terça-feira, 14 de junho de 2011

XIII Congresso Mineiro de Psiquiatria - parte II

 (Apolo, deus grego da medicina)

É evidente que estas condições geraram contestações e conceitos novos, com os quais estamos convivendo e estudamos sistematicamente. O princípio fundamental é criticar a paridade ‘transgressão da norma/patologia’. A saber, nem toda doença implica comportamento desviante, e vice-versa. A hipótese inicial é que seja a interação entre o comportamento do indivíduo e a ação social que o rodeia a responsável por dizer da condição de saúde ou de doença deste indivíduo.
A Antropologia Médica tem se debruçado sobre tal consideração, buscando estabelecer critérios de NORMALIDADE para diferentes culturas, tais como: capacidade de comunicação simbólica, solidariedade cultural com os interesses individuais, bem estar e reconhecimento individuais da realidade. Neste contexto devemos considerar o que se denominou ‘rede semântica’, conceito que supera o modelo meramente explanatório da condição de saúde, e se define como ‘uma estrutura profunda que conecta a noção de saúde e enfermidade aos fundamentos culturais de uma sociedade’, estrutura esta que permanece fora do conhecimento explícito e consciente dos membros da sociedade. As ‘redes semânticas’ sustentam o discurso profissional e o discurso leigo de tal sociedade; possuem consistência, coerência e plasticidade suficientes para diagnosticar e encaminhar estados saudáveis e patológicos, conforme esta mesma sociedade. Nesta condição a dualidade cultura/sociedade emerge superada, considerando a primeira – isto é, a cultura - como o domínio semântico e inconsciente habitado pelos indivíduos (e que os individualiza) e a segunda – isto é, a sociedade - como conjunto de signos, significados e práticas, deste mesmo domínio, traduzível racionalmente e passível de consciência.
Concluindo: se admitirmos a idéia de normalidade como critério para saber da saúde e da doença, temos que escolher entre algumas poucas possibilidades. Se a condição saúde/doença for definida segundo uma relação de proximidade a um conjunto normativo previamente estabelecido, nos resta trabalhar numa superfície plana para que o indivíduo esteja o mais bem acompanhado possível - no sentido quantitativo de mais -, ou seja, esteja onde e como todos estiverem. 
Também será possível admitir que a saúde se caracterize pela capacidade de modificar e de eliminar parâmetros estabelecidos previamente, pela possibilidade de criar novas normas e instituições, ou seja, pelo distanciamento do previamente estabelecido. Aqui, a saúde mediria o nível de individuação e diferenciação consciente de cada um. E a doença estaria na impossibilidade de mudança, na obediência irrestrita às normas, na indiferenciação individual e subjetiva.
E mais ainda, também se poderia admitir uma terceira possibilidade, na qual, o adoecimento se integra à condição saudável, enquanto medida do esforço desprendido por cada um, em sua individualidade, para obter uma relação dinâmica com o necessário e civilizador esforço normativo. A saúde aparece como resultante de uma interação social que exige permanente esforço para sua manutenção.(continua)

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