também que seria a minha parte. Aos poucos percebi coisas incríveis sobre o alpendre: ele ficava na entrada, partia direto da rua, não tinha paredes inteiras, eram três meias paredes, um piso de ladrilhos verdes com desenhos brancos, e dois degraus que nos...

Era um esconderijo perfeito, você entende? Era aberto e as meias paredes me protegiam, ninguém se dava ao trabalho de olhar por cima de uma meia parede, era certo que não havia nada ali. Era uma entrada mas a porta que levava ao interior da casa estava sempre trancada, e todas as pessoas chegavam pelo chamado portão dos fundos (que ficava ao lado do alpendre) que levava diretamente da rua à porta da cozinha por um corredor lateral, e permanecia aberto dia e noite. Vivíamos numa aldeia do interior. Vivi pouco tempo na aldeia, e um tempo infinito no alpendre: contei-lhe os ladrilhos, aprendi seus desenhos finos, floridos, repetidos ao infinito. Gravei cada linha, cada marca, cada relevo mínimo, antigo ou novo, em suas meias paredes. Desconheci a parede inteira que carregava a porta para o interior da casa. Escolhi o infinito do alpendre. Saí da aldeia e carreguei o alpendre comigo. Ao infinito. Por exemplo, carreguei o Tunico Doido. Nada sei dele, ou sei tudo? Sei não. Eu o amava, ele andava pelas ruas, não tinha casa e conversava com as pedras. Era moreno, magro, tinha fartos cabelos negros, às vezes barba (como ele fazia barba?) e sempre bigode. Usava paletó preto sobre camisa de mangas compridas. Nunca sem paletó. Ele dizia para si mesmo: nunca sem paletó. Ele só falava consigo mesmo. Às vezes aparecia descomposto, é, não ria, era assim que os adultos falavam quando ele aparecia rasgado, eles queriam dizer que ele estava nu e que era perigoso. Nunca vi perigo no Tunico. Vi sim um universo desconhecido e imenso. Como o alpendre. Ele tinha uma pedra de estimação. Sempre a levava debaixo do braço e conversava longamente com ela. Tenho certeza que ele conhecia todas as linhas daquela pedra, era seu amigo. Os adultos riam dele, abusavam. Algumas crianças também, certamente para agradar os adultos. Mas a minha amiga, a vizinha, aquela do quintal imenso, não abusava. Ela o chamava para ir à casa dela; ele ia, tomava banho, aceitava comida, uma roupa limpa. Depois punha a pedra debaixo do braço e, conversando com ela, voltava para as ruas. O Tunico era infinito, como o alpendre, entende? Eu só entendo isso agora... Os diversos universos que carrego comigo... Você acredita em mim?

Magda Maria Campos Pinto

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