quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Werner Herzog 1: CINEMA, ARTE E EDUCAÇÃO

“É claro que sou fascinado por investigar os profundos abismos da alma humana. Para onde quer que você olhe, à esquerda ou à direita, há sempre um abismo.” (Werner Herzog)



“The Cave of Forgotten Dreams” de Werner Herzog, um dos três filmes em 3D selecionados para o festival de Berlim/2011, foi sucesso de público e crítica, desde a primeira exibição para jornalistas. Trata-se de um documentário, aparentemente simples, onde Herzog mergulha na beleza natural da terra, saltando literalmente dentro dela: jogou-se na caverna de Chauvet do Sul da França `a caça dos desenhos rupestres 32.000 anos de idade, preservados maravilhosamente porque deslizamentos fecharam a entrada da caverna, só descoberta em 1990. Com uma câmara 3D, apenas três profissionais e luzes frias (outra tipo de luz danificaria o tesouro)ele mostra para o mundo, o brilho de cristais, estalagmites, ossos de animais extintos, contornos surpreendentes e desenhos inimagináveis, que se vêem ao som de cordas de Ernst Reijseger. Mais uma vez, Werzog nos brinda com verdadeira experiência de perplexidade. Segundo relatos, o desenho de contorno irregular das paredes que são realmente de tirar o fôlego. O clima é de pura transcendência, como soe acontecer com Herzog. Assim como não faltam sua ironia e deboche (dizem que as entrevistas com cientistas são incrivelmente hilárias). Herzog não está em Berlim, mas nos EUA trabalhando num documentário sobre o “corredor da morte”, entrevistando condenados que aguardam a execução. Ai!


Werner Herzog, é um premiado cineasta alemão, nascido croata (Werner Stipetic), em setembro de 1942. Aparece como parte do grupo chamado novo cinema alemão, com Fassbinder e Win Wenders, entre outros. São autores de obras excepcionais, algumas premonitórias, pode-se dizer. A ótica dos sobreviventes da segunda guerra, sob prismas ‘do lado de lá’, e com a marca singular de cada um, já desde os setenta. E não permaneceram lá (nos setenta) como tantos, continuam ativos, provocativos e reconstrutivos. De Herzog, em particular, podemos dizer que lhe importa explorar, ao limite, o limite realidade/ficção.
Ainda na infância, ao voltar de um campo de prisioneiros da segunda guerra, encontra-se afastado dos pais, e muda-se com uma família para a Austria. Aos 12 anos retorna a Munique (onde nascera) e passa a dividir um apartamento com Klaus Kinski. Conta-se que Herzog teria declarado que: ‘eu soube naquele momento que me tornaria diretor de cinema e dirigiria Kinski’. De fato, Kinski foi o ator ‘fetiche’ de Herzog, por décadas. Uma complexa relação de amor e ódio, de obstinação e resistência. (quem não conhece as histórias de Aguirre, a cólera dos deuses, por exemplo?). [em tempo: esta relação com Kinski está virando filme, já em fase de produção. Pra pensar.] Outra história deste singular Herzog: aos 12 anos, na escola, teria sido chamado pelo professor para cantar diante da turma, ele se negou, foi castigado e quase expulso do colégio. Por isso ele decidiu não ouvir música nem tocar nenhum instrumento, o que se deu até seus 18 anos. Bem mais tarde, declarou que trocaria anos de vida para tocar um instrumento. Aos 14 anos, lendo uma enciclopédia sobre cinema, entendeu que tinha tudo pra começar: uma câmara 35 mm roubada da Munich Film School. Terminou o ensino secundário e ganhou uma bolsa universitária para os EUA, mas abandonou a faculdade em poucos dias e viajou para o México para participar de um rodeio. No início dos anos 60 Herzog trabalhou como metalúrgico em uma fábrica de aço, para ajudar a financiar seu primeiro filme.

Para mim, entretanto, Herzog ainda é sinônimo de Kaspar Hauser ( O enigma de Kaspar Hauser, 1974). Uma de minhas atividades prediletas, desde os 10 anos mais ou menos, é conversar muito, muito mesmo, depois de cada sessão. Naquele dia, fiquei muda após o filme. Não tinha entendido nada? Tinha entendido tudo? Não queria ter entendido nada? O certo é que tudo ficou girando dentro da minha casa, ou direi cabeça?, e palavra mesmo, pra mim, nenhuma. Será que quarenta anos depois eu consigo? Tentarei. Lembro-me de que eu estava envolvida com a vida sob a ditadura militar, e este era um prisma obrigatório. A compreensão da subjugação, da dependência e independência, me atordoava. O título original do filme é: Every Man for Himself and God Against All (uma vez mais, a tradução que nos oferecem nos......blá, blá, blá, até quando? E neste caso então...) Numa tradução literal, "cada um por si e Deus contra todos", frase, na verdade retirada do romance Macunaíma, de Mário de Andrade. O filme participou do Festival de Cannes 1975, onde ganhou três prêmios. E daquele tempo, ainda ressoa em meus ouvidos uma frase do filme: “São estes assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos silêncio?” Bom, enquanto aguardo a chance de ver Herzog mergulhando em direção ao centro da terra, vou rever O enigma de Kaspar Hauser... e depois eu conto.

http://www.youtube.com/watch?v=nRWtvT7vzFc

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