segunda-feira, 27 de junho de 2011

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 5

Verona, 13 de novembro de 1796
Já não te amo mais; pelo contrário, detesto-te. És horrenda, muito desajeitada, muito idiota, uma verdadeira Cinderela. Não escreves nunca, não amas vosso marido; sabes do prazer que vossas cartas lhe proporcionam e não lhe envias sequer meia dúzia de linhas de rabiscos ocasionais. Então, o que fazes o dia inteiro, senhora? Que assuntos de tanta importância ocupa teu tempo, impedindo-te de escrever a teu excelente amante? Que afeição sufoca e põe de lado o amor, o amor eterno e constante que lhe prometeste? Quem pode ser esse novo amante maravilhoso que absorve todos os teus instantes, tiraniza por inteiro teus dias e te impede de dar atenção a teu marido? Josefina, tem cuidado, uma noite dessas as portas se abrirão e eu estarei lá. Em verdade, minha boa amiga, estou ansioso por não ter recebido notícias tuas; escreve-me depressa quatro páginas e diz aquelas coisas amáveis que enchem meu coração de sentimento e prazer. Espero logo poder apertar-te em meus braços e fazer chover sobre ti um milhão de beijos ardentes como as chuvas abaixo de Equador.
BONAPARTE

 Milão, 27 de novembro de 1796, às 3 horas da tarde
Chego a Milão, precipito-me para teu appartement, abandonei tudo para te ver, para apertar-te em meus braços... E não estavas lá; corres para as cidades onde há festejos; tu me deixas quando chego, não te interessas mais por teu querido Napoleão. Teu amor por ele foi um capricho; tua inconstância te deixa indiferente a ele. Acostumado ao perigo, conheço a remédio para as preocupações e vicissitudes da vida. O sofrimento que toma conta de mim é incalculável; eu tinha o direito de ser poupado disso. Estarei aqui até a noite do dia 9. Não te incomodes; vai em busca dos prazeres; a felicidade foi feita para ti. O mundo inteiro fica muito feliz de poder agradar-te e somente teu marido está muito, muito infeliz.
BONAPARTE
Para Josefina, 1796.
Não vivi um único dia em que não te amasse; não passei uma única noite sem te abraçar; não bebi uma única xícara de chá sem amaldiçoar o orgulho e a ambição que me forçam a permanecer longe do espírito que inspira minha vida. Em meio a meus deveres, quer eu esteja à frente do exército ou inspecionando os campos, minha amada Josefina domina meu coração, ocupa mina mente, preenche meus pensamentos. Se estou me afastando de ti à velocidade da torrente do Ródano, é somente para poder tornar a ver-te mais cedo. Se me levanto para trabalhar n meio da noite é porque isso pode acelerar em alguns dias a chegada do meu doce amor. No entanto, em tua carta dos dias 23 e 26 de Ventoso (sexto mês do calendário republicano francês0, me tratas por vous. Aplica este tratamento a ti mesma! Ah, infeliz, como podes ter escrito uma carta tão fria! E ainda há esses quatro dias entre o 23 e o 26; o que fazias para deixar de escrever a teu marido?... ah, meu amor, aquele vous, aqueles quatro dias me fazem ter saudade da minha anterior indiferença. Que se cuide o responsável! Possa ele, como punição ou compensação, experimentar o que minhas convicções e as provas (que pesam em favor do teu amigo) me fariam vivenciar! O inferno não tem tormentos suficientemente grandes! Nem as fúrias têm serpentes suficientes! Vous! Vous! Ah, como estarão as coisas dentro de duas semanas... meu espírito está pesado, meu coração está acorrentado e sou assombrado pro minhas fantasias.... tu me amas menos; mas superarás a perda. Um dia não me amarás mais; pelo menos admite; então eu saberei o que fiz para merecer esse infortúnio.... adeus, minha esposa: tormento, alegria, esperança e espírito inspirador da minha vida; a quem amo e temo, aquele que me enche de sentimentos ternos que me aproximam  de natureza e de impulsos violentos e agitados como uma tempestade. Não te peço amor eterno nem fidelidade, mas simplesmente... verdade, honestidade sem limites. O dia em que disseres ‘te amo menos’ marcará o fim do meu amor e o último dia da minha vida. Se meu coração fosse tão ignóbil que pudesse amar sem ser amado eu o faria em pedaços. Josefina! Josefina! Recorda o que algumas vezes te disse: a natureza me dotou de um caráter viril e decidido. Ela construiu o teu com rendas e tecido diáfanos. Deixaste de  me amar? Perdoa-me, amor da minha vida, minha alma está sendo esquartejada por forças conflitantes. Meu coração, obcecado por ti, está repleto de medos que me deixam prostrado de infelicidade... Estou perturbado por não poder te chamar pelo nome pessoalmente. Esperarei que tu o escrevas. Adeus! Ah! Se me amas menos, nunca me terás amado. Nesse caso, serei bem digno de piedade.
BONAPARTE
p. s. este ano, a guerra mudou a ponto de ficar irreconhecível fiz com que  se distribuíssem carne, pão e  forragem; minha cavalaria armada logo estará em marcha. Meus soldados mostram uma indescritível confiança em mim; só tu me és fonte de tristeza; só tu és a alegria e o tormento da minha vida. Mando um beijo para teus filhos, que deixaste de mencionar. Por Deus! Se o fizesses, tuas cartas seriam meia vez mais longas. Então, os visitantes que se apresentassem às dez horas da manhã não teriam o prazer de ver. Mulher!!!
Munique, 19 de dezembro de 1805
Grande Imperatriz, nenhuma carta tua desde que partiste de Estrasburgo. Passaste por Baden, Stutgart e Munique sem nos enviar uma palavra. Isso não é muito admirável, nem muito gentil! Ainda estou em Brunn. Os russos se foram; tenho uma trégua. Dentro de alguns dias decidirei o que fazer. Do alto de tua grandeza, condescende em ocupar-te um pouco de teus escravos.
BONAPARTE

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