sexta-feira, 22 de abril de 2011

Poesia:

NÃO MAIS

Czeslaw Milosz


Preciso contar um dia como mudei

Minha opinião sobre a poesia e por que

Me considero hoje um dos muitos

Mercadores e artesãos do Império do Japão

Compondo versos sobre a floração da cerejeira,

Sobre crisântemos e a lua cheia.



Se eu pudesse descrever as cortesãs

De Veneza, como incitam com uma vareta o

pavão no pátio

E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina

Os seios pesados, a marca

Avermelhada no ventre onde o vestido se

abotoa,

Ao menos assim como as viu o dono das

galeotas

arribadas àquela manhã carregando ouro;

E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus

pobres ossos

No cemitério, onde o mar oleoso lambe

o portão,

Em palavras mais duráveis que o derradeiro

pente

Que entre carcomas sob a lápide, só, espera

pela luz.


Não duvidaria. Da resistência da matéria

O que se retém? Nada, quando muito o belo.

Então, devem nos bastar as flores da cerejeira

E os crisântemos e a lua cheia.

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