domingo, 3 de julho de 2011

Cartas Abertas 9 - Naipe Amor

Meu querido Theo,
Te escrevo com um pouco de desgosto, não havendo-o feito depois de tanto tempo e isto por muitas razões. Até certo ponto, tu te converteste para mim em um estrangeiro, e eu mesmo o sou para ti talvez mais do que pensas; talvez seria melhor para nós não continuarmos assim. É possível que não tivesse te escrito agora, se não tivesse a obrigação, a necessidade de escrever-te, se, como te digo, tu mesmo não tivesses me imposto esta necessidade. Soube em Etten que tu havias enviado 50 francos para mim; e bem, eu aceitei. Certamente contra a minha vontade, certamente com um sentimento bastante melancólico, porém estou numa espécie de beco sem saída ou lodaçal. Que outra coisa posso fazer? E, portanto, para te agradecer, te escrevo.
Estou, como talvez já o saibas, de regresso à Borinage, e meu pai me falava em seguir pelas redondezas de Etten; disse não e creio que assim será melhor. Involuntariamente, me converti na família em uma espécie de personagem impossível e desconfiado, seja o que for, alguém que não merece confiança. A quem eu poderia ser útil de alguma maneira? Isso justifica que diante de tudo – estou levado a crê-lo – me vá e viva à distância. Que seja como se eu não existisse. É o que a muda para os pássaros, o tempo em que trocam a plumagem, é a adversidade ou a desgraça, os tempos difíceis para nós, seres humanos. Se se pode permanecer neste tempo de renovação, se pode também sair como renovado, porém de qualquer modo isto não se faz em público, é bastante aborrecido, por esta razão convém ocultar-se. Bem, seja.
Agora, ainda que se trate de uma dificuldade desesperadora a recuperação da confiança de uma família, talvez não de todo desprovida de prejuízos e outras qualidades igualmente honoráveis e na moda, não obstante no desespero de todos de que pouco a pouco,lenta e seguramente, o entendimento cordial seja restabelecido com uns e outros. Também, em primeiro lugar, quisera ver este entendimento cordial,para não dizer mais, restabelecido entre meu pai e eu, e depois me agradaria muito que se restabelecesse entre nós dois. O entendimento cordial vale infinitamente mais que um mal entendido. Devo agora aborrecer-te com algumas coisa abstratas, não obstante quisera que tivesses paciência para compreendê-las. Sou um homem de paixões, capaz de fazer coisas mais ou menos insensatas, do qual me arrependo às vezes. Me ocorre muitas vezes que falo e ajo com demasiada precipitação quando seria melhor esperar com mais paciência. Creio que outras pessoas podem também algumas vezes cometer imprudências semelhantes. Agora, que há para se fazer? Devo considerar-me com um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Não creio. Porém se trata de tirar um bom partido, por todos os meios, destas paixões. Por exemplo, para mencionar uma paixão entre outras coisas, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e tenho necessidade de comer meu pão. Tu poderás compreender isto. Quando estavas em outro ambiente de quadros e de objetos de arte, tu sabes bem que senti então por esse ambiente uma violenta paixão que ia até o entusiasmo e não me arrependo, e todavia agora, longe do país, sinto muitas vezes a nostalgia pelo país dos quadros. Estudei mais ou menos seriamente os livros a meu alcance, como a Bíblia, a Revolução Francesa de Michelet, e no inverno passado, Shakespeare e um pouco de Victor Hugo e Dickens e Becher e Stowe e ultimamente Esquilo e depois alguns outros, menos clássicos, vários grandes pequenos mestres. Assim, quando alguém vive absorvido por tudo isso, algumas vezes resulta em incômodo, desagrado para outros, e sem querer, mais ou menos se peca contra certas formas, usos e conveniências sociais. Entretanto, é uma lástima que se continue agindo de má vontade. Por exemplo, sabes bem que muitas vezes, me descuidei de meu asseio, eu o admito e admito que isto seja desagradável. Porém aqui, a moléstia e a miséria existem para algo e, além disso, são um bom meio de se assegurar a solidão necessária, para poder se aprofundar mais ou menos o tal estudo que nos preocupa. Um estudo muito necessário na Medicina; haja apena um homem que não trate de saber,ainda que seja um pouco, que não busque compreender ao menos do que se trata , e resulta todavia que nada sei disto. Porém tudo isto absorve, tudo isso preocupa, porém tudo isso nos faz sonhar, meditar e pensar. Agora já levo 5 anos talvez, não sei exatamente, vivendo mais ou menos desgarrado, errante aqui e lá. Vós haveis dito. Depois de tal e qual época te hás abatido, te hás extinguido, não hás feito nada? Isto é totalmente certo? É verdade que muitas vezes ganhei meu pedaço de pão, muitas vezes algum amigo me há dado por lástima, tenho vivido como posso, o mesmo bem e mal, como se apresentava; é verdade que perdi a confiança de alguns e é verdade que meus assuntos pecuniários se encontram em um estado triste, é verdade que o futuro é bastante sombrio; é verdade que podia ter feito melhor, é verdade que nada além de ganhar para o meu sustento, foi perda de tempo; é verdade que meus estudos seguem um estado bastante triste e desesperador e é o que mais, o que me falta infinitamente mais, que o te tenho. Porém a isso chamais decair, não fazer nada? Tu dirás talvez: porém, por que não haveis se conduzido como queríamos que tivesses continuado, no caminho da Universidade? Não contestarei nada exceto isto: é demasiado; e, além disso, esse futuro não era melhor do que o presente que ando seguindo. Porém, devo continuar no caminho em que me encontro. Se não faço nada, se não estudo, se não busco mais, então estou perdido. Então, desgraça sobre mim. Assim, é como encaro as coisas: continuar, continuar, isso é necessário. Muito seu,


V
incent
Retrato de Theo van Gogh, 1887

Vincent van Gogh (1853-1890)
óleo sobre cartão, 19 X 14 cm
Van Gogh Museum, Amsterdam

(Vincent van Gogh Stichting)
A notícia de que um presumível auto-retrato de Van Gogh, de 1887, seria de fato um retrato do irmão Theo é muito significativa, pois são desconhecidos retratos de Théo pintados pelo irmão, Vincent. Van Gogh é um dos pintores cuja obra e biografia têm sido mais estudadas. O museu de Amsterdã apresenta atualmente a exposição "Van Gogh em Antuérpia e em Paris: novas perspectivas", que procura levantar questões que envolvem a sua obra. Ocorre que a relação com Théo foi intensa, como se verifica por exemplo na correspondência entre ambos que durou cerca de 20 anos, no fato de que Théo o protegeu sempre e foi o comprador do único quadro que Van Gogh vendeu em vida.

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