quinta-feira, 28 de abril de 2011

Acorde 7


Santa Sombra, ou a dor sonâmbula, crepuscular. Tarde demais. A dor inlocalizável há dias havia agudizado. As décadas de ilusão e de cuidados construíram o castelo que em poucos instantes ruíra, numa implosão impiedosa. Nenhum sonho sobreviveu, tudo tudo foi pedaço, amor fragmentado. Primeiro ele sem porque e sem razão começou a dizer não não e não. Depois vieram as presenças que eram ausências cruéis.
Bem cedo. Manhã clara, céu azul, vento suave. Bom dia do Sr. Antônio. Sorriso da D. Maria, votos de bom trabalho, preciosa oferta  ‘precisa de alguma coisa?’. Árvore da esquina explodindo em flores.  O moço da banca de revista sorri e oferece um cafezinho. No elevador, um perfume suave: alguém chegou antes. Na sala de espera, alguém olha com olhos amorosos. Um cheiro de esperança me recebe.
Depois eu me lembro dele. Uns olhos pequenos, vivos, ativos. Nada lhe escapava. Quando encontravam os meus, era só brilho. Pura acolhida, e a vida se tornava benção. Prazer simples e profundo de abraço inteiro.
 Retorna a dor que endurece os músculos. E músculos enrijecidos que trazem  dor. No fundo de tudo, o medo. Na superfície de tudo, a angústia. Entremeio, a mágoa. E afinal, nenhum por quê. Nenhuma justa razão: somente o vício: ‘quem pode mais?’. O vício do eu sei. A dureza da competição absoluta.
Eu, não posso. Eu, não sei. Me venci.
 
Magda Maria Campos Pinto

Nenhum comentário:

Postar um comentário