sábado, 9 de julho de 2011

MAIS UM AMOR ARGENTINO:

 Macedonio Fernández, amigo íntimo do pai de Jorge Luís Borges, compartilhou com este o interesse e o estudo da obra de Spencer e Schopenhauer. Desde muito jovem, publicava em jornais e revistas, trabalhos de temas e formas diversas. Doutorou-se em direito; e manteve intensa atividade literária e militância pela causa da arte.

Quando Jorge Luis Borges (o filho livreiro famoso) retorna da Europa, descobre Macedonio com quem inicia uma longa amizade; Macedonio já havia deixado a carreira de advogado. Borges declara num longo prefácio a uma antologia de Macedonio a influência profunda que recebeu deste, e proclama sua sabedoria proverbial. Entretanto Macedonio se identifica com modéstia, embora se assuma sábio, e dono de um permanente espírito perplexo; destaca-se sua veneração por Cervantes, mais que ídolo, uma espécie de Deus para ele. Original, excêntrico, desprezava a erudição pomposa, mantinha incessante atividade mental, desinteressava-se das críticas, não alimentava polêmicas, não discutia opiniões.  Venerava supersticiosamente tudo que se referia à Argentina. Exercia eminentemente a arte da solidão e do fazer nada. Sua atividade preferida era pensar / fazer nada.  Temia a dor e morte. Sua vocação maior era a contemplação e a filosofia do mistério do ser um humano.



BIBLIOGRAFIA:

  • No toda es vigilia la de los ojos abiertos. Buenos Aires, Manuel Gleizer, 1928.
  • Papeles de Recienvenido. Buenos Aires, Cuadernos del Plata, 1929.
  • Una novela que comienza. Prólogo de Luis Alberto Sánchez. Santiago de Chile, Ercilla, c. 1940, port. 1941.
  • Poemas. Prólogo de Natalicio González. México, Guarania, 1953.
  • Museo de la Novela de la Eterna. Advertencia de Adolfo de Obieta. Buenos Aires, CEAL, 1967.
  • Museo de la novela eterna / Macedonio Fernández; edición de Fernando Rodríguez Lafuente. Cátedra, 1995.
  • No toda es vigilia la de los ojos abiertos y otros escritos. Advertencia de Adolfo de Obieta. Buenos Aires, CEAL, 1967.
  • Cuadernos de todo y nada. Buenos Aires, Corregidor, 1972. 2a. ed. 1990.
  • Teorías. Ordenación y notas de Adolfo de Obieta. Buenos Aires, Corregidor, 1974 (Obras completas, vol. III).
  • Adriana Buenos Aires; última novela mala. Ordenación y notas de Adolfo de Obieta. Buenos Aires, Corregidor, 1975. (Obras completas, vol V).
  • Museo de la Novela de la Eterna; primera novela buena. Ordenación y notas de Adolfo de Obieta. Buenos Aires, Corregidor, 1975. (Obras completas, vol VI).

O século 21 "será macedoniano", anunciou o romancista argentino Ricardo Piglia no documentário “Macedonio Fernández”, que está disponível, sem legendas, no YouTube. Prova disso talvez seja a inesperada atualidade de uma de suas criações, o "leitor salteador", nestes tempos de internet.

Num dos infindáveis prólogos de Museu do Romance da Eterna, escrito para a falecida esposa, Macedonio desenvolve sua famosa teoria dos "leitores salteados" --aqueles que, mesmo pulando páginas, não deixam de ser "leitores completos". Fragmentário, o livro antecipa os saltos do leitor e "pula" o texto para ele, numa espécie de "zapping" literário.

Em 2009, em entrevista para Sylvia Colombo, Ricardo Piglia  reconheceu no internauta do século 21 o "leitor salteado" de Macedonio, "que já não é aquele que está isolado, concentrado e lutando contra a interrupção".

Macedonio tentou fundar, por volta de 1897, uma comuna anárquica com três ou quatro pessoas, numa ilha perto da fronteira do Paraguai --o pai de Borges, Jorge Guillermo, não foi, pois estava para se casar. Eram "náufragos da sociedade", como diz Ricardo Piglia em seu documentário. Sobre essa experiência, Borges cravou: a colônia libertária "durou o que costumam durar tais utopias".

Nos anos 1920, ao ficar viúvo, Macedonio dedicou-se à fermentação das vanguardas literárias nos cafés e revistas de Buenos Aires e às suas proverbiais manias, narradas por discípulos incansáveis como Jorge Luis Borges, por exemplo, de mudar de casa constantemente, tendo morado em inúmeras pensões portenhas e em casas nos arrabaldes de Buenos Aires.

Entre as excentricidades do amigo, escreve Borges, estavam "o nacionalismo" (Macedonio apoiou todos os presidentes da República, na certeza de que o povo argentino "não erra"); o medo da odontologia (o que o levava a golpear-se em público para amolecer os dentes e assim evitar o boticão); e a paixão pelas prostitutas de rua.

 Borges, Macedonio e amigos pretendiam escrever um romance coletivo, "O Homem que vai ser Presidente": a história de um grupo de conspiradores, liderado por um certo "Presidente", que pretende tomar a cidade de Buenos Aires.  O projeto não se realizou; Macedonio escrevinhou e guardou por décadas dezenas de cadernos sobre esta obra, e a edição atual da Record tenta recriar esta sensação de amontoado de páginas diferentes.

A presidência da República era mais uma das obsessões de Macedonio, que declarava ter a intenção de disputar as eleições como candidato independente, arregimentando amigos e fãs numa bizarra pré-campanha que alguns levaram a sério, outros como pura gozação.

Quem conta é Jorge Luis Borges, cuja irmã participou de uma mobilização de Macedonio para "insinuar-se na imaginação das pessoas de modo mais sutil e enigmático": em vez da "fácil" citação em jornais, pediu que seus conhecidos escrevessem seu nome em pedaços de papel que eram "esquecidos" em confeitarias, bondes, cinemas etc. 


“Caro Jorge Luis: desculpe-me por não ter ido ontem à noite. Eu estava indo, mas sou tão distraído que no caminho me lembrei que havia ficado em casa. Estas constantes distrações são uma vergonha, e às vezes esqueço de me envergonhar também”. Macedônio
P.S: Obrigada, Amel.

Nenhum comentário:

Postar um comentário