terça-feira, 19 de julho de 2011

PAIS E FILHOS – nossa causa - 3



Depois de ver o filme comecei a perguntar a vários adolescentes sobre o mesmo. Cheguei a pedir para que o vissem. Fui professora de Ética para cerca de quatrocentos adolescentes do ensino fundamental e perguntei a muitos, entre 11 e 14 anos. Todos acharam o filme desagradável, péssimo, idiota ou esquisito. E todos (repito: todos) perguntaram por alguma solução, ou seja, pediram algum socorro. Pode-se resumir assim suas falas:
1.  .  ‘Mas ninguém avisou nada... Ninguém fala nada com ninguém’.
2.    ‘Só tem gente esquisita, sem noção... Sem respeito’.
3.    ‘Por que a polícia demorou? Não dá pra entender... Parece que eles podiam fazer tudo’.
4.    ‘Por que ninguém pegou aqueles caras antes? Acho que ninguém tava nem aí... ’
5.    ‘Ninguém explica nada... Um saco. Horrível. Filme tem que ser diferente, divertido, já basta a vida sem noção... ’

E no mais, um silêncio continuado. Um silêncio que provoca a psicanalista. Que diz que a resposta ainda é esta. Ninguém está se comprometendo porque todo mundo está implicado e, para esboçar uma resposta justa, será preciso reconhecer e respeitar – como o diretor tão digna e eloquentemente fez – o ser violento que se pode ser. Gus van Sant procura pelo ser sob a violência, e não a subestima. A resposta não está em encontrar quem deu o primeiro tiro. Está, primeiro, em se reconhecer que estamos todos sob tiroteio e, logo, em dizer quem vai interrompe-lo. Quem vai interromper o processo de autofagia compulsiva generalizada? Ou será que a sociedade organizada e planejada cuidadosamente em função da juventude a qualquer preço – único ícone imaculado da sociedade de consumo – deverá submeter-se às normas que, logicamente, só poderão vir dele mesmo, isto é, do ícone. Ou seja, da juventude. Neste caso, o aterrador ‘uni-du-ni-tê’ do final do filme não é uma caricatura da busca de uma ordenação qualquer. É a simples e incontestável comprovação da falta de uma, falta que nos obriga a inventar uma ordem. Sob pena de se explodir de angústia. Neste caso, convenhamos (e não quero parecer cínica), ‘uni-du-ni-tê’ é uma infantilidade até graciosa.
Alguém tem algum sonho a contar? Ou estão todos à venda, e na liquidação?
Eu tenho sonhos. Inalienáveis. Cinéfilo que se preza não se contém e recomenda. Eu recomendo Elephant. Com urgência. 

2 comentários:

  1. ""Filme tem que ser diferente, divertido, já basta a vida sem noção..."" - Muito interesante...uma pessoa (adolescente, pois não é adulto, nem criança, é o que então?) de 11 anos de idade dizendo que algo precisa ser divertido porque de chato já basta a vida; é muto triste ouvir isso e sonho para que o diálogo entre pais e flhos exista, pois filhos são reflexos dos pais...e repito o clichê: o que estamos fazendo por nossa crianças?- vi, revi, e revi novamente o filme, ainda pasma por ver um filme que poderia ser feito em qualquer colégio de hoje e "ninguém se toca"....

    ResponderExcluir
  2. Pois é... ainda estou tocada e preciso escrever mais sobre este assunto; há algo de podre no reino, e corte deste reino está nos colégios, mas ensistem em ignorar o mau cheiro e enviarem (muitas vezes obrigarem) as crianças a lutarem por um lugar nesta 'corte' cheia de falsas promessas... e nenhum afeto.Grata por seu comentário. Vou lutar por minha indignação.

    ResponderExcluir

NÓS ESTAMOS DE LUTO.

Passo para dizer que estamos ausentes aqui, por ora, porque estamos trabalhando em outros territórios. Estamos de luto, mas estamos tra...