quarta-feira, 15 de junho de 2011

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 1

Shelidad, junho de 1898.


BHAI CHUTI,


Encontrei sua carta ao voltar de Dhaka. Irei a Kaligram brevemente para fechar alguns negócios e em seguida vou aí para Calcutá a fim de efetuar todas providências necessárias. Mas, por favor, não se aflija sem necessidade. Tente suportar cada ocorrência com tranqüilidade, em paz, com atitude serena. Tento fazer isso continuamente em meu jeito de viver. Mas, nem sempre sou bem sucedido. Se você, porém, puder manter-se tranqüila, talvez então, quem sabe – sustentados por nosso empenho mútuo – também eu conseguirei alcançar a paz e felicidade de espírito. Você, é claro, por ser bem mais jovem do que eu, suas experiências têm sido muito mais limitadas; sua natureza é, em certos aspectos, muito mais paciente e consegue controlar-se mais facilmente. Portanto você tem meios de manter a mente livre de perturbações emocionais. Mas todas as pessoas sofrem crises na vida e precisam recorrer à mais extrema paciência e auto-controle. Podemos imaginar então, o quanto somos tolos quando nos queixamos de aborrecimentos triviais do dia-a-dia. Eu devo amar, eu devo fazer o melhor, eu devo cumprir o meu dever para com os outros prazerosamente: se seguirmos esse princípio, poderemos enfrentar seja o que for. A vida não é muito longa, seus prazeres e deveres mudam constantemente. Revezes, mágoas, decepções – é difícil suportá-los com desprendimento; mas se não fizermos assim, o peso da vida gradualmente irá tornando-se insuportável, ficando impossível mantermos fixo o espírito em uma meta ou ideal. Se falharmos , se vivermos eternamente insatisfeitos, contrariados e tensos, dia após dia em conflito com as nossas circunstâncias, nossa vidas tornar-se-ão completamente infrutíferas. Grande calma, desprendimento com generosidade, amar sem egoísmo, esforço desinteressado – tudo isso é o que nos leva realmente ao sucesso na vida. Se você conseguir manter-se em paz e promover conforto ao seu redor, você irá sentir-se mais feliz do que uma imperatriz. Bhai Chuti, se você continuar afligindo-se por coisas menores, estará fazendo mal a si mesma. A maior parte dos nossos desgostos nos são impostos por nós mesmos. Não fique contrariada comigo por estar reprovando você assim pomposamente. Você não imagina com que preocupação tão intensa por você estou lhe dizendo tudo isso. Sinto por você tanto respeito, um amor tão imenso; e a simpatia que me prende a você tem tamanha veemência, que aquela tranqüilidade e contentamento que lhe desejo significam mais do que tudo no mundo. Comparados a esse amor, os problemas e desapontamentos cotidianos nada significam. Vejo tudo isso atualmente com renovado desejo. Quando uma mulher é ainda jovem, pode sentir-se insegura ou desiludida do amor; mas, mesmo por experiência própria, você decerto já sabe que em uma fase de maturidade, nos altos e baixos da vida, um amor mais seguro, mais tranqüilo, mais profundo pode se realizar. Quando crescem os filhos, o mundo lá fora parece que regride. E, em certo aspecto, o isolamento da mulher aumenta; os laços de amizade íntima mantêm o casal afastado do mundo que o cerca. Nossas almas nunca parecem mais belas do que quando podemos ficar estreitamente unidos, contemplando-nos face-a-face: aí, o verdadeiro amor começa. Não mais a louca paixão, não mais a necessidade de nos enxergarmos um ao outro como deuses. As uniões e  rupturas já não desencadeiam as tempestades de emoção. Mas perto ou distantes, em segurança ou perigo, na pobreza ou riqueza, a luz venturosa e pura da absoluta confiança estará brilhando ao nosso redor. Sei, Mrinalini, que você sofreu muito por minha causa, mas também sei que por ter sofrido tanto por mim, você um dia haverá de sentir a felicidade em plenitude. O amor que sabe perdoar, a participação nos sofrimentos constituem a verdadeira felicidade. Satisfação de ambições pessoais não é a felicidade. Nestes dias, o meu único desejo é ver nossas vidas transcorrendo com simplicidade e retidão; que haja paz e contentamento à nossa volta e que nosso de viver seja sem ostentação e pleno de bondade. Que sejam pequenas nossas necessidades e elevadas nossas metas; e que nosso trabalho pelos outros seja mais importante do que para nós mesmos. E ainda que nossos filhos gradualmente abandonem os exemplos que demos a eles, espero que possamos viver até o fim de nossas vidas em mútua compaixão, e em confiança plena, desapegada e sem ambição. Foi por isso que tentei tão ansiosamente tirar vocês desse templo de pedra e materialismo que é Calcutá, trazê-los para o interior, neste lugar distante. Em Calcutá, não há oportunidade para se olvidar o lucro e a perda, amigo ou inimigo: a gente está constantemente perturbado por assuntos insignificantes, e, por fim, todos os melhores propósitos de vida se estilhaçam em fragmentos. Aqui, porem a gente contenta-se com pouco e não se confunde falsidade com verdade. Aqui não se torna difícil “aceitar com equanimidade tudo o que venha a acontecer, triste ou alegre, agradável ou desagradável”.
p. s: Nossos amigos Suren, Pramatha e um amigo dele estão aqui conosco em Shelidad.

RABINDRAMATH TAGORE



1.   1.Bhai Chuti – abreviação carinhosa de ‘esposa mais nova’, numa família de irmãos reunidos.
2.   2. Rabindramath Tagore foi um gênio da humanidade. Nasceu em Calcutá em maio de 1861. Nobel de Literatura em 1913, foi músico, romancista, teatrólogo, pintor, educador, filósofo, poeta, contista. Realizou-se conferências pelo mundo e recebeu título de doutor ‘Honoris Causa’ em diversas universidades do mundo. Morreu em agosto de 1941, na mesma casa em que nasceu. Segundo a cultura de seu tempo casou-se aos 23 anos com Mrinalini que não tinha ainda 12 anos. Nos últimos anos do século XIX, Tagore morou sozinho num barco-residência, dirigindo as propriedades do pai, que se estendiam ao longo do rio Padma. Daí escrevia constantemente para a esposa que ficara com os filhos na CSA ancestral dos Thakur, em Calcutá. Na mesma casa moravam outros irmãos também casados. No começo do século XX, Mrinalini mudou-se para o interior, juntando-se ao marido. Morreu aos 29 anos. Cartas de Tagore para a esposa, sobrinhos e amigos foram reunidas no livro ‘Cenas da Vida Bengalesa’. Os poemas escritos após a morte Mrinalini, de rara beleza, exprimem a grandiosamente do amor de maneira única.


 Se não Falas

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário