quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Herzog 2:


O filme começa mostrando um jovem acorrentado num porão, impedido de ficar de pé, e que brinca com um cavalinho de madeira enquanto pronuncia ‘cavalo’. Ele é alimentado, à noite, por um homem misterioso (não se deixa ver) que também lhe oferece papel e tinta.
Numa manhã, o misterioso homem tira Kaspar do porão e o deixa numa cidade próxima, com uma carta anônima para o oficial da cavalaria local, contando que o rapaz fora criado sem nenhum contato humano, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como o fora seu pai. (isto aconteceu na Alemanha em 1828, na cidade de Nuremberg).
Adotado por uma família, e por um padre, durante dois anos, ele adquire sua linguagem, aprende facilmente música, tricô e jardinagem, mas não assimila as convenções da época, os princípios ligados à ordem social, à ciência, à religião. Fácil de entender: convenções são aleatórias, são acordos que atendem a algum interesse. Kaspar mantém o olhar e a curiosidade infantis, ele ‘apenas’ vive, e se espanta. É só isso, é tudo isso.


Ele não entende o que lhe dizem; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Aprendeu rapidamente a falar e andar. Demonstrava grande docilidade, simplicidade, e gentileza. Estas características tornaram-no objeto de espanto e curiosidade crítica. Por ser assim tão simples é considerado idiota. E Kaspar percebe a rejeição. E não pode compreendê-la. Herzog não perde tempo e mostra, com ênfase, as convenções sociais que Kaspar não consegue assimilar.
Abre-se um processo para resolver a situação do rapaz; surge então a figura de escrivão, que acompanha as tentativas de ‘socializar’ o rapaz, anotando e repetindo cada frase ou gesto a respeito dele. Registra ‘tintim por tintim’ as tentativas de civilizar o sujeito, dos religiosos, do cientista que descobre sua incapacidade de pensamento lógico, a exposição dele num circo (para que possa pagar as despesas que causa àqueles que o ajudam). Esta sequência do circo é extraordinária; Kaspar aparece ao lado de um anão/rei, tão pequeno, tão pequeno sentado em seu trono, que não pode fazer nada sem ajuda; um índio, selvagem e cheio de crendices, e um louco obcecado por um buraco. O discurso do apresentador do espetáculo é uma peça crítica fantástica, e cômica, se não fosse trágica.
Um ano depois de ter chegado a Nuremberg, Kaspar sofre um atentado, sendo gravemente ferido na face. Não reage, mostra-se apenas perplexo diante do agressor. O filme mostra o agressor como o mesmo homem misterioso que cuidava dele no cárcere. Em dezembro de 1833, recebe outra agressão, agora fatal. Ou seja, Kaspar é assassinado.
Masson, um dos autores que se dedicou a estudar o estranho de Nuremberg, diz em seu livro, que em dezembro de 1833, K. Hauser foi atraído para uma emboscada, com a promessa de receber informações sobre seu nascimento. No local, em vez disso, recebeu uma facada no peito, morrendo três dias depois. Ele defende a tese de que Kaspar era um descendente de Napoleão, e que foi isolado para deixar a herança a outrem. Libertado na adolescência, o interesse que sua história despertou, teria ameaçado seus parentes, a ponto de decidirem pelo assassinato. Não há consenso a respeito, ou seja, o enigma sobre o estranho rapazinho criado no isolamento permanece. (The Lost Prince: the Unsolved Mistery of Kaspar Hauser, Jeffrey Moussaieff Masson, 1997). Existem estudos vários e controversos a respeito de Kaspar, o qual ainda serve de modelo para interpretações as mais diversas; sejam sociológicas, psicológicas, filosóficas. Mas, voltemos ao filme. Aliás, a curiosidade quanto à história da pessoa sem que isso signifique interesse pela própria pessoa é denunciada no filme, enquanto percepção e queixa do próprio Kaspar.




Herzog se interessa antes pelo homem, pelo que o homem pode fazer, e faz, com o homem. Um de seus grandes méritos é a capacidade descritiva, fenomenológica eu diria, de mostrar, apontar, com delicadeza e elegância, antes de julgar, explicar, definir ou determinar. Que fique claro: todo ato ou gesto humano, carrega em si mesmo, necessariamente, um julgamento. Uma escolha é feita. Assim, assistimos a escolha de Herzog, naturalmente. Isto é, a crítica à tirania das convenções está lá; veja e reveja quem quiser.


Tanto Masson (1997), quanto Herzog (1974) e Blikstein (1983) anotam o mal estar que Kaspar causa à comunidade de Nuremberg. Ele traz um novo olhar, vê a realidade de outro ângulo, e por isso confunde toda a ordenação vigente. Que a relação do sujeito com o mundo é necessariamente uma relação mediada, fica evidente; e Herzog mostra com extrema naturalidade a péssima qualidade da mediação exercida naquela circunstância. Apesar de tudo, Kaspar começa a sonhar, são fragmentos de sua imaginação, que, agora, com o aporte de uma mediação, ganha imagens, sempre muito enevoadas. É maravilhosa a maneira como Kaspar passa a se esforçar para estabelecer e construir sua história. Repete várias vezes durante o filme, ‘sei apenas o começo, não consigo saber como continua... ’ Resolve escrever uma autobiografia, seu tutor se alegra e lhe diz que todo mundo está interessado, ele responde que não quer que ninguém leia, pois está escrevendo para si. Herzog vai mais fundo: morto Kaspar, vem autópsia, tomam-lhe o cérebro nas mãos e ali encontram ‘um cerebelo especialmente grande’. Eis a resposta para sua inadequação; ou noutras palavras: ele é o culpado do mal estar, a ciência demonstrou. E estamos em 1974, Herzog já sabia apontar para onde estávamos indo. Este positivismo que só rima com fundamentalismo. Os seres escondidos em porões nos dias de hoje atendem a outras demandas, e são readaptados com algumas pílulas. Mas não queremos ir por aí, aqui vamos ao cinema. Porque a vida ‘imita’ (eis uma palavra perigosa...) a arte. E a ciência... bem, aqui, eu cedo a palavra. Viva Herzog.

Nenhum comentário:

Postar um comentário