segunda-feira, 18 de julho de 2011

PAIS E FILHOS – nossa causa - 2.

Primeiramente ‘Elephant’ atinge o comum estético da arte do cinema ao exibir uma estranha e fragmentada unidade. Há uma magnética busca de unidade, de síntese, uma ansiedade por saber o que se passa – ou se trata de identificação do espectador? São imagens e sons que de maneira errante tentam se organizar. Há a música de Beethoven, há o documentário que tenta contar a história de Hitler, há a internet que informa e dá acesso (sem trocadilhos, desta vez) a possibilidades quase infinitas... Mas nenhuma referência parece ter autoridade ordenadora. Nenhuma organização tem sentido suficiente para ser assimilada, e, portanto, para ser posteriormente, se for o caso, recusada, refeita, transgredida, etc. Neste sentido, a sequência no quarto dos garotos, enquanto um toca Beethoven e outro joga videogame – [aliás, num toque genial de Van Sant, pois o jogo jogado é de seu filme anterior, Gerry, em que se atira em passantes... será um insight? uma confissão de angústia?], a câmara gira 360º graus mostrando todo o entorno daqueles jovens – a televisão, os aparelhos de som, as paredes desenhadas (onde se vê um elefante), as roupas caindo dos armários, um excesso... Excessos. Familiar e desconfortável. É assim que o filme toca, penso eu, na própria angústia de ser, neste aperto absurdo que sentimos quando não se tem palavra pra dizer daquilo que se sente. Mesmo quando aquilo que se sente é pesado e grande como um elefante. Para falar é preciso primeiro se organizar, e para se organizar é preciso primeiro encontrar uma tela na qual se possa, de início, se reconhecer. Só a partir de uma tela inicial, na qual se possa reconhecer-se ou se estranhar, haverá, por fim e afinal, responsabilidade – isto é, haverá desejo. Sim, desejo: expressão da liberdade de quem se livrou de uma ordenação primária. Ou seja, de quem conheceu uma ordenação primária.
Portanto, precisa-se de uma primeira ordenação. E o que Van Sant nos mostra – precisamente – é que não temos uma ordenação admissível. O que se vê, vem de um espelho quebrado. São meias imagens, meias frases, muitos focos, dissonâncias, ruídos. Multiplicam-se as telas. Em qual se reconhecer?
Vejamos novamente: encontramo-nos numa tela de cinema? Ou, quem sabe, numa tela de computador, no jogo de matar em que Van Sant nos remete a ele mesmo, ao citar o seu Gerry? Ou na internet que nos informa que podemos ter tudo o que quisermos, bastando um clique? Chega a domicílio, sem maiores esforços. E a tela da televisão que exibe o documentário em que se repete ‘ad nauseum’ que a propaganda, o marketing, decide tudo?  Ou nas superfícies das fotos – retratos – a que alguns dos adolescentes se dedicam. Procurar pessoas e fotografá-las... Só isso; registrar, fixar pessoas. Há também os celulares. E as telas se dobram infinitamente. E a pauta de Beethoven? Como entra neste cenário? Um dos adolescentes tenta acompanhá-la. Esforça-se até. Mas desiste; sozinho é muito difícil ordenar-se. Manda Beethoven à *#;*,¨*. E telas continuam a se multiplicar, imagens se embaraçam. Tudo se atropela. O que é um tiro? Uma explosão? Uma morte? Alguma promessa de fim?

Então os adolescentes se preparam para matar. Nenhuma emoção, tudo está cuidadosamente preparado, combinado, sob controle. Um lembrete: ‘o importante é que você se divirta’. ‘ Então, vamos morrer hoje... e eu nunca beijei ninguém’. E um momento de carinho... Só um momento.
E tudo continua como pura estranheza. Há um quase insuportável sentimento de tédio sob uma camada rasa de correria, de ocupações inadiáveis: lanches, compras, almoço+vômito, passeios off-roads. É preciso dizer: têm boa escola (hombre!! pois não é que o mocinho é um erudito! ele cita Macbeth...), casa, comida, carro, lazer... Uau. Têm tudo. O que falta? Falta. Não prevista. Não tolerada. Não compreendida. Não admitida. Aí começa o sem sentido... 'sempre me dizem que eu tenho tudo...'.
E tantas outras brutalidades. A brutalidade é permanente, perpassa o filme todo. Tudo é estúpido, sem excitação, sem porquês. A esmo. E nenhuma emoção. A indiferença que reina por todo o filme é fácil de explicar: não existem individualidades. Ou melhor, são simplesmente ignoradas. (continua)

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