segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Lista

31. A existência de Sarah


Crônicas de Nova York - O Fim

É o fim das Crônicas de Nova York. É o fim das aventuras de Percy Jackson. É o fim da viagem. A parte boa e ruim de toda viagem é a volta. Não, ainda não voltei, mas o pouco tempo que me resta aqui é a parte mais chata da viagem: as compras. Sim, ao contrário do que outros visitantes da terra do Tio Sam possam dizer, essa é a parte mais chata e mais pobre (no pun intended) da viagem - e não há nada de interessante para contar sobre gastar mais e mais e mais dinheiro. A idéia inicial das crônicas era ser mesmo um diário, portanto, diário (duh), mas não deu e elas não fazem sentido escritas em tanta retrospectiva por isso também terminam aqui. Entrei no ritmo de Nova York, a cidade que nunca pára, e fiz como as pessoas fazem aqui: comprar frutas como se elas fossem desaparecer no próximo minuto, ir para a aula como se ela fosse a mais importante da sua vida, ir para casa como se houvesse um tempo limitado para se ficar na rua.

Não se enganem: eu queria ter contado para vocês que no dia seguinte ao último que descrevi, acordei com a claridade que invadia o quarto e as oito horas da manhã me encontraram terminando a primeira aventura do Percy. E já ansiosa pela segunda. Que fiquei na cama pensando desanimadamente no que fazer quando minha colega de quarto me chamou para ir no Museu de História Natural (aqueeele, do filme que o cara é guarda noturno lá, sabe? pois é) e eu aceitei animadamente, pensando que estava na hora de fazer algo turístico nem que seja para escrever aqui. Que encontrei o famoso T-Rex e andei pelos corredores sobre a África, a Ásia, encontrei até uns índios brasileiros perdidos por lá. E que fui ao planetário. Eu queria ter contado para vocês que, ao som da voz de Whoopi Goldberg, me contaram como nasce uma estrela e como eu tive o céu inteiro ao alcance das minhas mãos. E como eu pude sentir as estrelas passando por mim e me perdi no espaço, com lágrimas nos olhos de pura admiração. Um show para arrepiar até os olhos mais insensíveis. Sábado, eu fui dona do universo. E salvei um amigo, que estava se sentindo oprimido por essa bagunça enorme conhecida como Nova York e, como eu ja tinha passado por isso, saímos para passear. Eu ainda reclamando dessa loucura, mas ao mesmo tempo sabendo que ele tinha que aproveitar cada segundo daqui. Queria ter discorrido sobre a parada porto-riquenha que passei na volta para casa, da qual discordo com certa veemência e queria ter explicado meus motivos para isso. Contado que domingo, fui para a Times Square pela primeira vez. E pela primeira vez Nova York se mostrou imponente sobre mim, me rodou e me colocou aos seus pés, à mercê da sua imensidão de luz e brilho, me olhou do alto e me colocou no meu insignificante lugar. Pela primeira vez meu queixo caiu e por lá ficou, esquecido. E no domingo eu vi outras estrelas, essas de cera e me diverti como uma criança pequena, chegando em casa com meu gato de pelúcia e dormindo muito mais tranquila ao som das sirenes e buzinas e motores, que nunca, nunca param.

Queria ter contado a semana louca que tive, carregando equipamento para cima e para baixo, pegando trens na chuva com camera e sabe-se deus, digo deuses, mais o que (o Percy me ensinou a tomar cuidado ao ignorar os outros deuses). Que quando se carrega trocentos quilos de equipamento em um, dois, três metrôs e se filma sem comer e se anda para 5 locações diferentes e se filma escondido no parque e é acertado por cocô de pombo, acaba-se fazendo dois ou três amigos muito mais depressa que se espera. E que no final de semana seguinte eu fui ao Central Park. Andei, andei e andei. Passei por crianças brincando com balões coloridos, famílias fazendo picnic, noivos tirando fotos, casais namorando nos barquinhos no meio do lago. De um dos lagos. Pessoas pintando, desenhando, fazendo caricaturas. Uma senhora tocando vivaldi lindamente no violino e poucos metros depois um negro fazendo um som mágico no saxofone. Um velhinho oriental tocando o que depois eu fui descobrir ser um er hu. De repente eu passo por um menininho de não mais que dez anos tocando o piano maravilhosamente. Sim, no meio do parque. Pessoas pararam em volta para ouvi-lo tocar. Tiravam fotos e eu também parei. Pensei que ele estava pedindo dinheiro ou vendendo cds, como os outros. De repente, ele levanta e vai embora, de mãos dadas com o pai. E o piano fica lá, no meio do parque, para quem quiser (ou ousar) tocar. Arte. Por todos os lados, por todos os cantos. Arte pela arte. Beleza. Risos. Mais uma vez, Nova York me coloca no meu lugar e me mostra que a paciência é uma virtude e a apreciação é uma arte. Continuo o passeio com lágrimas nos olhos (sou chorona, fazer o quê), não de tristeza… de alegria… e de dificuldade de assimilar tanta coisa linda de uma vez. Que continuei andando em direção ao meu destino: Strawberry fields. E ao chegar lá, estava coberto de flores, está sempre coberto de flores, e um grupo de crianças e adolescentes (junto com seus professores) estavam tocando e cantando Beatles. E as pessoas em volta, estranhos e desconhecidos, cantando junto. E tocaram Because. Eu quis ficar ali. Eu quis ficar bem ali. Eu quis crescer e morrer bem ali. E chorando, eu murmurei baixinho: agora eu entendi, John, agora eu entendi.

Não me entendam mal: não tiro nada do que disse antes. Nova York é de ninguém e é de todo mundo. E por isso mesmo, é minha também.

Queria ter contado que saí à noite pela primeira vez e fui parar um bar que é um barco no Pier 66 e terminar a noite em um karaokê koreano, com uma argentina, uma uruguaia, uma australiana e uns mexicanos. Que a Times Square virou um dos meus lugares preferidos. Que eu fui a um stand up comedy show. Que eu fui a um show de Blues e a um jogo do Yankees! Que agora eu sei tudo de baseball e, olhem só, é legal! Que o Percy completou mais uma, duas, três aventuras e que ele me ajuda a lembrar o quanto as coisas são lindas. Principalmente aquelas que a gente não entende. Que eu fui ao Moma e me encontrei com Van Gogh, Monet, Miró, Picasso, Dalí e até a Frida. Que eu vi um Hitchcock e me vi no Woody Allen - que ficou ainda mais maravilhoso depois do passeio ao Moma. Que eu fui ao Met e me encontrei com Degas, Van Gogh (de novo… sim, ele pode), Monet, Manet, Renoir, Velázquez… era tanta coisa que saí às pressas com medo do meu cérebro fundir - sério! No caminho um corredor com várias esculturas que as pessoas na fila para o Alexander McQueen não prestavam a mínima atenção. Rodin. Encontrei umas múmias egípcias e umas colunas gregas e passei por uma estátua de um jacaré esculpida em nada menos que 200 anos antes de Cristo. Eu achei que ia enlouquecer de verdade no Metropolitan. Visitei a Sra Liberdade, namorei a vista de Manhattan à distância e fui ao topo do Rockefeller Center. Não vi um musical (dorzinha no coração), mas vi uma peça na broadway que me fez sair do teatro tremendo. Embasbacada, acho que é essa a palavra (The Normal Heart - procurem, assistam, se virem!). E os atores saíam depois da peça, davam autográfos, tiravam fotos, pessoas lindas pois fazem arte e me comoveram e me ensinaram - e saíam do teatro com uma mochila para pegar o metrô. A Broadway não é a broadway que a gente imagina. É muito melhor. E que ainda tem tanto para ver, para ouvir, para encontrar, para apaixonar! Woody Allen diz que tem 70 anos que ele tenta conhecer Nova York. Ele é sábio. E agora eu entendo. Logo, será meu último dia em Nova York e meu último capítulo do último livro do Percy Jackson, que na sua inocência infantil me ensinou mais que eu e ele imaginávamos. Sinto que sua jornada começou e termina junto com a minha (depois de tanto tempo no metrô com Percy e os deuses, ele e seus companheiros são como amigos que tenho e temo o final do livro pois parece que vou perder pessoas que conviveram comigo durante muito tempo). Várias vezes ele diz como ele ama Nova York e, Percy, agora eu entendo! “I love New York. You can pop out of the Underworld in Central Park, hail a taxi, head down Fifth Avenue with a giant hellhound loping along behind you, and nobody even looks at you funny.” (The Last Olympian, page 141).

Para vocês, a minha viagem termina no Empire State Building. Como eu disse antes, não vou terminar com com as compras que vou fazer, com as encomendas que tenho que comprar, com o dinheiro que tenho que gastar - apesar que todos os que me acompanharam com muito carinho até aqui têm um souvenir já separado só para eles. Pode cobrar. Quero que Nova York seja um pouco de vocês também. E quanto a mim, fui ao Empire State Building, que é lindo. Fiz questão de ir à noite e - apesar das filas e de estar sempre cheio - consegui meu lugar ao vento olhando para as luzes da cidade que nunca dorme. Vi como ela é realmente linda e ela piscou para mim. Ouvi o “hummmmmm” constante da barulhenta metrópole. E chorei (pra variar). Acreditem ou não, lá em cima, no meio do observatório, tinha alguém tocando sax. E ao som do sax, olhei para talvez um dos lugares mais maravilhosamente inspiradores que já estive na vida com a certeza que deixo uma infinidade de descobertas a serem feitas e com a esperança de voltar para investigar tantas mais em breve.

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