domingo, 24 de julho de 2011

Da leitura:



 “Qual a importância ética da leitura? (...) o meu ponto de partida, implicando tomar a palavra ética no sentido amplo de ethos, modo de ser e agir do homem – e privilegiando a leitura de determinados textos, os ficcionais de caráter literário -, é que a importância da ética da leitura está no seu valor de descoberta e de renovação para a nossa experiência intelectual e moral. A prática da leitura seria um adestramento reflexivo, um exercício de conhecimento do mundo, de nós mesmos e dos outros.
Por certo que essa prática é solitária, quem lê isola-se por momentos do mundo, à rebours de la conversation, como observou Proust, e recolhe-se na companhia do livro, à escuta de sua silenciosa conversa. Mas nesse recolhimento, provocado por outra voz que não a nossa e a daqueles que nos rodeiam, trava-se uma singular dialética entre nós mesmos e o texto. A experiência da leitura, particular e momentânea, reverte a favor da experiência da vida, geral e cumulativa. (...) os textos literários são obras de discurso a que falta a imediata referencialidade da linguagem corrente: poéticos, abolem, ‘destroem’ o mundo circundante, cotidiano, graças à função irrealizante da imaginação que os constrói. E prendem-nos na teia de sua linguagem, a que devem o poder de apelo estético que nos enleia; seduz-nos o mundo outro o, irreal, neles configurado, a que aderimos por uma willing supeension of disbelief (desejada suspensão da descrença), assim chama por Coleridge o efeito de continuidade do efeito estético. No entanto, da adesão a ‘este mundo de papel’, retornamos ao real, nossa experiência, ampliada e renovada pela experiência da obra, à luz do que nos revelou, possibilita redescobri-lo, sentindo-o e pensando-o da maneira diferente e nova. A ilusão, a mentira, o fingimento da ficção aclara o real ao desligar-se dele, transfigurando-o, e aclara-o já pelo insight que em nós provocou."

In Estado de Leitura, Benedito Nunes.

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