domingo, 19 de junho de 2011

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 2

 

Nápoles, 1º setembro 1945

Tânia, querida.


Recebi sua carta de 12 de agosto, aquela que você se queixa da dificuldade de correspondência. Com certeza ela é resposta a alguma minha em que eu me queixo de não receber cartas. Mas acho que eu me queixava da demora apenas. Creio que estou recebendo tudo o que você manda. Tanto que as notícias que você resume eu já as tivera por outras cartas. Quanto a não poder conversar direito pelas catas, isso é uma fatalidade e tem que ser o toda a vida... é melhor a gente se habituar. Mesmo pessoalmente é difícil conversar, mesmo quando a conversa é entre duas irmãs que se gostam e se entendem. Mil sentimentos atrapalham, como seja o amor mesmo, a desconfiança de que se esteja vagamente mentindo, a vontade de convencer, etc.
Não ligue a mim, não se preocupe. Vou escrever dagora em diante cartas + alegres. Na verdade não tenho ido a festas, que Nápoles tem pouca vida social. Tudo o que eu tenho é a nostalgia que vem de uma vida errada, de um temperamento excessivamente sensível, de talvez uma vocação errada ou forçada, etc. Que importa na verdade se por carta não se pode falar direito? Pessoalmente você se irritaria comigo. E com razão, certamente. Está tudo bem, não há nada a fazer. Meus problemas são os de uma pessoa de alma doente e não podem ser compreendidos por pessoas, graças a Deus, sãs. Mas fique tranquila, eu tenho levado uma vida como de todo o mundo. E tudo corre bem. Leio agora com mais interesse, estou trabalhando um pouco, vou ao cinema. Maury tirou um dente de siso, teve que abrir o osso. Mas tudo está bem, feito por dentista americano.
O cachorro pegou uma doença, fui com ele ao veterinário e um burro me disse que era incurável.
E lá estava eu chorando, passei um dia nervosa e triste com a idéia de que se teria que matá-lo, eu que gosto tanto dele. Maury, como sempre, reage normalmente e não sentiria muito. Mas estamos nos interessando em fazer raio X no cachorro e ele se curará, me garantiram.
O cachorro é a pessoa + pura de Nápoles. Se você visse como esta cidade é suja.
Estou vendo se vou a Castelmare, onde há fontes minerais, fazer uma rápida estação de águas, porque sinto que minha colite se acordou um pouco.
Recebemos carta de d. Zuza onde ela diz que o burro de um portador disse que eu devia estar chegando no Rio. Não sei quem o autorizou a isso. Não, não vejo ocasião de ir. Será + tarde ou talvez eu não vá, só vá daqui a quatro anos, normalmente. Afinal de simplicidade e de menos personalidade é que eu preciso... Cada um tem o seu destino: agora começo a acreditar em destino.
Quanto a escrever a amigos do Brasil, querida, eles não me respondem... É ridículo, não é? Não escrevo mais. Mas não tem importância. Peço-lhe, Tânia querida, que não se preocupe comigo. Eu sou muito feliz.
Me diga sobre o livro d Elisa, sobre a reação da crítica.
Me diga sobre o que tem feito, se você está bem de saúde. E sobre a Márcia. Aqui continua fazendo calor. Parece que em breve as casas serão desrequisitadas, então procuraremos um apartamento. Quanto a primos para Márcia... a questão é Troppo complicada. Nem mesmo pessoalmente você concordaria e eu saberia me explicar. Além do mais não deve ter importância.
Em outubro iremos a Florença, parece.
Bem, querida, nada mais resta que dizer, senão as coisas de sempre, das quais você já deve estar cansada: que gosto de você e que você deve ser feliz.
 Me perdoe se não sei como você desejaria que eu fosse...
Estou muito bem e muito alegre. Quando puder darei um pulo ao Brasil, e você verá que, feliz ou  infelizmente, sou a mesma de sempre. E você se irritará comigo e preferirá que eu viva muito bem... mas longe. Estou muito bem e feliz.
Me escreva sempre, que suas cartas são sempre as novidades. Dê um beijo para Márcia e me abrace, que no abraço mais do que em palavras , as pessoas se gostam. Sua sempre, Clarice.
p.s: digo sinceramente que estou muito bem e tenho esperanças.

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