sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cartas abertas – Naipe amor 3

6 de março de 1899 , para Leo Jogiches
Beijo-te mil vezes pela carta e pelo presente, tão apreciados, embora ainda não o haja recebido... Não podes imaginar como me agradou a tua escolha. Ora, Rodbertus é simplesmente o meu economista favorito e sou capaz de lê-lo mil vezes apenas pelo prazer intelectual... Meu querido, como fiquei encantada com tua carta! Eu a li seis vezes, do começo ao fim. Então, estás contente comigo. Escreves-me que talvez dentro de mim eu só saiba que em algum lugar existe um homem que me pertence! Não sabe que em tudo que faço tenho-te em mente? Quando escrevo um artigo, meu primeiro pensamento é – será que irá te dar prazer? -, e quando, em certos dias, duvido da minha força e não consigo trabalhar, só temo o efeito que isso terá sobre ti, que poderás ficar desapontado. Quando tenho provas de um sucesso, como receber uma carta de Kautsky, isso é apenas um tributo que te presto. Juro-te pelo amor que tenho à minha mãe que pessoalmente não dou importância ao que Kautsky escreve. Só fiquei feliz porque escrevi com teus olhos e senti quanto prazer meus escritos te dariam.
... Só uma coisa diminui minha satisfação: os aspectos externos de tua vida e de nosso relacionamento. Sinto que logo terei uma posição tão consolidada (moralmente) que poderemos viver juntos tranquilos e abertamente como marido e mulher. Tenho certeza de que também pensas assim. Estou feliz por saber que está chegando ao fim teu problema de cidadania e que estás trabalhando com energia em teu doutorado. Posso sentir por tuas cartas recentes que estás com muita disposição para esses trabalhos...
Pensas que não percebo teu valor? Toda vez que sou convocada para a luta, sempre estás a meu lado com ajuda e encorajamento – esquecendo todas as discussões e toda a minha desatenção!
... Não fazes idéia da alegria e do anseio com que espero cada carta tua, porque cada uma delas me traz muita força e felicidade, estimulando-me a viver.
O que me deixou mais feliz foi a parte da carta em que escreves que somos jovens e ainda podemos organizar nossa vida pessoal. Oh, querido, como desejo que possas cumprir tua promessa... Nosso próprio quartinho, nossos móveis, uma biblioteca para nós, trabalho calmo e regular, caminhadas juntos, uma ópera de vez em quando, um pequeno – muito pequeno – círculo de amigos íntimos que possamos de vez em quando convidar para jantar, todo ano uma viagem de verão para o campo durante um mês, mas, definitivamente, sem trabalhar!... E talvez até mesmo um pequenino, um filhinho muito pequeno? Será que isso nunca será permitido? Nunca? Querido, sabes quem se aproximou de mim ontem, durante uma caminhada pelo parque – sem nenhum exagero? Um garotinho de 3 ou 4 anos, com um traje bonito e cabelos louros; ele me olhou, e subitamente senti uma necessidade incontrolável de seqüestrar aquela criança e correr para casa com ela. Oh,querido,será que nunca terei um filho meu?
E em casa nunca mais iremos discutir, não é mesmo? Ela deve ser silenciosa e tranquila como a de todo mundo. Só tu sabes o que me preocupa: já me sinto tão velha e não sou nada atraente. Não terás uma esposa bonita quando passeares de mãos dadas com ela pelo parque – ficaremos bem longe dos alemães... Querido, se, primeiro, resolveres o problema de tua cidadania, em seguida teu doutorado e por fim viveres comigo abertamente em nossa própria casa e trabalhares comigo, então, não sentiremos falta de mais nada! Nenhum casal na Terra tem tantos recursos para a felicidade como nós, e se tiveres apenas um pouco de boa vontade, seremos, teremos de ser felizes.
ROSA DE LUXEMBURGO

Rosa de Luxemburgo nasceu em 1871 perto de Lublin na região da Polônia controlada pela Rússia. Em 1886 entrou para o Partido Proletário Polonês. Tornou-se uma ativista tão famosa que teve fugir para Zurique, onde continuou seus estudos e doutorou-se em 1889. Lá conheceu Leo Jogiches, com quem fundou o partido Socialdemocrata do Reino da Polônia. Amaram-se por muitos anos mas não chegaram a viver juntos. Dedicaram-se prioritariamente à política. Em 1898 Rosa casou-se com Karl Lubeck, filho de um amigo, como forma de mudar-se para Berlim. Sonhava com uma revolução socialista por toda a Europa, e não uma ação isolada de cada nação. Na Alemanha, tornou-se militante contra o militarismo e o imperialismo alemães e passou a ter problemas constantes com as autoridades. Em junho de 1919, quando comandava uma greve pela paz, foi presa e encarcerada por quase três anos. Libertada em 1918, junto com amigos, fundou o partido comunista alemão. Em 1919 foi presa pelo conhecido Freikorps, um grupo paramilitar, foi espancada até a inconsciência e seu corpo lançado no canal Landwehr. Seu assassinato foi, naquele momento, considerado triunfo da Alemanha nazista.


Uma pergunta de hoje: temos alguma causa comum? Que lugar a relação amorosa tem em nossas vidas?

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