terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

De pessoas e de poetas. De James e Fernando. De nós.

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas. (...)

(Fernando Pessoa)"

“3 de setembro de 1909

Meu verdadeiro amor. Teu presente está diante de meus olhos em cima da mesa enquanto escrevo, pronto. Agora vou descrevê-lo a ti. É um estojo liso de couro marrom com duas bordas douradas. Quando se aperta uma mola ele se abre e o estojo mesmo lá dentro é acolchoado de seda macia cor de laranja. Dentro do estojo há um pequeno cartão quadrado e nesse cartão está escrito a tinta dourada o nome Nora e mais abaixo as datas 1904-1909. Debaixo do cartão está o próprio ornamento. Tem cinco cubinhos como dados (um para cada um dos cinco anos que passamos fora) feitos de marfim amarelado que tem mais de cem anos. Estes são perfurados e ligados por uma fina corrente de ouro cujos elos são como pequenos alfinetes de segurança de modo que toda a corrente forma um colarzinho e o fecho fica na parte de trás junto do dado do meio. No centro da corrente na frente e fazendo parte da própria corrente (não suspensa nela como pingente) há uma plaquinha também de marfim amarelado que é perfurada de um lado ao outro como os dados e é do tamanho aproximado de uma pequena peça de dominó. Esta plaquinha tem uma inscrição dos dois lados e as leras são entalhada nela. As letras foram escolhidas num antigo livro de tipos e são no estilo do século décimo - quarto e muito belas e ornamentais. Há três palavras gravadas na face da plaquinha, duas ao alto e uma por baixo, e no verso da plaquinha há quatro palavras gravadas, duas ao alto e duas por baixo. A inscrição quando se lê ambos os lados é a última linha de uma das primeiras canções de meu livro de versos[1] , que também foi musicada: cada linha está portanto gravado com três palavras na face e quatro no verso. Na face as palavras são Amar é infeliz e no verso as palavras são Quando Amor está distante. Os cinco dados representam os cinco anos de provação e incompreensões, e a plaquinha que liga a corrente fala sobre a estranha tristeza que sentimos e nosso sofrimento quando estivemos separados.

Este é meu presente, Nora. Meditei demoradamente sobre ele e fiscalizei cada detalhe para que fosse feito ao meu gosto.

Salva-me meu verdadeiro amor ! Salva-me da ruindade do mundo e de meu próprio coração! Jim.

[1] Chamber Music IX.

In James Joyce, Cartas a Nora Barnacle, Massao Ohno Editor, tradução Mary Pedrosa, São Paulo, 15 de maio de 1988, 700 exemplares, Brasil.

Poie é. É Joyce. Sim, aquele do Ulisses, do Finnegan’s Wake... leio com uma alegria inexplicável. É, inexplicável, e é alegria. Obrigada, Amel.

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