segunda-feira, 13 de junho de 2011

XIII Congresso Mineiro de Psiquiatria - parte I



XIII CONGRESSO MINEIRO DE PSIQUIATRIA
Coordenação de debate da mesa redonda FRONTEIRAS ENTRE A DOENÇA MENTAL E A NORMALIDADE por Magda Maria Campos Pinto.


Antes de mais se faz necessário festejar a iniciativa da direção da AMP de escolher a relação RESPONSABILIDADE E ATIVIDADE MÉDICA para tema deste Congresso. Foi um prazer aceitar o convite para estudar aspectos desta temática junto aos nobres colegas, Dr. Clóvis Figueiredo, Dra. Gislene Valadares e Dr. Adauto Clemente.
Em tempos de geral dos conceitos e das normas não podemos mais seguir nosso poeta maior, Carlos Drummond, e falar em tempos de homens partidos, pois, nossos dias são dias de homens fragmentados. E fragmentação, seguindo a Freud, nosso mestre maior, nos remete a poliformismo perverso. Esta é nossa atualidade, este é nosso contexto, onde mora responsabilidade primária de dizer, ou responder, sobre o saudável e o mórbido.
A reflexão desta mesa: “FRONTEIRAS ENTRE A DOENÇA MENTAL E A NORMALIDADE” nos indica impasses e saídas que desde sempre fizeram parte das responsabilidades do profissional da saúde. De início penso que podemos parar um pouco na palavra ‘fronteiras’ e lembrar que são muitos seus significados, como soe acontecer com todas as palavras, mas que, em nossa atualidade ainda marcada pelos radicais conflitos do século vinte, ainda trazemos na pele o sentido de ‘fronteiras abertas ou fronteiras fechadas’. Ter em mente este significado, que ainda ressalta de imediato em nossa pele, parece-me ajudar muito na reflexão sobre doença versus normalidade ou doença versus saúde, e outras tantas versões possíveis: a saber, saúde e normalidade, doença e normalidade, saúde e doença, doença e desvio, saúde e desvio... Ao introduzir o termo SAÚDE, ausente na denominação desta mesa, já pretendo apontar a linha que vem nos dominando dentro de fronteiras bem fechadas. Isto é, segundo o princípio predominante na atividade médica atual não se ocupa com a idéia SAÚDE, mas parte-se diretamente do princípio DOENÇA, esta, sim, considerada instância primária de nossa ocupação. Assim é que a doença emerge definida como ausência, transtorno, desvio ou distúrbio de algo, do qual não nos ocupamos. Penso que esta condição – o atropelamento da reflexão sobre a condição SAÚDE – estabelece um estreito e pobre leito no qual o médico tem gastado seus dias. Penso também que este estado tem, entre seus determinantes, a decisiva influência da indústria farmacêutica, a cultura da doença (ousaria dizer: culto), a tecnologização das práticas da vida e a radical fragmentação do saber. Neste contexto nada mais a ser feito além de seguir, e fazer o paciente seguir, uma linha reta onde se definirá o patológico e o normal. Tudo se restringe à pontuação obtida no final das respostas ao questionário (elaborado naturalmente por pessoas normais, em conformidade, é claro, ao questionário). Circunstância em que expressões como ‘aderência ao tratamento’ fazem todo o sentido e adquirem valor de referência. Neste momento, não me vou me deter na reflexão sobre tais significados.  Fica apenas a anotação e o ‘aplauso’ ao ‘paciente bonzinho’ que segue à risca, e sem efeitos colaterais, a nossa prescrição. Prescrição muito bem feita segundo a nota obtida pelo paciente nos testes a que ele se submeteu.
A palavra NORMALIDADE está no centro do pensamento sociológico, desde Durkheim, e aqui vale lembrá-lo quando, enquanto fundador da sociologia científica, ela afirmou que ‘o objetivo principal de qualquer ciência da vida, seja ela individual ou social, é a definição e a explicação do estado normal, bem como sua diferenciação do estado patológico. (As Regras do Método Sociológico, 1895 – data altamente simbólica para nós todos, seja por lembrarmos das primeiras publicações de Freud - mais exatamente dos Estudos sobre a Histeria -, seja da morte de Engels ou da edição do terceiro volume de O Capital). Foi assim que a noção de NORMALIDADE entrou para as discussões científicas deixando de ser sinônimo de saúde, enquanto o par conceitual normal/desviante deixava de corresponder ao par saúde/doença. Noutras palavras, surgiu a noção de ‘papel de doente’, ou seja, doença com função social, ou se preferirem, como ‘normal’. Assim, ser doente, e reconhecer esta condição, não constituem em si mesmos um desvio da norma. Pelo contrário, pode-se perfeitamente esperar do ‘doente’ que ele compreenda e aceite esta condição, sob pena de, aí sim, ser considerado um ‘desviante’ da norma.(continua)

Nenhum comentário:

Postar um comentário