sábado, 4 de junho de 2011

Paul Auster: nossa leitura. Novamente.


“Quando comecei, achei que a coisa viria de forma espontânea, de um jato, semelhante a um transe. Tão grande era a minha necessidade de escrever que achei que a história se escreveria a si mesma. Mas as palavras até aqui vieram muito devagar. Mesmo nos melhores dias não fui capaz de escrever mais do que uma ou duas páginas. Pareço atormentado, assolado por alguma incapacidade mental de me concentrar no que estou fazendo. Vezes seguidas, vi meus pensamentos se desviarem do objeto à minha frente. Tão logo penso uma coisa,ela evoca uma outra,depois outra, até que há um acúmulo de detalhes tão denso que sinto que vou sufocar. Nunca antes estive tão consciente da fenda que separa pensar e escrever. Nos últimos dias , de fato,comecei a sentir que a história que tento contar é de algum modo incompatível com a linguagem,que o grau de sua resistência à linguagem dá a media exata do quanto me aproximei de dizer algo importante, e que quando chegar o momento de eu dizer a única coisa verdadeiramente importante (supondo que ela exista), não serei capaz de dizê-la.”

In Paul Auster, A Invenção da Solidão, Companhia das Letras, SP, 2004 - 


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