quarta-feira, 29 de junho de 2011

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 7



Querido Wolf,
Você me conhece, eu disse que não voltaria a escrever já que as maléficas ondas insistem, mas aqui estou eu vencida pela necessidade de, apesar das tais, dividir minha alegria e assombro com a vida. Que alegria voltar a te encontrar e que sentimento difícil este! Alegria, alegria... Prazer absoluto. Difícil, muito difícil. E tudo (ou quase) que tenho pra te contar é que brotou outra rosa em meu jardim. Na verdade, não foi apenas uma rosa. Todas as orquídeas deram de brotar, sem quê nem por que. Tudo fora de hora, inesperado. Algumas não conseguiram esperar o final da primeira florada, e estão com brotos novos em velhos troncos. Isso quer dizer alguma coisa? Não importa, pra mim quer (mim quer?). Eu falei sobre ‘sistemas’ com você, não falei? Ou melhor, eu preciso falar nisso. Já faz tempo que o ‘sistema’ tem me causado problemas, especialmente porque ouço a palavra todo tempo e ela cisma de ecoar em mim de modo que minha percepção se atordoa. Melhor diria se dissesse memória, eu acho. Esta – memória – também é uma palavra que os tempos mudaram, ou vem mudando os tempos (é uma boa dúvida). De qualquer forma, a memória fica para outra ocasião (lhe disse que mudei, mas não o essencial, ou seja, digressão ainda me é particularmente importante). Não fossem os brotos no meu jardim (com certa doce lembrança ácida de Maiakovski) eu estaria no mais negro mau humor. Para tentar lhe contar do tal sistema é melhor relatar o dia de antes de anteontem. Acordei bem, feliz comigo porque acordei sem compromissos e sem pressa, devaneando o dia, construindo um café da manhã a la Minas, o céu azul claro, a montanha em variações de amarelo, folhei o jornal, e recomecei a ler o livro com o qual adormeci. Então o telefone tocou... alguém mal treinado a educado – também serve se eu disser: robô com defeito – disse que eu não havia pago duas contas de telefone, que a linha seria cortada até que..., mas eu paguei! Sinto muito, senhora, mas sua linha será cortada, esta ligação está sendo gravada, ela será imediatamente restabelecida assim que as contas e a taxa forem pagas, mas eu tenho os recibos!, sinto, senhora, mas não consta no sistema, a senhora terá que se dirigir à agência mais próxima, a PQP agradece sua atenção, tenha um bom dia. Foi a primeira vez que ouvi a palavra ‘sistema’ neste santo dia e pensei, absurdamente?, com o quê exatamente eu me depararia na agência mais próxima. Tentei, entretanto, retomar a leitura, esqueci do sistema, fiquei feliz, cansei-me de ler e tive vontade de ir ao cinema. Voltei ao jornal, a programação estava pela metade, ah, eu tenho computador!. Sim, lá estava: profusão de ofertas, mil cinemas, dois mil horários, vacilei, até que ... a tela apagou. Olhei ao redor, sim, faltou energia (não, não posso parar nisso agora). Melhor te dizer que decidi sair assim mesmo, andei um pouco, tomei um taxi com um motorista que ouvia um rádio a volume quase máximo e mastigava alguma coisa mal cheirosa, e soltava um palavrão vez por outra, e uma perplexidade me paralisava de idiota maneira. Mas cheguei, e quase corri. Parei e comecei a andar com calma, lembrei-me de que fui ao cinema no tempo em que não havia telefone fixo na minha casa (o telefone chegou lá em 1968) e penso que ninguém que eu conheça entenderia isso, muito menos havia taxi e, penso agora que já consegui até me livrar de uma coisa chamada ‘trânsito + conseguir uma vaga – roubo’, embora ainda não esteja certa de que a opção pelo motorista de taxi seja confiável, mas existem os agradáveis, e não existem vagas, é certo. Cheguei enfim ao cinema e vi a grade da programação apesar da multidão que me rodeava e empurrava (prefiro mil vezes a multidão que me habita mesmo com os conflitos que por vezes resolvem reviver). Lá está: o filme desejado começa em 20 minutos. A fila está lamentável, são dois atendentes mas só um atende (penso que o outro pensa na vida. Sim, ainda sou uma...). Começa uma discussão, não há este horário, senhor, mas está lá no painel de programação, mas está errado, então por que você não consertam?, não sou é, senhor, foi o sistema, então vejo que o tal horário que não havia era o meu horário, sinto-me prejudicada, o senhor começa a gritar: se está anunciado tem que me vender, eu saí para ver o filme, estou esperando há horas; não posso fazer nada, senhor, o sistema não aceita compra para este horário; como não pode fazer nada? Que sistema? A culpa é sua... não senhor, é do sistema, mas você trabalha pra ele então você é culpada, eu quero ver este filme.... Olhei para o tal senhor, tem uns 50 anos, entendi que ele não entendia o que eu não entendia, isto é, o sistema mudou mas continuando decidindo nosso ir e vir, o pessoal da fila se agitava, resmungava, gritava... Decidi desistir e buscar um lugar quieto para respirar e me repensar. Péssima idéia; andei, andei e todos os celulares do mundo tocavam à minha volta, pensei que iria enlouquecer, mas de repente apareceu uma livraria (megastore estava escrito lá... mas era uma livraria) e como quem pensa que encontra uma ilha quando está se afogando, eu lá adentrei correndo. Ledo engano, ela não era deserta, pelo contrário, estava mais populosa que a fila do cinema, os corredores eram infinitos e confusos, mas vislumbrei poltronas aqui e acolá e fui tentar parar. Sentei-me e inspirei majestosa e profundamente. E então um celular tocou... Infernos! Que tambor fúnebre é este? Sim, é o chamado do telefone dele, e ele começa a berrar, sim a berrar, a contar (pra mim?) que o negócio era outro... Bom, eu me desligo. Mas acabo lembrando que me esqueci o celular, é , lembrei-me de que tenho um, o qual sempre esqueço, mas tenho porque me cansei de me explicar que não gosto de telefone, ou melhor, desgosto, mas não quero magoar a ninguém, pelo contrário, amo as pessoas, gosto de conversar com elas, especialmente quando há silêncio e posso vê-las, mas cansei-me de me explicar e comprei um, mas  quando me lembro dele, ele está ‘descarregado’, e foi o que aconteceu ontem, o encontrei na bolsa, estava apagado, o coitado, e amorosamente o coloquei para carregar e ele ficou lá... Ah, o tal tambor fúnebre toca novamente, eu quase desespero, ele berra, ‘ei amor, sim, eu estou aqui, estou super-ocupado, mas podemos... ‘não, amor, você não está entendendo’, eu respiro fundo, sim, eu não estou entendendo nada, e decido comprar um livro, não é difícil, vencendo os corredores de auto-ajuda (por um momento penso em criar o setor ‘hetero-ajuda’ talvez assim... ah, não, eu seria mal compreendida), chego à literatura/lançamentos. Bom. Fácil escolher alguma coisa, e corro para o caixa. Outra fila, outros celulares, agora uma música estridente... Ignoro, ahh, tem uma coisa legal no meu celular que toca quando ele toca: SUMMMEERRTIIMEEE... é, a Janis, consegui que a pusessem pra mim, depois de pedir trocentas vezes a trocentas pessoas, pois verdade seja dita, não tenho o menor tesão pra adquirir habilidades tecnológicas, a mim me basta o básico do básico, já que sol e lua, bússola e relógios não bastam mais (ainda existem??); o problema – outro – com o meu celular é que fico ouvindo, e ouvindo a Janis e quando de repente ela se cala, o telefone... Ah, a fila anda, entrego meu cartão, desculpe, senhora, aguarde um pouco, o sistema caiu... ÃÃHH? Verdade? Só um minutinho, senhora, ele volta logo... Ahh, sim, (sorriso amarelo, sentimento de realidade paralela... sim, Wolf, outra coisa que preciso te contar é sobre Alzheimer e realidade paralela, fica pra depois, ok?); ok,  muito tempo depois paguei o livro, e não consegui um lugar pra ler. Voltei pra casa, e revi Manhattan. É tão lindo... Quando eu crescer eu vou ser o Woody Allen (esquece, quando Pedro me levou pra Nova York você nem me conhecia, ok, quem não esqueceu fui eu, eu sei... ocorre que foi no filme de Allen onde e quando aprendi coisas pelas quais a vida vale a pena). Quando você vem? (esquece, eu não perguntei isso). Abraços novos, Lóri.


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