sábado, 26 de fevereiro de 2011

Momento Guimarães Rosa


“Daí mas descambava, o dia abaixando a cabeça morre-não-morre o sol. O oõo das vacas: a vaca Belbutina, a vaca Trombeta, a vaca Brindada.... O enfile delas todas, tantas vacas, vindo lentamente do pasto, sobre pé de pó. Atitiva um assovio de perdiz, na borda-do-campo. Voando quem passava era a marreca-cabocla, um pica-pau pensoso, casais de araras. O gaviãozinho, o gavião-pardo do cerrado, o gaviãozinho pintado. A gente sabia esses todos vivendo de ir s’embora, se despedidos. Ópio das rolinhas mansa, no tarde-cai, o ar manchado de preto. Daí davam as cigarras, e outras. A rã rapa-cúia. O sorumbo dos sapos. Aquele lugar do Mutúm era triste, era feio. O morro, mato escuro, com todos os maus bichos esperando, para lá essas urubuguáias. A ver, e de repente, no céu, por cima dos matos, uma coisa preta desforme se estendendo, batia para ele os braços: ia ecar, para ele, Miguilim, algum recado desigual? “São os morcegos? Se fossem só os morcegos?!...”Depois, depois, tinha de entrar p’ra dentro, beber leite, ir para o quarto. Não dormia dado. Queria uma coragem de abrir a janela, espiar no mais alto, agarrado com os olhos, elas todas, as Sete-Estrelas. Queria não dormir, nunca. Queria abraçar o Ditinho, conversar, mas não tinha diligência, não tinha ânimo.”

In Manuelzão e Miguilim, Guimarães Rosa, Nova Fronteira, RJ, 1987.

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