terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

As memórias de Lóri

(tela de Sabrina Hemmi)

1.

Foi então que ela disse que eu era um anjo. Olhou-me nos olhos com aqueles seus olhos imensos de mel puro. Foi então que se descobriu inteiro meu ser totalmente humano. Minha profundidade abismal revelada: humana em essência revivi num átimo a dor da juventude na faculdade, a perdição no lugar onde se esperava que eu me encontrasse, o horror das práticas arrogantes, a perplexidade de não me ver em lugar algum e, daí, a tristeza de raiz que em mim se plantou. A tristeza de saber que queriam apodrecer meu íntimo ser. Não! Aquela menininha linda e pura, duramente violentada pela não-vida, me enxergara, e enfim, me mostrava a mim.
Tarde demais. A dor inlocalizável há dias havia agudizado. As décadas de ilusão e de cuidados que construíram o castelo em que se pensava viver em poucos instantes ruíram numa implosão impiedosa. Nenhum sonho sobreviveu, tudo tudo tudo foi pedaço, desamor aos pedaços.
Primeiro ela, sem porque e sem razão, começou a dizer não, não e não. Depois vieram as presenças que eram ausências cruéis. Minto: primeiro foi a sedução estúpida. A mentira cruel para prender uma menina menininha, que tinha medo do fim do mundo, e não compreendia a brutalidade. Primeiro, foi desprezo pela menina que sonhava pintar o céu de azul, corrigindo as manchas que as nuvens provocavam, e tinha medo de que a tinta acabasse. Primeiro foi o abuso que fez a menininha querer ser enforcada em praça pública, e ver seu terror ser motivo de escárnio. Primeiro, e definitivamente, foi a impossibilidade de compreender a crueldade.
Foi então que a outra menininha viu um anjo. E assim começam as memórias de Lóri.
A casa era fresca e grande. O vestido, amarelo. O tecido era algodão, e não era liso. Tinha relevos. Uma cintura baixa e uma saia com pregas. Aprendi: melindrosa. Eu me sentia bonita. E muito desconfiada disso. Já, em mim, pulsava uma intuição infeliz. Havia uma mentira. E uma verdade oculta, à espreita. O tecido se chamava fustão, os próprios fios do algodão, tecidos de maneira especial - soube, inventaram na China, e era chique - criavam relevos que, para mim, eram labirintos nos quais me escondia, me distraía, dobrava-me sobre meu próprio corpo, vestido de amarelo.... é, começa assim.

Magda Maria Campos Pinto

(Tela de Zélia Evangelista)

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