quinta-feira, 30 de junho de 2011

Para Sarah e Gisella





p.s: sim, Woody ensinou-me: as maçãs são uma bela razão pra se viver.... gracias às duas. Bejokas (bem mineiras)

Pela poesia...



“Partindo dali e caminhando por três dias em direção ao levante, encontra-se Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas lajeadas de estanho, um teatro de cristal, um galo de ouro que canta todas as manhãs no alto de uma torre. Todas essas belezas o viajante já conhece por tê-las visto em outras cidades. Mas a peculiaridade desta é que quem chega numa noite de setembro, quando os dias se tornam mais curtos e as lâmpadas multicoloridas se acendem juntas nas portas das tabernas, e de um terraço ouve-se a voz de uma mulher que grita: uh!, é levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido uma noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes."

in  As cidades Invisíveis, Ìtalo Calvino, Companhia das Letras, 1990.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Imperdíveis....

PENSAMENTO 8 - saudades de Quintana

 

CARRETO

Amar é mudar a alma de casa.


CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 7



Querido Wolf,
Você me conhece, eu disse que não voltaria a escrever já que as maléficas ondas insistem, mas aqui estou eu vencida pela necessidade de, apesar das tais, dividir minha alegria e assombro com a vida. Que alegria voltar a te encontrar e que sentimento difícil este! Alegria, alegria... Prazer absoluto. Difícil, muito difícil. E tudo (ou quase) que tenho pra te contar é que brotou outra rosa em meu jardim. Na verdade, não foi apenas uma rosa. Todas as orquídeas deram de brotar, sem quê nem por que. Tudo fora de hora, inesperado. Algumas não conseguiram esperar o final da primeira florada, e estão com brotos novos em velhos troncos. Isso quer dizer alguma coisa? Não importa, pra mim quer (mim quer?). Eu falei sobre ‘sistemas’ com você, não falei? Ou melhor, eu preciso falar nisso. Já faz tempo que o ‘sistema’ tem me causado problemas, especialmente porque ouço a palavra todo tempo e ela cisma de ecoar em mim de modo que minha percepção se atordoa. Melhor diria se dissesse memória, eu acho. Esta – memória – também é uma palavra que os tempos mudaram, ou vem mudando os tempos (é uma boa dúvida). De qualquer forma, a memória fica para outra ocasião (lhe disse que mudei, mas não o essencial, ou seja, digressão ainda me é particularmente importante). Não fossem os brotos no meu jardim (com certa doce lembrança ácida de Maiakovski) eu estaria no mais negro mau humor. Para tentar lhe contar do tal sistema é melhor relatar o dia de antes de anteontem. Acordei bem, feliz comigo porque acordei sem compromissos e sem pressa, devaneando o dia, construindo um café da manhã a la Minas, o céu azul claro, a montanha em variações de amarelo, folhei o jornal, e recomecei a ler o livro com o qual adormeci. Então o telefone tocou... alguém mal treinado a educado – também serve se eu disser: robô com defeito – disse que eu não havia pago duas contas de telefone, que a linha seria cortada até que..., mas eu paguei! Sinto muito, senhora, mas sua linha será cortada, esta ligação está sendo gravada, ela será imediatamente restabelecida assim que as contas e a taxa forem pagas, mas eu tenho os recibos!, sinto, senhora, mas não consta no sistema, a senhora terá que se dirigir à agência mais próxima, a PQP agradece sua atenção, tenha um bom dia. Foi a primeira vez que ouvi a palavra ‘sistema’ neste santo dia e pensei, absurdamente?, com o quê exatamente eu me depararia na agência mais próxima. Tentei, entretanto, retomar a leitura, esqueci do sistema, fiquei feliz, cansei-me de ler e tive vontade de ir ao cinema. Voltei ao jornal, a programação estava pela metade, ah, eu tenho computador!. Sim, lá estava: profusão de ofertas, mil cinemas, dois mil horários, vacilei, até que ... a tela apagou. Olhei ao redor, sim, faltou energia (não, não posso parar nisso agora). Melhor te dizer que decidi sair assim mesmo, andei um pouco, tomei um taxi com um motorista que ouvia um rádio a volume quase máximo e mastigava alguma coisa mal cheirosa, e soltava um palavrão vez por outra, e uma perplexidade me paralisava de idiota maneira. Mas cheguei, e quase corri. Parei e comecei a andar com calma, lembrei-me de que fui ao cinema no tempo em que não havia telefone fixo na minha casa (o telefone chegou lá em 1968) e penso que ninguém que eu conheça entenderia isso, muito menos havia taxi e, penso agora que já consegui até me livrar de uma coisa chamada ‘trânsito + conseguir uma vaga – roubo’, embora ainda não esteja certa de que a opção pelo motorista de taxi seja confiável, mas existem os agradáveis, e não existem vagas, é certo. Cheguei enfim ao cinema e vi a grade da programação apesar da multidão que me rodeava e empurrava (prefiro mil vezes a multidão que me habita mesmo com os conflitos que por vezes resolvem reviver). Lá está: o filme desejado começa em 20 minutos. A fila está lamentável, são dois atendentes mas só um atende (penso que o outro pensa na vida. Sim, ainda sou uma...). Começa uma discussão, não há este horário, senhor, mas está lá no painel de programação, mas está errado, então por que você não consertam?, não sou é, senhor, foi o sistema, então vejo que o tal horário que não havia era o meu horário, sinto-me prejudicada, o senhor começa a gritar: se está anunciado tem que me vender, eu saí para ver o filme, estou esperando há horas; não posso fazer nada, senhor, o sistema não aceita compra para este horário; como não pode fazer nada? Que sistema? A culpa é sua... não senhor, é do sistema, mas você trabalha pra ele então você é culpada, eu quero ver este filme.... Olhei para o tal senhor, tem uns 50 anos, entendi que ele não entendia o que eu não entendia, isto é, o sistema mudou mas continuando decidindo nosso ir e vir, o pessoal da fila se agitava, resmungava, gritava... Decidi desistir e buscar um lugar quieto para respirar e me repensar. Péssima idéia; andei, andei e todos os celulares do mundo tocavam à minha volta, pensei que iria enlouquecer, mas de repente apareceu uma livraria (megastore estava escrito lá... mas era uma livraria) e como quem pensa que encontra uma ilha quando está se afogando, eu lá adentrei correndo. Ledo engano, ela não era deserta, pelo contrário, estava mais populosa que a fila do cinema, os corredores eram infinitos e confusos, mas vislumbrei poltronas aqui e acolá e fui tentar parar. Sentei-me e inspirei majestosa e profundamente. E então um celular tocou... Infernos! Que tambor fúnebre é este? Sim, é o chamado do telefone dele, e ele começa a berrar, sim a berrar, a contar (pra mim?) que o negócio era outro... Bom, eu me desligo. Mas acabo lembrando que me esqueci o celular, é , lembrei-me de que tenho um, o qual sempre esqueço, mas tenho porque me cansei de me explicar que não gosto de telefone, ou melhor, desgosto, mas não quero magoar a ninguém, pelo contrário, amo as pessoas, gosto de conversar com elas, especialmente quando há silêncio e posso vê-las, mas cansei-me de me explicar e comprei um, mas  quando me lembro dele, ele está ‘descarregado’, e foi o que aconteceu ontem, o encontrei na bolsa, estava apagado, o coitado, e amorosamente o coloquei para carregar e ele ficou lá... Ah, o tal tambor fúnebre toca novamente, eu quase desespero, ele berra, ‘ei amor, sim, eu estou aqui, estou super-ocupado, mas podemos... ‘não, amor, você não está entendendo’, eu respiro fundo, sim, eu não estou entendendo nada, e decido comprar um livro, não é difícil, vencendo os corredores de auto-ajuda (por um momento penso em criar o setor ‘hetero-ajuda’ talvez assim... ah, não, eu seria mal compreendida), chego à literatura/lançamentos. Bom. Fácil escolher alguma coisa, e corro para o caixa. Outra fila, outros celulares, agora uma música estridente... Ignoro, ahh, tem uma coisa legal no meu celular que toca quando ele toca: SUMMMEERRTIIMEEE... é, a Janis, consegui que a pusessem pra mim, depois de pedir trocentas vezes a trocentas pessoas, pois verdade seja dita, não tenho o menor tesão pra adquirir habilidades tecnológicas, a mim me basta o básico do básico, já que sol e lua, bússola e relógios não bastam mais (ainda existem??); o problema – outro – com o meu celular é que fico ouvindo, e ouvindo a Janis e quando de repente ela se cala, o telefone... Ah, a fila anda, entrego meu cartão, desculpe, senhora, aguarde um pouco, o sistema caiu... ÃÃHH? Verdade? Só um minutinho, senhora, ele volta logo... Ahh, sim, (sorriso amarelo, sentimento de realidade paralela... sim, Wolf, outra coisa que preciso te contar é sobre Alzheimer e realidade paralela, fica pra depois, ok?); ok,  muito tempo depois paguei o livro, e não consegui um lugar pra ler. Voltei pra casa, e revi Manhattan. É tão lindo... Quando eu crescer eu vou ser o Woody Allen (esquece, quando Pedro me levou pra Nova York você nem me conhecia, ok, quem não esqueceu fui eu, eu sei... ocorre que foi no filme de Allen onde e quando aprendi coisas pelas quais a vida vale a pena). Quando você vem? (esquece, eu não perguntei isso). Abraços novos, Lóri.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Pensamento do dia 7 - saudades de Quintana


EPÍGRAFE

as únicas coisas eternas são as nuvens.....

Ayrton Senna, mais um vez...

O documentário Senna, sobre a vida do piloto tricampeão Ayrton Senna, com direção do inglês Asif Kapadia e produção da Working Title, conquistou o prêmio de melhor filme estrangeiro do Festival de Cinema de Los Angeles, neste domingo (26). Outras produções premiadas foram a comédia canadense Attack the Block como melhor narrativa; e Beats Rhymes & Life como melhor documentário.



Esse é o segundo prêmio que o documentário Senna recebeu nos Estados Unidos. Em janeiro, ele venceu também o Festival Sundance de Cinema, quando ganhou do público o título de melhor documentário do mundo. A repercussão internacional do filme tem sido impressionante. Quando estreou na Inglaterra no começo de junho, a produção foi recorde de bilheteria, na categoria documentário, com arrecadação de US$ 614 mil no período de quatro dias. Senna já foi lançado nos países do circuito de F1: Japão, Itália, Turquia, Alemanha, França e Espanha.


Já falamos sobre este filme aqui; estamos insistindo porque, entre outras coisas, estamos tentando ajudar a distinguir: ídolos, celebridades, famosos. Gênios. Uma lástima, esta confusão. Ayrton Senna é uma personalidade. Um gênio.

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 4

Como todos já sabem (mas não custa repetir): neste mês estamos mostrando no blog pontos de nossas pesquisas sobre as relações amorosas. Mais verdadeiramente estamos debruçados sobre o tema há bastante tempo (uns 10 anos), e atualmente o estudamos sob o prisma de uma revolução a ser feita. Por enquanto, ainda buscamos materiais (temos recebido muitos)...


Para Napoleão Bonaparte
Navarra, abril de 1810
Mil, mil ternos agradecimentos por não me haveres esquecido. Meu filho acaba de me trazer tua carta. Com que paixão eu a li e, no entanto, dediquei muito tempo a ela, pois não havia ali uma palavra que não me fizesse chorar. Mas aquelas eram lágrimas tão doces! Torno a sentir meu coração por inteiro, tal como sempre será; alguns sentimentos são a própria vida,e só podem terminar com ela.
Eu estaria desesperada se minha carta do dia 19 te fosse desagradável; não recordo inteiramente suas expressões, mas sei que um sentimento muito doloroso a ditou, a tristeza de não ter notícias tuas.
Escrevi antes de partir de Malmaison; desde então, quantas vezes não desejei escrever para ti! Mas percebi a razão de teu silêncio, e temi que uma carta fosse importuna. A tua foi um bálsamo para mim. Sê feliz, tão feliz quanto mereces ser; falo-te de todo o meu coração. Também me deste minha cota de felicidade, sentida intensamente; nada pode se igualar pra mim ao valor de um sinal de tua lembrança.
Adieu, meu amigo; agradeço-te com a ternura com que sempre te amarei.
Marie-Josèphe-Rose Tascher de Pagerie, chamada de Josefina pelo imperador Napoleão, nasceu em 1763 na Martinica, em rica família de fazendeiros, cujas propriedades foram destruídas por ciclones em 1766. Ela foi para Paris para se casar com um aristocrata francês e salvar as condições da família: com o visconde de Beauharnais. Nasceram dois filhos, Hortense e Eugene, mas o casamento não foi feliz e ela, obtendo uma separação legal, voltou para Martinica, e para Paris em 1790, depois de uma revolta de escravos na ilha. Vivia intensa vida social, entre festas e amores, quando foi aprisionada após o marido ter sido guilhotinado pela revolta jacobina, em 1794. Foi libertada depois da execução de Robespierre um mês depois. Durante o governo provisório conheceu Bonaparte, um jovem e brilhante oficial do exército. Casram-se em março de 1796, e ele partiu em expedição para a Itália. Napoleão lhe escrevia constante e apaixonadamente (cartas que sobreviveram), mas conhece-se poucas cartas de Josefina. Bonaparte queixava-se sempre das extravagâncias, gastos e comportamentos escandalosos de Josefina e quis separar-se em 1799; foi convencido do contrário pelos filhos do primeiro casamento dela.com sucesso militar e político, Napoleão tornou-se imperador em 1804 e corou Josefina como imperatriz. Tudo estava bem: seu filho casado com a filha do rei da Bavária e a filha, com o irmão de Napoleão. Mas Bonaparte queria um herdeiro, e com a impossibilidade de Josefina de oferecer-lhe tal, Napoleão buscou um casamento coma filho do imperador austríaco. Josefina retirou-se para os arredores de Paris, a Malmaison, onde continuou sua vida de festas e amantes, e amiga de Napoleão, que pagava as contas. Ela morreu de pneumonia em 1814; as famílias reais da Holanda, Luxemburgo, Suécia, Bélgica , Grécia e Dinamarca descendem dela. Conta-se que as últimas palavras de Napoleão, morto no exílio na ilha de Santa Helena em 1821, foram: “A França, o exército, Josefina’.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

DA IMPORTÂNCIA DA CASA:


“Encolher-se pertence à fenomenologia do habitar. Só habita com intensidade aquele que soube se encolher. (...) porque a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda acepção do termo. Vista intimamente, a mais humilde moradia não é bela? Os escritores da ‘casinha humilde’ evocam com frequência esse elemento da poética do espaço. Mas essa evocação é excessivamente sucinta. Como há pouco a descrever na casinha pobre, eles quase não se detêm nela. caracterizam-na em sua atualidade, sem viver realmente a sua primitividade, uma primitividade que pertence a todos, ricos ou pobres, se aceitarem sonhar. Mas nossa vida adulta é tão despojada dos primeiro bens, os vínculos antropocósmicos são tão frouxos,que não sentimos sua primeira ligação com o universo da casa. Não faltam filósofos que ‘mundificam’ abstratamente, que encontram um universo pelo jogo dialético do eu e do não-eu. Precisamente, eles conhecem o universo antes da casa, o horizonte antes da pousada. Ao contrário, os verdadeiros pontos de partida da imagem, se os estudarmos fenomenologicamente, revelarão concretamente os valores do espaço habitado, o não-eu que protege o eu. (...) Por conseguinte, todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos têm calores oníricos consoantes. Já não é em sua positividade que a casa é verdadeiramente ‘vivida’, não é somente no momento presente que reconhecemos os seus benefícios. Os verdadeiros bem-estares têm um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova. A velha locução: “Levamos para a casa nova nossos deuses domésticos” tem mil variantes. E o devaneio se aprofunda de tal modo que , para o sonhador do lar, um âmbito imemorial se abre para além da mais antiga memória. A casa, com o fogo, como a água, nos permitirá evocar, na sequência de nossa obra, luzes fugidias de devaneio que iluminam a síntese do imemorial com a lembrança.   Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar. Ambas trabalham para seu aprofundamento mútuo. Ambas constituem, na ordem dos valores, uma união da lembrança com a imagem. Assim, a casa não vive somente no dia-a-dia, no curso de uma história, na narrativa de nossa história. Pelos sonhos, as diversas moradas de nossa vida se interpenetram e guardam os tesouros dos dias antigos. Quando, na nova casa, retornam as lembranças das antigas moradas, transportamo-nos ao país da Infância Imóvel, imóvel como o Imemorial. Vivemos fixações, fixações de felicidade. Reconfortamo-nos ao reviver lembranças de proteção. Algo fechado deve guardar as lembranças, conservando-lhes seus valores de imagens. (...)”

in A Poética do espaço, Gaston Bachelard.

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 5

Verona, 13 de novembro de 1796
Já não te amo mais; pelo contrário, detesto-te. És horrenda, muito desajeitada, muito idiota, uma verdadeira Cinderela. Não escreves nunca, não amas vosso marido; sabes do prazer que vossas cartas lhe proporcionam e não lhe envias sequer meia dúzia de linhas de rabiscos ocasionais. Então, o que fazes o dia inteiro, senhora? Que assuntos de tanta importância ocupa teu tempo, impedindo-te de escrever a teu excelente amante? Que afeição sufoca e põe de lado o amor, o amor eterno e constante que lhe prometeste? Quem pode ser esse novo amante maravilhoso que absorve todos os teus instantes, tiraniza por inteiro teus dias e te impede de dar atenção a teu marido? Josefina, tem cuidado, uma noite dessas as portas se abrirão e eu estarei lá. Em verdade, minha boa amiga, estou ansioso por não ter recebido notícias tuas; escreve-me depressa quatro páginas e diz aquelas coisas amáveis que enchem meu coração de sentimento e prazer. Espero logo poder apertar-te em meus braços e fazer chover sobre ti um milhão de beijos ardentes como as chuvas abaixo de Equador.
BONAPARTE

 Milão, 27 de novembro de 1796, às 3 horas da tarde
Chego a Milão, precipito-me para teu appartement, abandonei tudo para te ver, para apertar-te em meus braços... E não estavas lá; corres para as cidades onde há festejos; tu me deixas quando chego, não te interessas mais por teu querido Napoleão. Teu amor por ele foi um capricho; tua inconstância te deixa indiferente a ele. Acostumado ao perigo, conheço a remédio para as preocupações e vicissitudes da vida. O sofrimento que toma conta de mim é incalculável; eu tinha o direito de ser poupado disso. Estarei aqui até a noite do dia 9. Não te incomodes; vai em busca dos prazeres; a felicidade foi feita para ti. O mundo inteiro fica muito feliz de poder agradar-te e somente teu marido está muito, muito infeliz.
BONAPARTE
Para Josefina, 1796.
Não vivi um único dia em que não te amasse; não passei uma única noite sem te abraçar; não bebi uma única xícara de chá sem amaldiçoar o orgulho e a ambição que me forçam a permanecer longe do espírito que inspira minha vida. Em meio a meus deveres, quer eu esteja à frente do exército ou inspecionando os campos, minha amada Josefina domina meu coração, ocupa mina mente, preenche meus pensamentos. Se estou me afastando de ti à velocidade da torrente do Ródano, é somente para poder tornar a ver-te mais cedo. Se me levanto para trabalhar n meio da noite é porque isso pode acelerar em alguns dias a chegada do meu doce amor. No entanto, em tua carta dos dias 23 e 26 de Ventoso (sexto mês do calendário republicano francês0, me tratas por vous. Aplica este tratamento a ti mesma! Ah, infeliz, como podes ter escrito uma carta tão fria! E ainda há esses quatro dias entre o 23 e o 26; o que fazias para deixar de escrever a teu marido?... ah, meu amor, aquele vous, aqueles quatro dias me fazem ter saudade da minha anterior indiferença. Que se cuide o responsável! Possa ele, como punição ou compensação, experimentar o que minhas convicções e as provas (que pesam em favor do teu amigo) me fariam vivenciar! O inferno não tem tormentos suficientemente grandes! Nem as fúrias têm serpentes suficientes! Vous! Vous! Ah, como estarão as coisas dentro de duas semanas... meu espírito está pesado, meu coração está acorrentado e sou assombrado pro minhas fantasias.... tu me amas menos; mas superarás a perda. Um dia não me amarás mais; pelo menos admite; então eu saberei o que fiz para merecer esse infortúnio.... adeus, minha esposa: tormento, alegria, esperança e espírito inspirador da minha vida; a quem amo e temo, aquele que me enche de sentimentos ternos que me aproximam  de natureza e de impulsos violentos e agitados como uma tempestade. Não te peço amor eterno nem fidelidade, mas simplesmente... verdade, honestidade sem limites. O dia em que disseres ‘te amo menos’ marcará o fim do meu amor e o último dia da minha vida. Se meu coração fosse tão ignóbil que pudesse amar sem ser amado eu o faria em pedaços. Josefina! Josefina! Recorda o que algumas vezes te disse: a natureza me dotou de um caráter viril e decidido. Ela construiu o teu com rendas e tecido diáfanos. Deixaste de  me amar? Perdoa-me, amor da minha vida, minha alma está sendo esquartejada por forças conflitantes. Meu coração, obcecado por ti, está repleto de medos que me deixam prostrado de infelicidade... Estou perturbado por não poder te chamar pelo nome pessoalmente. Esperarei que tu o escrevas. Adeus! Ah! Se me amas menos, nunca me terás amado. Nesse caso, serei bem digno de piedade.
BONAPARTE
p. s. este ano, a guerra mudou a ponto de ficar irreconhecível fiz com que  se distribuíssem carne, pão e  forragem; minha cavalaria armada logo estará em marcha. Meus soldados mostram uma indescritível confiança em mim; só tu me és fonte de tristeza; só tu és a alegria e o tormento da minha vida. Mando um beijo para teus filhos, que deixaste de mencionar. Por Deus! Se o fizesses, tuas cartas seriam meia vez mais longas. Então, os visitantes que se apresentassem às dez horas da manhã não teriam o prazer de ver. Mulher!!!
Munique, 19 de dezembro de 1805
Grande Imperatriz, nenhuma carta tua desde que partiste de Estrasburgo. Passaste por Baden, Stutgart e Munique sem nos enviar uma palavra. Isso não é muito admirável, nem muito gentil! Ainda estou em Brunn. Os russos se foram; tenho uma trégua. Dentro de alguns dias decidirei o que fazer. Do alto de tua grandeza, condescende em ocupar-te um pouco de teus escravos.
BONAPARTE

domingo, 26 de junho de 2011

Cartas abertas 8 - Naipe Amor

 
Rio, 5 de maio de 1974

Querida Clarice:
Que impressão me deixou seu livro!Tentei exprimi-la nestas palavras:

- Onde estivestes de noite
que de manhã regressais
com o ultramundo nas veias,
Entre flores abissais?

- estivemos no mais longe
que a letra pode alcançar:
Lendo o livro de Clarice,
 mistério e chave do ar.
  
Obrigado, amiga! O mais carinhoso abraço da admiração do
Carlos


p.s: trata-se do livro Onde estiveste de noite, RJ, Artenova, 1974.

Dia após dia....

BOM DIA , SOFIA!! Se possível, melhor ainda que o meu dia após te ver assim acordando, e nos dizendo...


(...)
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
 (...) Carlos Drummond

sábado, 25 de junho de 2011

Poéticas: do espaço e do devaneio: é tempo de Gaston Bachelard

 
  
 “Se há uma filosofia da poesia, ela deve nascer e renascer por ocasião de um verso dominante, na adesão total a uma imagem isolada, muito precisamente no próprio êxtase da novidade da imagem. A imagem poética é um súbito realce do psiquismo, realce mal estudado em causalidades psicológicas subalternas. Além disso, nada há de geral e de coordenado que possa servir de base para uma filosofia da poesia. A reflexão filosófica que se exerce sobre um pensamento científico longamente trabalhado deve fazer com que  a nova idéia se integre em um corpo de idéias já aceitas,ainda que a nova idéia obrigue esse corpo de idéias a um remanejamento profundo,como sucede em todas as revoluções da ciência contemporânea. A filosofia da poesia,ao contrário, deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar sua preparação e seu advento”.

 

In A Poética do Espaço, Gastón Bachelard

(...)
Diante de sonhos tão grandes, pode-se permanecer como mero psicólogo? Nem tudo estará dito quando nos lembrarmos de que Nietzsche nunca esqueceu esse estranho paraíso perdido que foi, para ele, um presbitério protestante atulhado de presenças femininas. A feminilidade de Nietzsche é mais profunda porque mais oculta. Que é que existe por baixo da máscara supermasculina de Zaratustra? Há na obra de Nietzsche, no tocante às mulheres, pequenos desprezos de baixo quilate. Sob todas essas capas e compensações, quem nos descobrirá o Nietzsche feminino? E quem fundará o nietzscheísmo do feminino? (...)”

In a poética do Devaneio, Gaston Bachelard.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Midnight in Paris



Fui lá porque, é claro, eu queria ver Woody Allen outra vez. Depois de algum tempo (nos anos 90, eu diria...) de preguiça de Woody, cheguei aos anos 2000 fazendo penitência e reconhecendo que a ‘preguiça’ de Woody não era de Woody, mas de mim mesmo, ou melhor,  era pura negação de que... Era covardia mesmo. Ah, Woody esteve sempre com a razão: tudo é poesia, ou nada. Uau, como foi difícil aceitar isso, naquele tempo era preciso ser muito, muito ousado – noutras palavras, ser gênio – para falar que não há vida fora da poesia. E então foi assim que Woody Allen continua o mesmo, exatamente igual, e espetacularmente cada vez melhor. Eu me lembro que desejei ir aos EUA somente porque assisti Manhattan, para logo depois descobrir que eu queria mesmo era a cidade de Allen. E agora (lembram de 'Todos dizem Eu te amo'?) temos a dádiva de Midnight in Paris. É poesia em estado puro, sólido, líquido... 
Em estado cinematográfico. Quem precisa ir a Paris? Todo mundo tem que ir a Paris, desde que vá com Woody... Não dá pra falar do filme. Só dá pra falar: vá aprender a viajar. Para homenagear Woody Allen vamos lembrar Gaston Bachelard e suas poéticas. É. A vida de verdade é assim... uma coisa leva a outra....

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 6


Querido Wolf,

Já não sei mais desde quando não te escrevo; tenho todas as desculpas e não me perdôo por nenhuma. Digo pra você que mudei, mas só a aparência e isso vai te agradar, pois bem sabemos o quê sentimos quando falamos de aparência (sim, agora digo ‘não’ quando penso ‘não’, digo ‘sim’ quando penso sim). Sua ausência não modificou em nada sua influência sobre mim, pelo contrário, a sinto mais forte, parece-me lógico, não é? O medo de não te tocar, cheirar, provar, apertar... e tantas outras boas coisas que você me permite quando está aqui, aumenta sua presença em minha alma. Tenho estado cada vez mais parecida com você (isso me deixa imensamente feliz, e isso não é motivo para se aborrecer: veja como esta carta está objetiva e simples. O importante eu te garanto: a essência é a mesma. Como lhe disse é uma questão de integração, e deve te agradar). Devo te confessar um grande pecado (sim, eu sei, você odeia confissões, mas tenha paciência, eu já sei que confesso a mim mesma, entretanto se não te contar não funciona como confissão, e você sabe bem disso). Pois é, quase não tenho escrito, não me falta vontade nem necessidade (absoluta), mas as tais mal ditas ondas da vida ainda me carregam (como vê ainda não consegui receber toda a boa influência que você tem sobre mim; ah, que falta você me faz!). Bom, mas tenho lido muito e tudo, e encontrado coisas inimagináveis. Minha âncora está firme, tenho feito viagens fantásticas. Preciso de uma carta sua. Desculpe o tom dramático (não seria essencialmente eu, se faltasse este tom. Ele é exclusivo para você). Pedro dormiu – não estou certa de que acordará novamente, só você poderá garantir isso -, Laura perdeu-se nos EUA, é certo que não a veremos mais. Com Estevão, mantenho conversações interessantes. Malu calou-se para sempre. Ora, ora, você já sabe tudo isso. (pelo menos, zeramos o ponto em que interrompemos; noutras palavras, receba meu convite para retomarmos. Te repito: necessito desesperadamente de voltar a escrever). Tenho vivido coisas impressionantes provocadas pela palavra ‘sistema’, que hoje não significa mais aquilo que  ontem me perseguia e que eu perseguia também. É outra coisa, mas a perseguição é a mesma. Preciso muito de falar nisso com você. O inverno apresentou-se para a minha alegria, mas ainda não decidiu aceitar minha hospitalidade; ah, como sinto falta do inverno; sinto-me sempre bem aquecida. De repente, só me falta você... certamente nem o inverno me aqueceria. Abraços antigos, Lóri.
p.s: estranho-me. E você ?

Cartas abertas – Naipe amor 3

6 de março de 1899 , para Leo Jogiches
Beijo-te mil vezes pela carta e pelo presente, tão apreciados, embora ainda não o haja recebido... Não podes imaginar como me agradou a tua escolha. Ora, Rodbertus é simplesmente o meu economista favorito e sou capaz de lê-lo mil vezes apenas pelo prazer intelectual... Meu querido, como fiquei encantada com tua carta! Eu a li seis vezes, do começo ao fim. Então, estás contente comigo. Escreves-me que talvez dentro de mim eu só saiba que em algum lugar existe um homem que me pertence! Não sabe que em tudo que faço tenho-te em mente? Quando escrevo um artigo, meu primeiro pensamento é – será que irá te dar prazer? -, e quando, em certos dias, duvido da minha força e não consigo trabalhar, só temo o efeito que isso terá sobre ti, que poderás ficar desapontado. Quando tenho provas de um sucesso, como receber uma carta de Kautsky, isso é apenas um tributo que te presto. Juro-te pelo amor que tenho à minha mãe que pessoalmente não dou importância ao que Kautsky escreve. Só fiquei feliz porque escrevi com teus olhos e senti quanto prazer meus escritos te dariam.
... Só uma coisa diminui minha satisfação: os aspectos externos de tua vida e de nosso relacionamento. Sinto que logo terei uma posição tão consolidada (moralmente) que poderemos viver juntos tranquilos e abertamente como marido e mulher. Tenho certeza de que também pensas assim. Estou feliz por saber que está chegando ao fim teu problema de cidadania e que estás trabalhando com energia em teu doutorado. Posso sentir por tuas cartas recentes que estás com muita disposição para esses trabalhos...
Pensas que não percebo teu valor? Toda vez que sou convocada para a luta, sempre estás a meu lado com ajuda e encorajamento – esquecendo todas as discussões e toda a minha desatenção!
... Não fazes idéia da alegria e do anseio com que espero cada carta tua, porque cada uma delas me traz muita força e felicidade, estimulando-me a viver.
O que me deixou mais feliz foi a parte da carta em que escreves que somos jovens e ainda podemos organizar nossa vida pessoal. Oh, querido, como desejo que possas cumprir tua promessa... Nosso próprio quartinho, nossos móveis, uma biblioteca para nós, trabalho calmo e regular, caminhadas juntos, uma ópera de vez em quando, um pequeno – muito pequeno – círculo de amigos íntimos que possamos de vez em quando convidar para jantar, todo ano uma viagem de verão para o campo durante um mês, mas, definitivamente, sem trabalhar!... E talvez até mesmo um pequenino, um filhinho muito pequeno? Será que isso nunca será permitido? Nunca? Querido, sabes quem se aproximou de mim ontem, durante uma caminhada pelo parque – sem nenhum exagero? Um garotinho de 3 ou 4 anos, com um traje bonito e cabelos louros; ele me olhou, e subitamente senti uma necessidade incontrolável de seqüestrar aquela criança e correr para casa com ela. Oh,querido,será que nunca terei um filho meu?
E em casa nunca mais iremos discutir, não é mesmo? Ela deve ser silenciosa e tranquila como a de todo mundo. Só tu sabes o que me preocupa: já me sinto tão velha e não sou nada atraente. Não terás uma esposa bonita quando passeares de mãos dadas com ela pelo parque – ficaremos bem longe dos alemães... Querido, se, primeiro, resolveres o problema de tua cidadania, em seguida teu doutorado e por fim viveres comigo abertamente em nossa própria casa e trabalhares comigo, então, não sentiremos falta de mais nada! Nenhum casal na Terra tem tantos recursos para a felicidade como nós, e se tiveres apenas um pouco de boa vontade, seremos, teremos de ser felizes.
ROSA DE LUXEMBURGO

Rosa de Luxemburgo nasceu em 1871 perto de Lublin na região da Polônia controlada pela Rússia. Em 1886 entrou para o Partido Proletário Polonês. Tornou-se uma ativista tão famosa que teve fugir para Zurique, onde continuou seus estudos e doutorou-se em 1889. Lá conheceu Leo Jogiches, com quem fundou o partido Socialdemocrata do Reino da Polônia. Amaram-se por muitos anos mas não chegaram a viver juntos. Dedicaram-se prioritariamente à política. Em 1898 Rosa casou-se com Karl Lubeck, filho de um amigo, como forma de mudar-se para Berlim. Sonhava com uma revolução socialista por toda a Europa, e não uma ação isolada de cada nação. Na Alemanha, tornou-se militante contra o militarismo e o imperialismo alemães e passou a ter problemas constantes com as autoridades. Em junho de 1919, quando comandava uma greve pela paz, foi presa e encarcerada por quase três anos. Libertada em 1918, junto com amigos, fundou o partido comunista alemão. Em 1919 foi presa pelo conhecido Freikorps, um grupo paramilitar, foi espancada até a inconsciência e seu corpo lançado no canal Landwehr. Seu assassinato foi, naquele momento, considerado triunfo da Alemanha nazista.


Uma pergunta de hoje: temos alguma causa comum? Que lugar a relação amorosa tem em nossas vidas?

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Bolsas da Zélia





 Em tempos de ‘rever com urgência o conceito descartável e salvar o planeta’ ou apenas ‘rever quem somos para refazer o que temos feito’ surge, entre outros, o trabalho maravilhoso de Zélia: bolsas definitivas, únicas, em telas exclusivas. Genial. E lindo, é claro.