terça-feira, 14 de junho de 2011

DO AMOR, por STENTHAL - parte II

É inútil definir a felicidade, pois todos a conhecem: por exemplo, a primeira perdiz que matamos no ar aos dozes anos; a primeira batalha de que saímos sãos e salvos aos dezessete anos.
O prazer que é apenas a cessação de um sofrimento logo passa, e ao cabo de alguns anos a sua lembrança não nem sequer agradável. Um de meus amigos foi ferido no flanco por um estouro de obus, na batalha de Moscou; alguns dias depois, teve ameaça de gangrena e em algumas horas pudemos reunir Béclar, larroy e alguns cirurgiões estimados; fez-se uma consulta cujo resultado foi anunciar ao meu amigo que não estava com gangrena. Naquele momento, vi sua felicidade, que foi grande, mas não pura. Em segredo, sua alma não acreditava estar totalmente fora de perigo,ele refazia o trabalho dos cirurgiões, examinava se podia confiar inteiramente neles. Ainda entrevia um pouco a possibilidade da gangrena. Hoje, passados oito anos, quando lhe falamos sobre aquele consulta, ele experimenta uma sensação de sofrimento; tem a visão imprevista de uma das infelicidades desta vida.
O prazer causado pela cessação da dor consiste:
1º - em vencer todas as objeções que uma após outra nos fazemos.
2º - em repassar todas as vantagens de que iríamos ser privados.
O prazer causado pelo ganho de quinhentos mil francos consiste em prever todos os prazeres novos e extraordinários que vamos sentir. Existe uma exceção singular: é preciso ver se aquele homem tem muito ou muito pouco desse hábito; se tiver visão estreita, a sensação de embaraço durará dois ou três dias. Se tiver o hábito de freqüentemente desejar uma grande fortuna, terá desperdiçado antecipadamente a sua satisfação por imaginá-la demais.
Essa infelicidade não acontece no amor-paixão.
Uma alma ardente não imagina o último dos favores, mas o mais próximo: por exemplo, de uma amante que nos trata com severidade, imaginamos um aperto de mão. A imaginação não vai naturalmente além disso; quando a violentamos, depois de um momento ela se afasta temendo profanar o que adora.
Quando o prazer percorreu inteiramente o seu curso, é claro que voltamos a cair na indiferença; essa indiferença, porém, não é a mesma de antes. Esse segundo estado difere do primeiro por já não sermos capazes de apreciar com a mesma delícia o prazer que acabamos de ter. Os órgãos que servem para recebê-lo estão cansados e a imaginação já não tem tanta propensão a apresentar as imagens que seriam agradáveis aos desejos que se encontram satisfeitos.
Mas, quando em pleno prazer vêm tirá-lo de nós, produz-se a dor.
A disposição para o amor físico, e até para o prazer físico, não é a mesma nos dois sexos. Ao contrário dos homens, quase todas as mulheres são suscetíveis de pelo menos um gênero de amor. Desde o primeiro romance  que uma mulher teve às escondidas aos quinze anos, ela aguarda em segredo a vinda do amor-paixão. Vê numa grande paixão a prova de seu mérito. Essa espera redobra por volta dos vinte anos, depois que ela volta das primeiras imprudências da vida, enquanto que mal chegada aos trinta anos os homens acreditam que  o amor seja impossível ou ridículo.

In DO AMOR, Stendhal, Martins Fontes, São Paulo, 1993.

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