sábado, 16 de julho de 2011

Insight 2

(...) Um pouquinho mais belo, portanto outra coisa. Um nada mais belo, portanto outra coisa totalmente diversa.


Tocamos aqui no paradoxo da inicialidade de uma ação muito habitual. Os trabalhos domésticos devolvem à casa não tanto sua originalidade como sua origem. Ah, que maravilha se na casa, todas as manhãs, todos os objetos pudessem ser refeitos por nossas próprias mãos, ‘sair’ de nossas mãos. Numa carta a Théo, Vincent Van Gogh lhe diz que é preciso “conservar alguma coisa do caráter original de um Robinson Crusoé”. Fazer tudo, refazer tudo, dar a cada objeto um ‘gesto suplementar’, uma faceta a mais no espelho da cera são outros tantos benefícios que nos presta a imaginação ao fazer-nos sentir o crescimento interno da casa. Para ficar ativo durante o dia, repito a mim mesmo: “Cada manhã dá um pensamento a São Robinson”.
In A poética do Espaço, Gastón Bachelard, Martins Fontes, SP, 2008.


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