segunda-feira, 27 de junho de 2011

DA IMPORTÂNCIA DA CASA:


“Encolher-se pertence à fenomenologia do habitar. Só habita com intensidade aquele que soube se encolher. (...) porque a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda acepção do termo. Vista intimamente, a mais humilde moradia não é bela? Os escritores da ‘casinha humilde’ evocam com frequência esse elemento da poética do espaço. Mas essa evocação é excessivamente sucinta. Como há pouco a descrever na casinha pobre, eles quase não se detêm nela. caracterizam-na em sua atualidade, sem viver realmente a sua primitividade, uma primitividade que pertence a todos, ricos ou pobres, se aceitarem sonhar. Mas nossa vida adulta é tão despojada dos primeiro bens, os vínculos antropocósmicos são tão frouxos,que não sentimos sua primeira ligação com o universo da casa. Não faltam filósofos que ‘mundificam’ abstratamente, que encontram um universo pelo jogo dialético do eu e do não-eu. Precisamente, eles conhecem o universo antes da casa, o horizonte antes da pousada. Ao contrário, os verdadeiros pontos de partida da imagem, se os estudarmos fenomenologicamente, revelarão concretamente os valores do espaço habitado, o não-eu que protege o eu. (...) Por conseguinte, todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos têm calores oníricos consoantes. Já não é em sua positividade que a casa é verdadeiramente ‘vivida’, não é somente no momento presente que reconhecemos os seus benefícios. Os verdadeiros bem-estares têm um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova. A velha locução: “Levamos para a casa nova nossos deuses domésticos” tem mil variantes. E o devaneio se aprofunda de tal modo que , para o sonhador do lar, um âmbito imemorial se abre para além da mais antiga memória. A casa, com o fogo, como a água, nos permitirá evocar, na sequência de nossa obra, luzes fugidias de devaneio que iluminam a síntese do imemorial com a lembrança.   Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar. Ambas trabalham para seu aprofundamento mútuo. Ambas constituem, na ordem dos valores, uma união da lembrança com a imagem. Assim, a casa não vive somente no dia-a-dia, no curso de uma história, na narrativa de nossa história. Pelos sonhos, as diversas moradas de nossa vida se interpenetram e guardam os tesouros dos dias antigos. Quando, na nova casa, retornam as lembranças das antigas moradas, transportamo-nos ao país da Infância Imóvel, imóvel como o Imemorial. Vivemos fixações, fixações de felicidade. Reconfortamo-nos ao reviver lembranças de proteção. Algo fechado deve guardar as lembranças, conservando-lhes seus valores de imagens. (...)”

in A Poética do espaço, Gaston Bachelard.

Nenhum comentário:

Postar um comentário