segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Vencedores do Oscar/11


Foi uma festa menos chata que as anteriores; decepção só para os brasileiros: documentário LIXO EXTRAORDINÁRIO perdeu para a crise americana: Trabalho Interno. Sob certo ponto de vista, está certo (eu não vi Trabalho Interno, não posso falar enquanto filme); venceram O discurso do Rei, Colin Firth, Natalie Portman, Melissa Leo e Cristian Bale, e A Origem, com vários prêmios técnicos. Para mim, ficou bom. Mas Biutiful, merecia um prêmio (especial, que fosse). e Lixo Extraordinário também.

Os vencedores:

Melhor filme: "O Discurso do Rei"
Melhor diretor: Tom Hooper: ("O Discurso do Rei")
Melhor Ator: Colin Firth ("O Discurso do Rei")
Melhor atriz: Natalie Portman ("Cisne Negro")

Melhor ator coadjuvante: Christian Bale ("O Vencedor")
Melhor atriz coadjuvante: Melissa Leo ("O Vencedor")


Melhor roteiro original: "O Discurso do Rei"
Melhor roteiro adaptado: "A Rede Social"
Melhor filme de animação: "Toy Story 3"
Melhor filme estrangeiro: "Em um Mundo Melhor" (Dinamarca)
Melhor fotografia: "A Origem"
Melhor edição: "A Rede Social"
Melhor direção de arte: "Alice no País das Maravilhas"
Melhor figurino: "Alice no País das Maravilhas"
Melhor maquiagem: "O lobisomen"
Melhor trilha musical: "A Rede Social"
Melhor canção original: "We Belong Together" ("Toy Story 3")

Melhor mixagem de som: "A Origem"
Melhor edição de som: "A Origem"
Melhores efeitos visuais: "A Origem"
Melhor documentário: "Trabalho Interno"
Melhor documentário de curta: "Strangers No More"
Melhor curta de animação: "The Lost Thing"
Melhor curta de ficção: "God of Love"

Uma das mais belas metáforas do infinito: para Marcel

“Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide... vi intermináveis olhos próximos se perscrutando em mim, como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu... Vi o Aleph, vi no Aleph a terra, e na terra outra terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham contemplado esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo”.

In O Aleph, Jorge Luis Borges, 1949.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ps de ps:

E me lembro que de repente houve uma tristeza em mim. Um estranho em mim. Meu tamanho não era grande; ainda me vejo: tinha a altura da mesa, sobre a qual eu via alguns objetos e duas mãos de mulher, ágeis, manipulando aquelas coisas, todas ao mesmo tempo, eu pensava. Aroma de açúcar. Ruído de liquidificador. Dentro de mim, um coração teimoso, trêmulo, não me obedecia. E de repente, meus olhos viram a latinha de Pó Royal. E dentro dela, outra latinha. E desta, outra... E depois outra. E mais uma. Então, eu caí dentro da latinha, como Alice caiu na toca do coelho. Encontros possíveis. E como é que os nossos dois heróis poderão terminar juntos? Se entre eles houver uma atração que – como costuma acontecer com tais forças – seja proporcional ao inverso do quadrado das distâncias, então após um tempo finito algo explosivo ocorrerá. Costuma-se chamar de “singularidade” eventos desse tipo. E até mesmo o físico, normalmente obrigado a permanecer no campo da realidade e do finito, há de reconhecer que, nesse momento, velocidade, força e energia tornam-se infinitos. Scientific American Brasil. Edição Especial. Duetto. 2005. Obrigada, Marcel. E depois dei de pensar. Eu quero sair daqui. E agora, penso: ainda não encontrei a saída. E mora ainda uma tristeza em mim.

Magda Maria Campos Pinto

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Momento Guimarães Rosa


“Daí mas descambava, o dia abaixando a cabeça morre-não-morre o sol. O oõo das vacas: a vaca Belbutina, a vaca Trombeta, a vaca Brindada.... O enfile delas todas, tantas vacas, vindo lentamente do pasto, sobre pé de pó. Atitiva um assovio de perdiz, na borda-do-campo. Voando quem passava era a marreca-cabocla, um pica-pau pensoso, casais de araras. O gaviãozinho, o gavião-pardo do cerrado, o gaviãozinho pintado. A gente sabia esses todos vivendo de ir s’embora, se despedidos. Ópio das rolinhas mansa, no tarde-cai, o ar manchado de preto. Daí davam as cigarras, e outras. A rã rapa-cúia. O sorumbo dos sapos. Aquele lugar do Mutúm era triste, era feio. O morro, mato escuro, com todos os maus bichos esperando, para lá essas urubuguáias. A ver, e de repente, no céu, por cima dos matos, uma coisa preta desforme se estendendo, batia para ele os braços: ia ecar, para ele, Miguilim, algum recado desigual? “São os morcegos? Se fossem só os morcegos?!...”Depois, depois, tinha de entrar p’ra dentro, beber leite, ir para o quarto. Não dormia dado. Queria uma coragem de abrir a janela, espiar no mais alto, agarrado com os olhos, elas todas, as Sete-Estrelas. Queria não dormir, nunca. Queria abraçar o Ditinho, conversar, mas não tinha diligência, não tinha ânimo.”

In Manuelzão e Miguilim, Guimarães Rosa, Nova Fronteira, RJ, 1987.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Por que...


“Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo...”

(Carlos Drummond de Andrade)



p.s: obrigada, Margarida.

Para mim, é, pramim.


É que estou precisando contar que estou feliz. Meu coração está enlouquecido. E melhor, estou feliz porque aprendi um montão de coisas, agorinha mesmo. Aprendi porque não sou de ferro, porque não estou acabada, porque tenho sangue nas veias. Assisti LIXO EXTRAORDINÁRIO.

Vic Muniz também ensina:




Em agosto de 2009, Vic Muniz esteve em BH e aqui no Quase-Ser-Tão. Agora está nas telas do mundo. Quem já conhece, pode conhecer mais. Quem não conhece, aproveite agora...
LIXO EXTRAORDINÁRIO – documentário que concorre ao Oscar.

Em tempo, a premiação Oscar/2011 é domingo próximo, dia 27.


p.s: obrigada, Gisella.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sem Palavras.

OK. Preparem os seus corações. Lembramos que a maior motivação do nosso clube é EDUCAÇÃO. Parabéns ao pessoal do vídeo, merecido prêmio. E meu coração doendo...


ps. obrigada, Rodrigo.

Herzog 2:


O filme começa mostrando um jovem acorrentado num porão, impedido de ficar de pé, e que brinca com um cavalinho de madeira enquanto pronuncia ‘cavalo’. Ele é alimentado, à noite, por um homem misterioso (não se deixa ver) que também lhe oferece papel e tinta.
Numa manhã, o misterioso homem tira Kaspar do porão e o deixa numa cidade próxima, com uma carta anônima para o oficial da cavalaria local, contando que o rapaz fora criado sem nenhum contato humano, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como o fora seu pai. (isto aconteceu na Alemanha em 1828, na cidade de Nuremberg).
Adotado por uma família, e por um padre, durante dois anos, ele adquire sua linguagem, aprende facilmente música, tricô e jardinagem, mas não assimila as convenções da época, os princípios ligados à ordem social, à ciência, à religião. Fácil de entender: convenções são aleatórias, são acordos que atendem a algum interesse. Kaspar mantém o olhar e a curiosidade infantis, ele ‘apenas’ vive, e se espanta. É só isso, é tudo isso.


Ele não entende o que lhe dizem; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Aprendeu rapidamente a falar e andar. Demonstrava grande docilidade, simplicidade, e gentileza. Estas características tornaram-no objeto de espanto e curiosidade crítica. Por ser assim tão simples é considerado idiota. E Kaspar percebe a rejeição. E não pode compreendê-la. Herzog não perde tempo e mostra, com ênfase, as convenções sociais que Kaspar não consegue assimilar.
Abre-se um processo para resolver a situação do rapaz; surge então a figura de escrivão, que acompanha as tentativas de ‘socializar’ o rapaz, anotando e repetindo cada frase ou gesto a respeito dele. Registra ‘tintim por tintim’ as tentativas de civilizar o sujeito, dos religiosos, do cientista que descobre sua incapacidade de pensamento lógico, a exposição dele num circo (para que possa pagar as despesas que causa àqueles que o ajudam). Esta sequência do circo é extraordinária; Kaspar aparece ao lado de um anão/rei, tão pequeno, tão pequeno sentado em seu trono, que não pode fazer nada sem ajuda; um índio, selvagem e cheio de crendices, e um louco obcecado por um buraco. O discurso do apresentador do espetáculo é uma peça crítica fantástica, e cômica, se não fosse trágica.
Um ano depois de ter chegado a Nuremberg, Kaspar sofre um atentado, sendo gravemente ferido na face. Não reage, mostra-se apenas perplexo diante do agressor. O filme mostra o agressor como o mesmo homem misterioso que cuidava dele no cárcere. Em dezembro de 1833, recebe outra agressão, agora fatal. Ou seja, Kaspar é assassinado.
Masson, um dos autores que se dedicou a estudar o estranho de Nuremberg, diz em seu livro, que em dezembro de 1833, K. Hauser foi atraído para uma emboscada, com a promessa de receber informações sobre seu nascimento. No local, em vez disso, recebeu uma facada no peito, morrendo três dias depois. Ele defende a tese de que Kaspar era um descendente de Napoleão, e que foi isolado para deixar a herança a outrem. Libertado na adolescência, o interesse que sua história despertou, teria ameaçado seus parentes, a ponto de decidirem pelo assassinato. Não há consenso a respeito, ou seja, o enigma sobre o estranho rapazinho criado no isolamento permanece. (The Lost Prince: the Unsolved Mistery of Kaspar Hauser, Jeffrey Moussaieff Masson, 1997). Existem estudos vários e controversos a respeito de Kaspar, o qual ainda serve de modelo para interpretações as mais diversas; sejam sociológicas, psicológicas, filosóficas. Mas, voltemos ao filme. Aliás, a curiosidade quanto à história da pessoa sem que isso signifique interesse pela própria pessoa é denunciada no filme, enquanto percepção e queixa do próprio Kaspar.




Herzog se interessa antes pelo homem, pelo que o homem pode fazer, e faz, com o homem. Um de seus grandes méritos é a capacidade descritiva, fenomenológica eu diria, de mostrar, apontar, com delicadeza e elegância, antes de julgar, explicar, definir ou determinar. Que fique claro: todo ato ou gesto humano, carrega em si mesmo, necessariamente, um julgamento. Uma escolha é feita. Assim, assistimos a escolha de Herzog, naturalmente. Isto é, a crítica à tirania das convenções está lá; veja e reveja quem quiser.


Tanto Masson (1997), quanto Herzog (1974) e Blikstein (1983) anotam o mal estar que Kaspar causa à comunidade de Nuremberg. Ele traz um novo olhar, vê a realidade de outro ângulo, e por isso confunde toda a ordenação vigente. Que a relação do sujeito com o mundo é necessariamente uma relação mediada, fica evidente; e Herzog mostra com extrema naturalidade a péssima qualidade da mediação exercida naquela circunstância. Apesar de tudo, Kaspar começa a sonhar, são fragmentos de sua imaginação, que, agora, com o aporte de uma mediação, ganha imagens, sempre muito enevoadas. É maravilhosa a maneira como Kaspar passa a se esforçar para estabelecer e construir sua história. Repete várias vezes durante o filme, ‘sei apenas o começo, não consigo saber como continua... ’ Resolve escrever uma autobiografia, seu tutor se alegra e lhe diz que todo mundo está interessado, ele responde que não quer que ninguém leia, pois está escrevendo para si. Herzog vai mais fundo: morto Kaspar, vem autópsia, tomam-lhe o cérebro nas mãos e ali encontram ‘um cerebelo especialmente grande’. Eis a resposta para sua inadequação; ou noutras palavras: ele é o culpado do mal estar, a ciência demonstrou. E estamos em 1974, Herzog já sabia apontar para onde estávamos indo. Este positivismo que só rima com fundamentalismo. Os seres escondidos em porões nos dias de hoje atendem a outras demandas, e são readaptados com algumas pílulas. Mas não queremos ir por aí, aqui vamos ao cinema. Porque a vida ‘imita’ (eis uma palavra perigosa...) a arte. E a ciência... bem, aqui, eu cedo a palavra. Viva Herzog.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Momento James Joyce


12 de julho de 1904


Minha querida Goodiezinha dos Sapatos Marrons. Esqueci-me – não posso ir a teu encontro amanhã (quarta-feira) mas irei na quinta à mesma hora. Espero que ponhas minha carta na cama como convém. Tua luva passou toda a noite ao meu lado – desabotoada – mas quanto ao mais comportou-se muito bem – como Nora. É favor deixar de lado aquela couraça, pois não gosto de abraçar uma caixa de correio. Está me ouvindo agora? (Ela está começando a rir). Meu coração – como dizes – sim – é bem assim.
Um beijo de vinte e cinco minutos no teu pescoço.
AUJEI

p.s: James Joyce a Nora Barnacle

Werner Herzog 1: CINEMA, ARTE E EDUCAÇÃO

“É claro que sou fascinado por investigar os profundos abismos da alma humana. Para onde quer que você olhe, à esquerda ou à direita, há sempre um abismo.” (Werner Herzog)



“The Cave of Forgotten Dreams” de Werner Herzog, um dos três filmes em 3D selecionados para o festival de Berlim/2011, foi sucesso de público e crítica, desde a primeira exibição para jornalistas. Trata-se de um documentário, aparentemente simples, onde Herzog mergulha na beleza natural da terra, saltando literalmente dentro dela: jogou-se na caverna de Chauvet do Sul da França `a caça dos desenhos rupestres 32.000 anos de idade, preservados maravilhosamente porque deslizamentos fecharam a entrada da caverna, só descoberta em 1990. Com uma câmara 3D, apenas três profissionais e luzes frias (outra tipo de luz danificaria o tesouro)ele mostra para o mundo, o brilho de cristais, estalagmites, ossos de animais extintos, contornos surpreendentes e desenhos inimagináveis, que se vêem ao som de cordas de Ernst Reijseger. Mais uma vez, Werzog nos brinda com verdadeira experiência de perplexidade. Segundo relatos, o desenho de contorno irregular das paredes que são realmente de tirar o fôlego. O clima é de pura transcendência, como soe acontecer com Herzog. Assim como não faltam sua ironia e deboche (dizem que as entrevistas com cientistas são incrivelmente hilárias). Herzog não está em Berlim, mas nos EUA trabalhando num documentário sobre o “corredor da morte”, entrevistando condenados que aguardam a execução. Ai!


Werner Herzog, é um premiado cineasta alemão, nascido croata (Werner Stipetic), em setembro de 1942. Aparece como parte do grupo chamado novo cinema alemão, com Fassbinder e Win Wenders, entre outros. São autores de obras excepcionais, algumas premonitórias, pode-se dizer. A ótica dos sobreviventes da segunda guerra, sob prismas ‘do lado de lá’, e com a marca singular de cada um, já desde os setenta. E não permaneceram lá (nos setenta) como tantos, continuam ativos, provocativos e reconstrutivos. De Herzog, em particular, podemos dizer que lhe importa explorar, ao limite, o limite realidade/ficção.
Ainda na infância, ao voltar de um campo de prisioneiros da segunda guerra, encontra-se afastado dos pais, e muda-se com uma família para a Austria. Aos 12 anos retorna a Munique (onde nascera) e passa a dividir um apartamento com Klaus Kinski. Conta-se que Herzog teria declarado que: ‘eu soube naquele momento que me tornaria diretor de cinema e dirigiria Kinski’. De fato, Kinski foi o ator ‘fetiche’ de Herzog, por décadas. Uma complexa relação de amor e ódio, de obstinação e resistência. (quem não conhece as histórias de Aguirre, a cólera dos deuses, por exemplo?). [em tempo: esta relação com Kinski está virando filme, já em fase de produção. Pra pensar.] Outra história deste singular Herzog: aos 12 anos, na escola, teria sido chamado pelo professor para cantar diante da turma, ele se negou, foi castigado e quase expulso do colégio. Por isso ele decidiu não ouvir música nem tocar nenhum instrumento, o que se deu até seus 18 anos. Bem mais tarde, declarou que trocaria anos de vida para tocar um instrumento. Aos 14 anos, lendo uma enciclopédia sobre cinema, entendeu que tinha tudo pra começar: uma câmara 35 mm roubada da Munich Film School. Terminou o ensino secundário e ganhou uma bolsa universitária para os EUA, mas abandonou a faculdade em poucos dias e viajou para o México para participar de um rodeio. No início dos anos 60 Herzog trabalhou como metalúrgico em uma fábrica de aço, para ajudar a financiar seu primeiro filme.

Para mim, entretanto, Herzog ainda é sinônimo de Kaspar Hauser ( O enigma de Kaspar Hauser, 1974). Uma de minhas atividades prediletas, desde os 10 anos mais ou menos, é conversar muito, muito mesmo, depois de cada sessão. Naquele dia, fiquei muda após o filme. Não tinha entendido nada? Tinha entendido tudo? Não queria ter entendido nada? O certo é que tudo ficou girando dentro da minha casa, ou direi cabeça?, e palavra mesmo, pra mim, nenhuma. Será que quarenta anos depois eu consigo? Tentarei. Lembro-me de que eu estava envolvida com a vida sob a ditadura militar, e este era um prisma obrigatório. A compreensão da subjugação, da dependência e independência, me atordoava. O título original do filme é: Every Man for Himself and God Against All (uma vez mais, a tradução que nos oferecem nos......blá, blá, blá, até quando? E neste caso então...) Numa tradução literal, "cada um por si e Deus contra todos", frase, na verdade retirada do romance Macunaíma, de Mário de Andrade. O filme participou do Festival de Cannes 1975, onde ganhou três prêmios. E daquele tempo, ainda ressoa em meus ouvidos uma frase do filme: “São estes assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos silêncio?” Bom, enquanto aguardo a chance de ver Herzog mergulhando em direção ao centro da terra, vou rever O enigma de Kaspar Hauser... e depois eu conto.

http://www.youtube.com/watch?v=nRWtvT7vzFc

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Rosane para o amigo Paulo:

Para sentir o gostinho desta turma, vale conferir no bar Godofredo em Santa Tereza, a cria do Beto Guedes, Gabriel Guedes. Maravilhoso.

Blog: Quase-Ser-Tão Postagem: Respondendo ao amigo Paulo: Link: http://www.quasesertao.com/2011/02/respondendo-ao-amigo-paulo.html


ps. Obrigada, Rosane. E a gente, com saudades, pergunta: onde anda você?, hãã, no bar Godofredo, né?

John Lennon da Silva e a morte do preconceito: Amém!!


Desculpem-me a repetição: nosso ideal é educar. Nosso método é: 'quero aprender, você me ensina?'. E tenho que dizer em alto e bom som: uau, John da Silva, como você me ensinou, cara! A humildade de quem sabe de si, derruba qualquer arrogancia do 'eu já sei'. Ah, loura burra... tadinha... e não aprendeu nada! Mas terá outras chances. É certo. Obrigado, John.




ps: obrigada, Zélia.

De pessoas e de poetas. De James e Fernando. De nós.

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas. (...)

(Fernando Pessoa)"

“3 de setembro de 1909

Meu verdadeiro amor. Teu presente está diante de meus olhos em cima da mesa enquanto escrevo, pronto. Agora vou descrevê-lo a ti. É um estojo liso de couro marrom com duas bordas douradas. Quando se aperta uma mola ele se abre e o estojo mesmo lá dentro é acolchoado de seda macia cor de laranja. Dentro do estojo há um pequeno cartão quadrado e nesse cartão está escrito a tinta dourada o nome Nora e mais abaixo as datas 1904-1909. Debaixo do cartão está o próprio ornamento. Tem cinco cubinhos como dados (um para cada um dos cinco anos que passamos fora) feitos de marfim amarelado que tem mais de cem anos. Estes são perfurados e ligados por uma fina corrente de ouro cujos elos são como pequenos alfinetes de segurança de modo que toda a corrente forma um colarzinho e o fecho fica na parte de trás junto do dado do meio. No centro da corrente na frente e fazendo parte da própria corrente (não suspensa nela como pingente) há uma plaquinha também de marfim amarelado que é perfurada de um lado ao outro como os dados e é do tamanho aproximado de uma pequena peça de dominó. Esta plaquinha tem uma inscrição dos dois lados e as leras são entalhada nela. As letras foram escolhidas num antigo livro de tipos e são no estilo do século décimo - quarto e muito belas e ornamentais. Há três palavras gravadas na face da plaquinha, duas ao alto e uma por baixo, e no verso da plaquinha há quatro palavras gravadas, duas ao alto e duas por baixo. A inscrição quando se lê ambos os lados é a última linha de uma das primeiras canções de meu livro de versos[1] , que também foi musicada: cada linha está portanto gravado com três palavras na face e quatro no verso. Na face as palavras são Amar é infeliz e no verso as palavras são Quando Amor está distante. Os cinco dados representam os cinco anos de provação e incompreensões, e a plaquinha que liga a corrente fala sobre a estranha tristeza que sentimos e nosso sofrimento quando estivemos separados.

Este é meu presente, Nora. Meditei demoradamente sobre ele e fiscalizei cada detalhe para que fosse feito ao meu gosto.

Salva-me meu verdadeiro amor ! Salva-me da ruindade do mundo e de meu próprio coração! Jim.

[1] Chamber Music IX.

In James Joyce, Cartas a Nora Barnacle, Massao Ohno Editor, tradução Mary Pedrosa, São Paulo, 15 de maio de 1988, 700 exemplares, Brasil.

Poie é. É Joyce. Sim, aquele do Ulisses, do Finnegan’s Wake... leio com uma alegria inexplicável. É, inexplicável, e é alegria. Obrigada, Amel.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Respondendo ao amigo Paulo:

Esta é a minha turma. Foi, é, e será... Com ela descobri minha esquina, assumi minha trilha. Letra e música da minha vida. Aprendi muito com ela, e continuo aprendendo. São todos geniais, ou seja, são criadores, não se esgotam. São do mundo, são minas gerais.




(Flávio Venturini, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta e Lô Borges)

Exemplo de uma canção-lição:

Manuel, o audaz.

Toninho Horta/Fernando Brant
Se já nem sei o meu nome
Se eu já não sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O jipe amarelou
Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Vamos lá viajar
E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar
Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Iremos tentar
Vamos aprender, vamos lá
Manuel, o audaz
Vamos lá viajar
E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar
Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Iremos tentar
Vamos aprender, vamos lá

ps: pra quem não sabe, Manuel, o audaz, era o jipe do Fernando Brant, no qual eles faziam suas viagens, e criavam suas trilhas.

(Milton, Lô Borges e Beto Guedes)

(para mim, o segundo melhor disco da música popular brasileira: Clube da Esquina 2 [o primeiro, para quem ficou curioso, é 'Elis e Tom', porque aqui é outra questão, é canção e voz,"". E a pergunta a que estou respondendo é: qual é a sua turma?])

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ps de MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

Carta de Lóri para Wolf. Leu-a muito tempo depois do sequestro e de tudo o mais que houve, pois, a carta ficou perdida entre seus papéis, em meio à confusão de sua cabeça, enquanto se desesperava com o desaparecimento de Lóri. Querido Wolf, (...) "Dei a outros meu orgulho e alegria. A ti dou meu pecado, minha loucura, minha fraqueza e tristeza. (fragmento de carta de James Joyce a Nora Barnacle). Cada momento que passa minha perplexidade com a indolência e fingida fragilidade humanas esgota-me mais e mais. Me reanimo quando me lembro de ti porque sei que recebes o que preciso te dar. Agradeço aos céus, aos mares, aos ventos e a todos os deuses que possam existir porque existes e desejas a minha solidão. Sei que de nada te valeriam meu orgulho e alegria, os seus são melhores e maiores que os meus. Estes, eu os dou aos meros mortais. Te amo. Lóri. Agora, Wolf carrega a carta consigo todo o tempo, desejoso de responde-la, mas não consegue. Falta-lhe muito, seu pecado se perdeu. Leva a carta junto a si, leva a esperança de que a carta o conduzirá a ele.

Magda Maria Campos Pinto

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mais Berlim?2011

A exibição de Tropa de Elite 2, fora da competição, conseguiu aplausos significativos, e rasgados elogios da imprensa especializada. Mas o mais interessante parece ter sido a entrevista coletiva, de gala, que o diretor José Padilha, Wagner Moura e Maria Padilha concederam a um enorme número de jornalistas. Muito à vontade, felizes, falaram sobre cinema, política, Brasil, Lula, Irã, economia.... Isto foi realmente muito legal.

Pois é, mais cinema. BERLIM/2011


O diretor iraniano Asghar Farhadi é o vencedor do festival de Berlim, com "Jodaeiye Nader Az Simin" ("Nader e Simin, uma Separação"), anunciado agora há pouco. Desde que foi exibido, o filme estava no topo das listas de favoritos do evento. O grande prêmio do júri ficou com o húngaro Béla Tarr por ‘A Torinói Ló’, e o melhor diretor foi para o alemão Ulrich Köhler por Schlafkrankheit.

(cena de 'Nader e Simin, uma Separação' , cujo elenco masculino e feminino, receberam respectivamente os prêmios de melhores atuações)

O melhor roteiro, segundo o júri presidido por Isabella Rossellini, foi o de ‘The Forgiveness of Blood’, de Joshua Marston e Andamion Murataj. Os vencedores do festival são indiscutivelmente merecedores; foram todos unanimidade desde a exibição, e há quem diga que são irretocáveis. O problema do festival Berlim/2011 foi a pequena quantidade de filmes capazes de competir entre si; noutras palavras, a superioridade dos vencedores estabeleceu outro patamar. Entretanto pode-se dizer que a proposta de abrir espaço para novas experiências, temas especiais (como a identidade contemporânea e os conflitos familiares e jovens profissionais) se confirmou, por exemplo, com vários cineastas do oriente.

Coriolanus, a estréia de Ralph Fiennes na direção, não correspondeu às expectativas, embora se destaquem a atuação do próprio Fiennes e da consagrada Vanessa Redgrave. Veremos, com certeza.

Desculpem-me, mas.... voltei para o cinema.


Iñarritu: VALE!! (DIREMOS ¿BALE?!!, BRAVO?!, BRABO?!)

Amores perros, 21 gramas, Babel... e a contemporaneidade de Iñarritu é estonteante; são versões diferentes e idênticas da nossa vida feia, ridícula, pobre, imbecil, bruta, estúpida. Sem anestesias, sem pílulas douradas, mas com uma poesia que nos obriga a pensar: ‘sim, somos idiotas porque poderia não ser assim’. E agora Biutiful para confirmar a consciência e a coragem aguda de Iñarritu. Eu tenho inveja deste cara, eu o vejo e penso: ‘eu pensei isso, eu vi isso, eu acredito nisso, droga... eu não consegui demonstrar isso’. Ali está nossa fragmentação, nossa confusão lingüística, a arrogância imbecil, a ignorância negada... Iñarritu enfrenta tudo isso, e pior: mostra a saída. Digo pior porque ele não se esquece de nossa cegueira. Por exemplo, ele se encontra sempre com a morte. Olha pra ela, e a respeita. Noutras palavras, tem para a morte o mesmo olhar agudo e respeitoso que tem para a vida. Ele não nos deixa esquecer: existe algo chamado dignidade; prestem atenção nisso.

Mas sua ousadia não está ‘somente’ na temática, aparece também na forma com que se revela. Sabe-se que uma boa idéia só pode ser boa se manifestar-se numa boa forma. Seus atores são fascinantes: Sean Penn, Gael Garcia, Benício Del Toro, Javier Bardem e até Brad Pitt se transformou diante de sua câmara. Nos filmes de Iñarritu, todo mundo parece com a gente mesmo. É isso. A gente está ali, diante de espelhos que insistem em mostrar-nos sem maquiagem e sem fantasia. A edição de seus filmes é única, é louca, porque se parece também com nossa vida, nada de linearidade, tudo ao mesmo tempo, nada de 'legenda', nenhum 'manual'. É o nosso cotidiano, é a nossa vida besta. É a nossa vida biutiful.

Sean Penn se destaca em 21 gramas mas conta com auxílio luxuoso de Benício; aqui Javier Bardem é uma estrela solitária terrível e fascinante. Enfim, estou absolutamente impactada. Nenhuma novidade nisso, todo mundo já sabe. Sou a comovida de plantão. Sou à flor da pele. Por isso posso ser forte como um touro se a questão é beleza da vida. Já atravessei a América para ver um filme. Hoje estou pensando que serei capaz de atravessar o mundo para ver um filme de Iñarritu. Tenham paciência comigo, mas terão que me suportar no monotema cinema porque Biutiful vai render, render e render em minh’alma.

http://www.youtube.com/watch?v=m_OrqZQV8p8&feature=player_embedded

Título original: Biutiful
País/Ano: México / Espanha, 2010
Duração: 147 min
Direção: Alejandro Gonzalez-Iñarritu
Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella

Quanto à minha brincadeira:

Biutifull - 1000 ;

Javier Bardem - 1100


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Win Wenders


Cena de 'Pina', de Win Wenders, exibido no festival de Berlim/2011, emocionou a platéia. É a história de Pina Bausch, bailarina alemã, que morreu subitamente em 2009. Ela havia começado o projeto com Win. Com Pina, Wenders inaugura o cinema de arte em 3D. Quando o veremos?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A arte de ser gente.

Era uma vez, há muitos anos atrás, lá pelos idos dos oitenta, eu tinha um vizinho na rua Oliveira, no bairro Cruzeiro. Naquele tempo, as pessoas vizinhas já não se cumprimentavam, não trocavam um pouquinho de açúcar ou de leite, mal se olhavam. Mas eu olhava o Chico, meu vizinho. Não sei dizer, mas ele era diferente. Dava vontade de conhecer. Um dia, eu soube que ele se chamava Chico dos Bonecos. Adorei. E até me arrisquei, cumprimentei, fui chegando, chegando... dei-lhe um texto meu, assim, morrendo de vergonha. E então usufruí de sua generosidade. Ele leu, respondeu, conversou. Ouvi. E ouvi que ele se ocupava com o que eu queria me ocupar. Educação. Que ele acreditava no que eu acreditava: brincar-arte. Assim se educa. Muitos anos se passaram e agora tive notícias do Chico. Está pelo Brasil, fazendo o que sabe fazer. O que gosta de fazer. Não posso mais ficar muito tempo longe do Chico. Por isso eu o apresento a quem ainda não o conhece. É especial. É fundamental.

Sáiti Gudáiti de Gurrunfáiti de Maracutáiti Xiringabuitáiti

Francisco Marques (Chico dos Bonecos)

Adivinhas que brincam com as palavras:


1) Qual o objeto cortante que vira animal de trás pra diante?

2) Todas as mães têm. Sem eles não tem pão. Somem no inverno, aparecem no verão.

3) Uma pergunta profunda: goiaba na quinta, abacaxi na segunda.

4) Onde está o defeito no rádio?

5) De manhãzinha, a mãe acorda a filha: “É dia, Leda.” Qual o nome da mãe?

6) O que o gafanhoto traz na frente e a pulga traz atrás?

7) Uma palavra de seis letras. Tirando três, sobra uma.

8) O nome do número tem o mesmo número de letras do nome. Qual é o número?

9) Está no meio do começo. Está no começo do meio. Estando em ambos assim, está na ponta do fim.

10) Existe um bicho encantado?

11)Quando tira a cor sobra o pó. Quando tira o pó sobra a cor.

12)O que faz o mês de maio ficar maior?

13)Qual o maior mês do ano?

14)Quem tem mais orelhas: todo mundo ou ninguém?

15)Qual a diferença entre o médico e a água?

16)O que fazer para a manteiga virar fruta?

17)Quando este número está em ordem... Que confusão!

18)Qual a diferença entre um ventilador estragado e uma cadeira?

19) Por que zabelê começa com “z” e termina com “t”?

20)A letra “u” tem olho?

(respostas no sáiti do Chico, uai!)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Presente do Lucas para o Quase-Ser-Tão


O clube oferece o livro (dica...) para quem descobrir que é....
ps: obrigada, Lucas.

As memórias de Lóri

(tela de Sabrina Hemmi)

1.

Foi então que ela disse que eu era um anjo. Olhou-me nos olhos com aqueles seus olhos imensos de mel puro. Foi então que se descobriu inteiro meu ser totalmente humano. Minha profundidade abismal revelada: humana em essência revivi num átimo a dor da juventude na faculdade, a perdição no lugar onde se esperava que eu me encontrasse, o horror das práticas arrogantes, a perplexidade de não me ver em lugar algum e, daí, a tristeza de raiz que em mim se plantou. A tristeza de saber que queriam apodrecer meu íntimo ser. Não! Aquela menininha linda e pura, duramente violentada pela não-vida, me enxergara, e enfim, me mostrava a mim.
Tarde demais. A dor inlocalizável há dias havia agudizado. As décadas de ilusão e de cuidados que construíram o castelo em que se pensava viver em poucos instantes ruíram numa implosão impiedosa. Nenhum sonho sobreviveu, tudo tudo tudo foi pedaço, desamor aos pedaços.
Primeiro ela, sem porque e sem razão, começou a dizer não, não e não. Depois vieram as presenças que eram ausências cruéis. Minto: primeiro foi a sedução estúpida. A mentira cruel para prender uma menina menininha, que tinha medo do fim do mundo, e não compreendia a brutalidade. Primeiro, foi desprezo pela menina que sonhava pintar o céu de azul, corrigindo as manchas que as nuvens provocavam, e tinha medo de que a tinta acabasse. Primeiro foi o abuso que fez a menininha querer ser enforcada em praça pública, e ver seu terror ser motivo de escárnio. Primeiro, e definitivamente, foi a impossibilidade de compreender a crueldade.
Foi então que a outra menininha viu um anjo. E assim começam as memórias de Lóri.
A casa era fresca e grande. O vestido, amarelo. O tecido era algodão, e não era liso. Tinha relevos. Uma cintura baixa e uma saia com pregas. Aprendi: melindrosa. Eu me sentia bonita. E muito desconfiada disso. Já, em mim, pulsava uma intuição infeliz. Havia uma mentira. E uma verdade oculta, à espreita. O tecido se chamava fustão, os próprios fios do algodão, tecidos de maneira especial - soube, inventaram na China, e era chique - criavam relevos que, para mim, eram labirintos nos quais me escondia, me distraía, dobrava-me sobre meu próprio corpo, vestido de amarelo.... é, começa assim.

Magda Maria Campos Pinto

(Tela de Zélia Evangelista)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vencedores do BAFTA/2011



O Discurso do Rei ganhou em sete categorias, incluindo melhor filme britânico e melhor ator; o favorito, A Rede Social – recebeu três prêmios. Surpresa para melhor filme estrangeiro que foi para o sueco The Girl With the Dragon Tattoo, ganhando do mais que esperado Biutiful, o lindo filme do mexicano Iñarritu.

Alguns prêmios principais:

Melhor Filme: O Discurso do Rei
Melhor Diretor: David Fincher (A Rede Social)
Melhor Ator: Colin Firth (O Discurso do Rei)
Melhor Atriz: Natalie Portman (Cisne Negro)
Melhor Ator Coadjuvante: Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)
Melhor Atriz Coadjuvante: Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Melhor Filme Britânico: O Discurso do Rei
Melhor Filme Estrangeiro: The Girl With the Dragon Tattoo
Melhores Efeitos Visuais: A Origem
Melhor Roteiro Original: O Discurso do Rei, de David Seidler
Melhor Filme de Animação: Toy Story 3
Melhor Roteiro Adaptado: A Rede Social, de Aaron Sorkin
Melhor Fotografia: Bravura Indômita

Papo quasertaneiro:

De Gisella para o clube:

QUASE

Luís Fernando Veríssimo

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

ei, Gisella,

Adorei o Veríssimo, pra variar, escreve como ninguém. Quero acrescentar é que depois que vencemos a covardia (este 'quase' no qual nos escondemos e nos justificamos) encontramos com a vida cara a cara, de cara limpa e de coração aberto, e então chegamos a OUTRO quase. Um quase que é essência humana, que nos impulsiona a continuar, pois, depois daquele morro tem outro, do primeiro horizonte há o segundo e assim por diante... Sem fim, por que somos quase perfeitos, exatamente quase, quando somos perfeitamente humanos... Beijo, Magda. p s: um sujeito que possui uma foto dessa só pode ser gente boa. Rara.

Ei, Magda,

Sempre haverá um "quase", e isso é mais belo da vida! Pois nos impulsiona a continuar caminhando... Bjos, Gisella

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ainda estou no cinema...


O discurso do Rei lembrou-me de que... ‘de tudo se faz canção’ (aproveito e repito: viva Milton e Lô). A gagueira do herdeiro do trono inglês é um assunto esquisito... E se tornou um belo filme. Simples, elegante, quase (?) minimalista, e belo, muito belo. Este assunto ‘esquisito’ revela o que realmente importa. Sem mirabolâncias e grandiosidades; sem efeitos especiais nem magias, a emoção está lá. O indivíduo e sua sujeição. Sua solidão e impotência. A responsabilidade e o direito. Não se poderá dizer que o filme é superficial; ele emocionantemente simples. E o trabalho dos atores beira a perfeição. Helena Bonham Carter prova que não vêm de Tim suas melhores atuações. Geoffrey Rush continua construindo uma poderosa carreira (embora depois de Shine, ele não precise provar mais nada. E não nos esqueçamos de Os piratas do Caribe, revelando assim sua versatilidade). E Colin Firth, bom, este tem direito ao prêmio maior. Brilha forte e se destaca entre estrelas poderosas . O filme é delicado, complexo, e extremamente bem feito. Tom Hooper é um jovem diretor, mas demonstra bom gosto e competência, além de audácia e confiança em Firth, já que sua câmara abusa da expressividade deste. São closes impagáveis, e diálogos puros e diretos. E o filme cresce. O discurso do Rei é de um capricho extraordinário. Penso em audácia de Hooper quando ele centra o filme na luta de um indivíduo consigo mesmo, e faz da segunda guerra ou das antigas (e adoradas) estripulias da corte inglesa, por exemplo, mero pano de fundo. Certamente isso irritará críticos empedernidos. Os mesmos que vão ‘psicanalizar’ a relação que ali se estabelece e a catarse que é provocada. Digo psicanalizar porque, hoje, não há como não ‘ler’ psicanálise ali, mas longe da selvageria psicanalítica que muitos críticos usam para degradar ou exaltar filmes, a competência de Hooper também aparece ao deixar tudo ‘rolar’ espontaneamente, no cotidiano nosso de cada dia (no caso, de reis, naturalmente), aquele cotidiano que tanto atraiu e fez de Sigmund, o nosso (meu?) genial Freud. Emocionante. Comovente. Limpo. Adjetivos grandiosos nestes nossos dias de plástico.

Pela brincadeira: O discurso do Rei: 9,0

Colin Firth: 9,5


Em tempo: A academia britânica de cinema (BAFTA) entrega seus prêmios hoje, dia 13 de fevereiro.

Concorrem:

Melhor filme:A Origem, O Discurso do Rei, A Rede Social, Bravura Indômita, Cisne Negro

Melhor Filme Britânico: 127 Horas, Another Year, Four Lions, O Discurso do Rei,
Made In Dagenham

Melhor Diretor: Danny Boyle – 127 Horas; Chris Nolan – A Origem:Darren Aronofsky – Cisne Negro; Tom Hooper – O Discurso do Rei; David Fincher – A Rede Social

Melhor Filme Estrangeiro: Biutiful (México); Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Suécia); I Am Love (Itália); De Homens e Deuses (França); O Segredo dos Seus Olhos (Argentina)

Melhor Animação: Toy Story 3; Como Treinar Seu Dragão; Meu Malvado Favorito

Melhor Ator: Jesse Eisenberg – A Rede Social; Javier Bardem – Biutiful; Jeff Bridges – Bravura Indômita; James Franco – 127 Horas; Colin Firth – O Discurso do Rei

Melhor Atriz: Natalie Portman – Cisne Negro; Annette Bening – Minhas Mães e Meu Pai; Julianne Moore – Minhas Mães e Meu Pai; Noomi Rapace – Os Homens que Não Amavam as Mulheres; Hailee Steinfeld – Bravura Indômita

Melhor Ator Coadjuvante: Christian Bale – O Vencedor; Andrew Garfield – A Rede Social; Geoffrey Rush – O Discurso do Rei; Pete Postlethwaite – Atração Perigosa
Mark Ruffalo – Minhas Mães e Meu Pai

( olha Iñarritu aí novamente...)