domingo, 17 de julho de 2011

PAIS E FILHOS – nossa causa - 1.

Aproveitando o fio da meada que Eliane Brumm voltou a nos mostrar recentemente, atendendo a pedidos - em especial a um próprio tremor interno - e à repetição exacerbada e progressiva de fatos semelhantes (estonteante), vamos mergulhar novamente no tema EDUCAÇÃO, nos próximos dias. Em 2004 participei de um debate para cinéfilos sobre alguns filmes daquela época, entre eles ELEPHANT de Gus van Sant; deste debate surgiu o texto que publico agora. Continuo emocionada, como naquele ano. E, ao mesmo tempo, empolgada. Sim, se padeço de uma doença, ela se chama empolgação. Já o declarei antes. É grave, e graças a Deus, incurável. Amém.


Elephant, uma caçada a esmo. Ou ‘Como é horrível e belo o dia que eu ainda não vi...’. Ou ‘O mais importante é que você se divirta’. Ou ‘Elefantes à luz da lua’.

Este filme (Elephant, de Gus Van Sant, EUA, 2003) pegou-me em cheio. Comecei a pensar no absurdo da caçada sem que se saiba minimamente o que se busca. O alvo estará sempre saindo do foco. Entretanto, se trata de caçada anunciada; e ela se impõe tal como uma compulsão. Daí, o drama de cada dia das ‘balas perdidas’ começou a adquirir outras tramas em minhas idéias.
O universo adolescente tem me ocupado; preocupada e comovida, voltei-me, profissionalmente falando, de novo para ele vinte anos depois (sim, em 84 eu decidira dedicar-me ao ‘adulto’ – hoje, ‘rio do meu coração, e faço o que ele manda’, seriamente). 
Bom, enquanto cinema, o filme é prato farto para qualquer cinéfilo. A presença da câmara é tão palpável quanto a presença dos atores, ou está até mais presente, pois corre atrás deles, quase toca suas nucas, e não os alcança. Dizendo melhor, ela não corre, pelo contrário, vai lentamente, perscruta, examina, reexamina. Os personagens também não param, embora se desloquem num movimento automático, programado, sem espontaneidade. Como no ‘empolgante’ jogo de bola do começo do filme. Na verdade, não há começo. Nem meio, nem fim. E isso, por si só, já diz muito da grandeza do filme. Praticamente não existem ‘toques’ no filme. Quero dizer que nos raros momentos em que uma pele encontra outra – num contato efêmero – simultaneamente emergem os sentimentos de estranheza, repulsa e perplexidade, os quais acompanham toda a história. Carinho, solidariedade ou gentileza, quando surgem, pertencem a uma espécie de coreografia, como num treinamento que automatizou o comportamento. Por exemplo, uma menina surpreende o colega que tenta disfarçar um choro, e o beija levemente no rosto. É só. E sai. Sai porque precisa ir para o indispensável seminário sobre as relações entre homos/heteros, assunto seriíssimo, de utilidade pública, que supera qualquer necessidade individual. Chega a comover a homeopática solidariedade da garota num universo em que não se encontra este sentimento (será por isso a escolha desta cena para o cartaz do filme?). Perdoem-me o trocadilho, mas o fato é que ninguém se toca. Estamos sós, e isso é tão horrível que não queremos falar disso. Este é o clima que Gus van Sant conseguiu sustentar em  Elephant. E com uma belíssima fotografia, uma edição inteligente, um roteiro original. Não me importa mais o que Gus van Sant fez ou fará. Já tem o meu respeito e admiração.
A corrida-procura da câmara arrasta consigo o diretor, e com ele, cada espectador que também começa a perambular pelos corredores insípidos, e inóspitos, da escola, sem saber à procura do quê, ou de quem.
 ‘Elephant’ conta a violenta e triste história do múltiplo assassinato de pessoas numa escola para adolescentes, praticado por dois de seus alunos, até então em nada diferentes dos demais. O crime é bem planejado e melhor executado. Foi um assassinato a tiros, a esmo. O alvo? Todos. Ou, ninguém. O ponto de partida foi o fato ocorrido em Columbine, mas não se trata fazer jornalismo nem levantar alguma bandeira. O diretor quis penetrar no universo escolar dos adolescentes confiando apenas (?) em seus sentidos, sem teorias ou verdades racionalizadas, bem montadas a priori. A partir de um fato real e absurdo, o diretor constrói uma narrativa moderna, original, bonita e correta. Por correta, quero dizer respeitosa. É uma narração impressionantemente precisa. E delicada para com a adolescência. A câmara do diretor está ao lado do espectador o tempo todo, ela incomoda, quase toca nossa pele, tal como quase toca a pele do personagem, ou dos personagens, pois eles estão em qualquer lugar, são todos, são qualquer um... A câmara busca vários pontos de vista do mesmo momento. Isso é muito interessante. É genial, eu penso. E o diretor, obviamente, também fica aqui, à procura, sem conseguir dizer nada, ou dizendo o possível, ou seja, perplexo. Sim, ele é responsável e não se precipita. Mostra, consegue não dar respostas, inclui-se conscientemente entre os que têm medo daquilo que veem. Mas não se faz de cego. Ele aponta o elefante, aqui mesmo na sala, pertinho. Elefante: quase impossível de se ver de muito perto. Pacífico quando respeitado, perigosíssimo quando ignorado.
Que o diretor não saiba o quê dizer e que, portanto, se cale. Que resista à verborréia fácil, frágil e rasa que, hoje, desgraçadamente grassa, faz a diferença em ‘Elephant’. Quase muda, ao som de ‘Moonlight’, a câmara de Van Sant se torna testemunha eloqüente, e também nos obriga a sê-lo. Colados nela, reencontramos a mesma cena sob vários ângulos. E aqui, começamos a ver o ‘elefante’. Os adultos aparecem em partes, literalmente. São seres desfocados num fundo, que dizem meias frases, que repetem ordens automáticas. Que estão embriagados (como na emblemática sequência do começo do filme, quando John assume a direção do carro porque o pai, que o leva à escola, está bêbado) ou se drogam furtivamente. Ao não dar uma resposta, ou seja, ao desistir de inventar uma conclusão que nos dê alguma segurança, este filme surge ousado e digno. Virtudes raras nos dias em que vivemos. Aí, parece-me estar a excelência do filme. Pois, neste caso, sentimo-nos todos implicados, provocados, interrogados. Então, aqui, como testemunha implicada, e não oracular, penso que cabe uma articulação consistente com o psicanalista. É possível. Mas penso que, por mais bela e tentadora síntese racional, intelectual, consistente – como a psicanálise, por exemplo – este filme consegue ir além, ultrapassar a síntese, e como soe acontecer com as obras de arte, exigir que façamos mais... Pois, quando comovidos, não nos quedamos.(continua)

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