sexta-feira, 1 de julho de 2011

CARTAS ABERTAS - NAIPE AMOR 9 - Gênios malditos

No mar, 3 de julho de 1873

Meu amigo,
Não sei se você ainda estará em Londres quando receber esta. Desejo, no entanto, dizer que você deve no fundo compreender, enfim, que era absolutamente necessário que eu partisse, que esta vida violenta e cheia de cenas sem motivos de sua fantasia não podia mais me encher o saco.
Apenas como eu o amava imensamente (hanni soit qui mal y pense)*, desejo também confirmar a você que, se daqui a três dias eu não estiver com minha esposa, em perfeitas condições eu me dou um tiro na cara. 3 dias em hotel, uma revolvita, isto custa dinheiro: desde agora, minha ‘avareza’ de dentro em breve. Você devia me perdoar- se, como é provável, eu tiver que fazer esta última besteira, eu a farei como uma besta valente.

Meu ultimo pensamento, caro amigo, será para você, para você que me chavama de píer ainda há pouco e para quem eu não quis voltar porque era preciso que eu morresse, - ENFIM.
Quer que eu o abrace moribundo?
Do seu pobre,

Paul Verlaine

ADORMECIDO NO VALE


Rimbaud para Verlaine - Tradução: Ferreira Gullar

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.


Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.


E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.




A canção de outono

Paul Verlaine - (Tradução de
Alphonsus de Guimaraens)

Os soluços graves dos violinos suaves do outono

ferem a minh'alma num langor de calma e sono.

Sufocado em ânsia, Ai! quando à distância soa a hora,

meu peito magoado relembra o passado e chora.

Daqui, dali, pelo vento em atropelo seguido,

vou de porta em porta como a folha morta, batido...


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