segunda-feira, 13 de junho de 2011

DO AMOR, por STENTHAL - parte I

Stendhal escreveu grande parte desta obra em 1820, em Milão, durante o carnaval. O livro foi publicado em 1822. Nele o autor se propõe a retificar a análise que alguns ideólogos da época faziam do amor examinando a natureza do sentimento amoroso e dos diversos aspectos que ele reveste, procura dar um conjunto de regras a um fato que tem papel tão importante nos costumes e na vida humana. 
(...)
CXLV
O amor é a única paixão que se paga com uma moeda que ela própria fabrica.

CXL

Chamo prazer a toda percepção que a alma prefere experimentar a não experimentar.
Chamo sofrimento a toda percepção que a alma prefere não experimentar a experimentar. Se eu preferir dormir a sentir o que estou sentindo, não há dúvida de que se trata de sofrimento. Portanto, os desejos de amor não são sofrimentos, pois o amante deixa, para sonhar à vontade, as companhias mais agradáveis.
Pela duração, os prazeres do corpo são diminuídos e os sofrimentos aumentados.
Quanto aos prazeres da alma, eles são aumentados ou diminuídos pela duração, de acordo com as paixões: por exemplo, depois de sis meses passados no estudo da astronomia, passamos a gostar mais de astronomia; depois de um ano de avareza, passamos a gostar mais do dinheiro.
Os sofrimentos da alma diminuem com a duração; “quantas viúvas realmente desconsoladas acabam consolando-se com o tempo!”, Milady Waldegrave de Horace Walple.
Seja um homem em estado de indiferença; acontece-lhe um prazer;
Seja outro homem em estado de intensa dor, essa dor cessa subitamente; o prazer que ele sente tem a mesma natureza que o do primeiro homem? O Sr. Verri diz que sim, mas parece-me que não.
Nem todos os prazeres provêm da cessação da dor.
Um homem possuía há muito tempo sei mil libras de renda e ganhou quinhentos mil francos a loteria. Esse homem tinha-se desacostumado de desejar as coisas que só podemos obter com uma grande riqueza. (Direi, de passagem, que um dos inconvenientes de Paris é a facilidade com que se perde esse hábito).
Inventa-se a máquina de talhar plumas; comprei-a esta manhã, e é um grande prazer para mim, que me impaciento por talhar plumas; mas certamente ontem eu não era infeliz por não conhecer esta máquina. Será que Petrarca era infeliz por não tomar café?
(continua)
In DO AMOR, Stendhal, Martins Fontes, São Paulo, 1993.

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