domingo, 24 de julho de 2011

DEVANEIOS 1 - Amy

É madrugada. E não quero dormir. Sei que eu não  penso realmente. A estas alturas, Parmênides, Sócrates, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Deleuze, cinco vezes Freud, Lacan, um punhado de Thomas Mann e de Joyce, um cozido de Marx, Guevara, Foucault e Mandela, Guimarães Rosa no café da manhã, Drummond, para sempre Drummond, no almoço, Proust na sobremesa, tardes com Clarice Lispector, chá das cinco com Goethe, outras vezes com Shakespeare e ainda Woody Allen & Cia toda noite, temperando tudo e me lembrando do quê esqueci... Sim, eu sei que não sei se sou eu aquele que pensa.
Mas, diferentemente, eu estou convencida de que: eu sinto. É verdade, eu sinto pra caramba! E sei o quê é sentir. E faz um tempo enorme que eu sei que sinto, e sinto mais ainda à medida que o tempo passa. Mais, e diversamente. Este mais significa maior quantidade e muitas variedades. Neste momento, quero falar do sentir deste momento. Parece-me ridículo falar do que sinto ‘neste momento’, pois, já tenho  acúmulo suficiente de momentos  para afirmar que, amanhã pode ser que eu diga que aquilo eu disse que sentia ontem não era bem aquilo, e que de fato era outra coisa. Ainda assim, nunca (palavra forte, resistente) a revisão retrospectiva do meu sentir, diminuiu, desmereceu o sentir daquele momento. Retificou sim, muitas vezes. A posteriori, mudei de opinião (graças a Deus!), mas meu sentir permaneceu. E sempre (outra palavra forte, corajosa) pareceu digno. Por isso quero falar do que estou sentindo agora, neste momento em que Amy Winehouse morreu. Aconteceu há cerca de 14 horas, todas as televisões e demais mídias só falam de sua morte. ‘Ela não é do meu tempo’, ‘do nosso tempo’: ouvi isso mil vezes na televisão. Ouvi também mil vezes sobre ‘o enorme e múltiplo talento que perdemos’. Quero dizer que entendo o ela não é do meu tempo, e, ao mesmo tempo quero dizer ‘que eu sinto que eu sou do tempo dela, e que eu gostava muito daquela voz feroz e doce, e também daquele estilo único de se cobrir descobrindo-se.
Pois é, eu dizia daquilo que ouvi na TV, da juventude que se foi e, engraçada (eu achei) de uma conexão (misteriooosa??) com uns tais 27 anos. Com Janis, Hendrix, Morrison e Cobain. Janis e Hendrix são do meu tempo (eu lhes digo, e me dirão, é certo); Morrison e Cobain estavam no primeiro tempo quando eu já estava no segundo, mas ainda os aplaudi. Digo isso pra contar que já joguei muitos jogos; várias prorrogações e até algumas disputas de pênaltis (que, por sinal, eu odeio). E penso que este tipo de 'associação' é falta de imaginação e de respeito pela singularidade de cada vida. Naqueles momentos, ou seja, dos citados jogos, senti, no mais das vezes, que eu havia perdido. E sofri. E chorei muito; é verdade, eu sentia a dor da perda mil vezes mais forte que a alegria de uma conquista. Agora, retrospectivamente, ou seja, neste momento, sinto diferente. Sinto que ganhei mais do que perdi (não sei como foram as dores nem as alegrias, tenho apenas a idéia do quê se passou, não há memória da sensação). Há ainda outra lembrança neste momento: poucas vezes joguei sozinha. É isto. E isto mudou muito. Tenho jogado (temos) sozinha. Meu sentir de agora, neste momento... Como é? Bom, há um tremor ligeiro, que toma todo meu corpo, há um sabor amargo, uma visão desfocada e um zumbido dentro da cabeça (nada que ouço, faz sentido). E uma náusea no meio da barriga. A pele está arrepiada, por inteiro. E uma enorme má vontade de conversar; pode ser a questão da visão desfocada, mas não vislumbro ninguém que me dê vontade de conversar. 

E vem uma conclusão quase imediata deste meu sentir. Ela se impõe e é simples: eu  conheço e tenho grande intimidade com a Amy Winehouse. Tenho me encontrado com ela praticamente todos os dias; às vezes, mais de uma vez ao dia. Ela é sim extremamente talentosa, na verdade multi-talentosa, inteligente, culta, esperta, sabe ganhar dinheiro, entende muito de tecnologia, não se sente oprimida, pelo contrário, tem idéias próprias (até se cobra muito isso, muiiito mesmo!), diz o quê pensa sem nenhum receio, e faz o que bem entende. Aborrece-me apenas algo que insiste em repetir todos os dias: ‘ninguém manda em mim’.  Eu já ouvi, é evidente, é obvio, mas, por alguma secreta razão, ela insiste em declará-lo das mais diversas formas. E é verdade que, quase sempre, o faz de maneira inteligente e original. Nem se importa se dói. Ela aprendeu a se anestesiar. Aprendeu quase tudo.


 O fato é que, de tanto ela se repetir, descobri que seu único jogo era: encontrar alguém que a impedisse. Qualquer alguém, qualquer coisa. Sei lá... Por exemplo, que a impedisse de fazer o gol. É. Acho que é isso; afinal parece que todos os outros jogos (mortais ou não... quem se importa?) estão à disposição. E se, todos jogam sozinhos, todos ganham. Ganha-se o quê mesmo? O tédio. Ah, o tédio... Alguém está chorando? Eu gosto de muitos jogos. E trago em mim, mil invenções. Pobre Amy. Nem teve tempo de aprender pular a amarelinha, ou de jogar queimada. Ou de namorar sem testemunhas. De gostar de futebol. De se descobrir Amy. Pobre de mim que perdi mais uma pessoa talentosa capaz de inventar novos jogos comigo.

Magda Maria Campos Pinto 


Um comentário:

  1. Que belo texto! Li, ao som da música dela que mais amo...
    Ser do tempo de alguém é sentir a emoção que ela faz brotar de/em nós.

    Belo texto!

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