quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ALÔÔÔ : começa amanhã.... salão do livro infanto-juvenil


Tem:
1.Exposições levam arte e palavras ao salão
Uma seleção de obras do escritor Fernando Sabino e do artista plástico Marcelo Xavier serão expostas durante todos os dias do evento
2.Cinema no Salão
A programação do “Cineminha Belas Artes” inclui curtas inéditos no Brasil

 3. Exposição de Bonecos do Grupo Giramundo

4. Exposição Literária Intinerante de Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa

5. Presença de autores, oficinas, concursos e muito, muito mais... 

Saiba mais em:

Antônio Abujamra, Rubem Alves e outras inteligências:

 Antônio Abujamra é uma das pessoas mais interessantes do país. Mantém seu programa na TV “Provocações” há bons tempos. Difícil, às vezes chato, outras hilário, algumas pesado... E sempre inteligente! Abujamra está fora da trilha do gado, e nós gostamos dele por isso. É pra conferir...


Notas sobre Abujamra:

“Depois de aceitar conceder esta entrevista, Antonio Abujamra recusou falar sobre sua vida. Respondeu apenas o necessário. Com ele é assim: quando as coisas dão erradas é um sinal de que elas estão no rumo certo. Não poupou palavrões. Chamou os jornalistas de babacas, rebolou o gravador, disse ter sido a entrevista mais chata de sua vida. Ao final, ergueu os braços e gritou “aleluia!”.”

“Talento multidisciplinar, Antonio Abujamra faz parte da história da inteligência brasileira. Transgressor de fórmulas e formas, este iconoclasta alia seu talento criativo à fecunda experiência de todos os erros. Corajosamente. Sem concessões a um esteticismo convencional, Antonio Abujamra está há mais de 50 anos na trincheira avançada do teatro e da televisão. Permanentemente insatisfeito, fez de contínuo renovar-se a pedra filosofal de sua vida”. Por Fernando Martins, amigo de Provocações

“Esteticamente, o fracasso é mais interessante que o sucesso. Sou um homem de fracassos”. Abujamra (Veja, 1989)

Olá Magda, tudo bem?
Vi esta entrevista e achei muito interessante e lembrei-me de vc. São questões muito relevantes e com pessoas que sabem o que falam. E com Rubem Alves que tem me feito pensar e me levado a querer cada vez mais!!!

www.tvcultura.com.br/provocacoes/programas/1562

Beijos
Zélia.

Décimo quinto sonho


Aos nove anos eu vestia um vestido de fustão amarelo, hoje, quem sabe o que é isso? Eu. Eu sei, é um tecido delicioso, macio, cheio de buraquinhos fofinhos, e faz a gente parecer confortável, bonita... E eu estava querendo isso pra mim, e a única garantia era aquele vestido amarelo que me protegia de um mundo lá fora, em cinza e gritos, e desaforos, ignorância e indiferença, e eu me escondia naqueles buraquinhos do meu vestido bonito, lá dentro tudo era macio e profundo, e.... Naquela tarde igual a todas as outras eu estava naquele buraquinho me escondendo e sendo feliz, e então eu o vi descendo lentamente o morro, aquela figura meio desfocada, não sabia se gente se bicho, mas era uma figura com certeza feliz, leve, que descia o morro quase sem pisar o chão e vinha vindo vindo vindo, e então eu o vi melhor e era um rapaz bonito, de cabelos lisos, muito lisos, muito louro, bem louro, de braços longos e finos, e pernas mais longas e mais finas, e que de repente parou bem diante de mim, olhando bem dentro do meu esconderijo amarelo, e sorriu bonito e sem som, e pousou a mão fina e leve sobre aqueles buraquinhos amarelos, e continuou sorrindo e então eu vi que os olhos dele eram azuis e fiquei besta, é, sim, sim, fiquei besta, pois nunca tinha visto ninguém de olhos azuis, só em sonhos, e também me lembrei que pessoas louras só em sonhos, e aquela pessoa estava ali, bem perto, dentro do meu abrigo, e não havia nenhum desaforo,  tudo era conforto e sossego. Tive coragem, perguntei quem é você, ele respondeu sem prestar atenção, sou o trapezista do circo, e nunca vi você lá, e eu disse eu sempre vivi no circo, mas só sonhava trapézio, ele respondeu venha então para o trapézio comigo e eu fui... Foram tantas luas quantos os buraquinhos do fustão do meu vestido amarelo; tantas luas que atravessamos juntos a galáxia. Foi assim que eu conheci o Pedro, o trapezista, o viajante, aquele Pedro que um dia eu contei pra você que ele gostava das mulheres.
Magda Maria Campos Pinto

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Agradecimento:



p.s: Obrigada, Amel.

Drummond pra mim:


Clarice, amor, e delicadeza. Aprendendo a ler:

 TENTAÇÃO

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnava na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona , arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumando, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento,surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundo, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhos para trás.

In Felicidade Clandestina, Clarice Lispector, Nova fronteira, RJ, 1981.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Gostamos de pensar e conversar:

(...) “Desde que ele usou essa fatídica expressão, eu fiquei pensando, mesmo contra a minha vontade, sobre o que seria alguém especial, e ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Provavelmente porque ela não existe.
Você certamente já passou pela sensação engraçada de ouvir um amigo explicando, incansavelmente, por que aquela garota por quem ele está apaixonado é a mulher mais linda e mais encantadora do mundo – sem que você perceba, nela, nada de especial. OK, a garota é bonitinha. OK, o sotaque dela é charmoso. Mas, quem ouvisse ele falando, acharia que está namorando a irmã gêmea da Mila Kunis. Para ele ela é única e quase sobrenatural, e isso basta.
Disso se deduz, eu acho, que a pessoa especial é aquela que nos faz sentir especial.
Tenho uma amiga que anda apaixonada por um sujeito que eu, com a melhor boa vontade, só consigo achar um coxinha. Mas o tal rapaz, que parece que nasceu no cartório, faz com que ela se sinta a mulher mais sensual e mais arrebatada do planeta. É uma química aparentemente inexplicável entre um furacão e um copo de água mineral sem gás, mas que parece funcionar maravilhosamente. Ela, linda e selvagem como um puma da montanha, escolheu o cara que toma banho engravatado, entre tantos outros que se ofereciam, por que ele a faz sentir-se de um modo que ninguém mais faz. E isso “basta.” (...)

IVAN MARTINS (editor chefe da Revista Época)
Você pode ler o artigo completo em:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI259919-15230,00-ALGUEM+ESPECIAL.html

Curso Manipulação de Bonecos: educação e arte

Como já convidamos antes, aproveitando a onda do festival de circo na cidade, aproveitando a delícia de trabalhar com gente legal, vamos lá...



O atelie ACORDEOURO,

Tem o prazer de convidá-los para o curso de dramaturgia e encenação de bonecos.
As inscrições estão abertas e podem ser previamente confirmada via este e-mail (http://mail.uol.com.br/compose?to=atelieacordeouro@gmail.com), ou então pelos tel(s)41016161 em horário comercial.O curso tem um investimento de 4 parcelas de 150,00 reais mai 1taxa de material de 25,00.Para uma inscrição prévia virtual,serão necessárias as seguintes informações:
1- Nome completo.
2-Endereço residencial.
3-Identidade.
4-Nível de escolaridade.
5-Uma pequena apresentação por escrito justificando o interesse por esta linguagem específica.

O atelie ACORDEOURO fica na rua Montes Claros 378/interfone,Anchieta ou Carmo Sion.(Próximo a Igreja do Carmo e Rua Grão Mogol).

De boneco a personagem: dramaturgia e encenação
Corre a fama de um certo escultor que, ao ver pronta sua escultura de feições humanas perfeitas, disse a ela: “Fala!”. Ninguém atesta ao certo se a tal escultura respondeu ao escultor, ou se foi apenas o eco... Ou ainda, se, oculto por detrás da escultura, havia um ator todo vestido de preto, que fez o homem de mármore acenar levemente com a cabeça, como quem diz “não”...

Sobre a oficina: oficina de iniciação ao teatro de bonecos. Serão utilizados exclusivamente bonecos de luva, previamente construídos, disponibilizados pelo ateliê durante o período do curso, ou trazidos pelo próprio aluno. Serão trabalhadas: técnicas básicas de manipulação dos bonecos de luva; dramaturgia e encenação de um roteiro, construído pelos alunos no decorrer da oficina.

5as-feiras, das 19h30 às 22h:
setembro a novembro;
sábado 26/11, domingo 27/11: 16 às 21h.

Os participantes receberão certificados com a carga horária do curso (40 horas)
Turma com mínimo de 4, máximo de 10 alunos.

domingo, 28 de agosto de 2011

FESTIVAL MUNDIAL DE CIRCO: Belo Horizonte



Foi assim: de repente, eu estava lá, no Festival Mundial do Circo, boquiaberta diante dos aramistas franceses do espetáculo ‘Les fil sous la neige’, mostrando que a vida é um fio, um fio lindo, delicado, possante. Até 04 de setembro, BH estará mais feliz porque recebe o circo. Eu estou mais feliz, e de agora em diante vou contar minha vida no circo. Obrigada, Amel. Valeu! Não percam!

sábado, 27 de agosto de 2011

GOETHE, meu mestre:

“Foi assim que comecei a seguir essa direção de que nunca mais pude afastar-me: transformar em quadros, em poemas, todos os motivos de minhas alegrias, dores, preocupações e estabelecer a ordem dentro de mim mesmo, seja a fim de retificar minhas idéias sobre os objetos exteriores, seja para fazer meu espírito voltar ao repouso no tocante a essas coisas. Esse dom me era mais necessário do que a ninguém, uma vez que por natureza eu era incessantemente arremessado de um extremo a outro. Assim, pois, tudo que tenho publicado são apenas fragmentos de uma grande confissão, estas memórias não representam mais que uma venturosa tentativa de completá-la.”

In Goethe, Memórias: Poesia e Verdade, Editora Universidade de Brasília, 1986.

"Sinta fome e deixe de ser esperto"


"Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo, expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que vc tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração."
( Steve Jobs - Ex CEO da Apple)
p.s: para pensarmos, e conversamos...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Pensamento do dia 21:


"Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente, de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... E morrem como se nunca tivessem vivido."
Dalai Lama.


ps: obrigada, Camila.

Juventude e educação:


A juventude e o descontentamento

Cultura e Juventude 23 de agosto de 2011 às 17:08h

Por Fernando Vicário*

Tradução: Daniella Castanheira

(...) Talvez, o grande erro cometido hoje em dia nas abordagens sobre o futuro, seja o de não levar em conta a presença destes movimentos, de não escutar seus gritos, de manter uma visão superficial ao invés de se colocar na pele do outro, algo imprescindível para saber fazer política. As reformas educativas continuam sendo pensadas e tratadas com a mesma mentalidade do século XX, ficando para segundo plano em todos os governos. Já as políticas culturais, não conseguiram nem mesmo sair do XIX e são deixadas ainda mais de lado em todos os países, seja na America Latina, na Europa ou no mundo Árabe. Os líderes falam de assuntos que não chegam a ser colocados em prática – e isso todos já sabemos– o importante é ter a consciência de que está em jogo um novo modelo a ser construído, mas parece que as pessoas não entendem que as peças que estão em cima da mesa agora, não são as mesmas de antes. Não valem as mesmas regras, pois este é um novo jogo. Não vale continuar falando da juventude sem escutá-la. Continuar falando da cultura, restringindo-a a museus e bibliotecas. Não vale. Porque depois, quando as nossas casas forem queimadas, as nossas lojas destruídas, os nossos bairros invadidos e a nossa confortável existência perturbada, perguntaremos: “Mas eles não tinham tudo? O que aconteceu?”.

Não, eles não têm tudo, nós nos encarregamos de destruir o que existia, os deixamos sem chão, destruímos o meio ambiente, menosprezamos a educação, pervertemos as instituições, banalizamos a mídia e corrompemos a política. A criatividade é o que lhes resta, a cultura como espaço de criação de sentido, mas parece que não queremos, ainda assim, colocar os nossos recursos à sua disposição… Depois, não podemos nos queixar. (...)

*Fernando Vicário – É Diretor da Empresa Consultores Culturais (Espanha), presta serviços para diversas instituições internacionais Ibero-americanas e para projetos de Cultura e Educação em países da América Latina e Europa.


Você pode ler o artigo completo em:


http://www.cartacapital.com.br/politica/a-juventude-o-descontentamento-e-a-cultura  

ps: Belo trabalho, Dani. Estamos juntos nesta rota. Bjs.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Árvore da vida: Freud e Proust (fazer o quê se continuam querendo conversa?)

 

A árvore da vida é um filme longo. Existe uma boa medida, um tempo certo para cada coisa. Para o cinema, um filme excelente não deve passar de duas horas. Temos nosso limite orgânico, nosso relógio biológico, e tudo só fica bom na medida certa. A árvore da vida tem uma temporalidade toda especial, o movimento é bem lento, os planos são excepcionais [ inesperados e lindos ], podemos examinar um braço, mão, pés de uma criança bem de perto, passear pelo céu, subir numa árvore, ver a mesma curva do rio uma dezena de vezes, experimentar o silêncio de uma casa vazia, de uma rua sem trânsito. Tudo isso é excepcionalmente lindo, com a característica de se repetir lentamente, o quê, pra mim, parece ser uma decisão consciente do diretor Terrence Malick. Acontece que a duração do filme (boa parte em imagens que lembram fotografias do mega telescópio Hubble, jogando-nos num abismo de cores, em formas que não se definem, ou que se definem vagarosamente, tentativa de nos mostrar o começo dos tempos, de maneira bem poética), a maneira lenta e repetitiva das cenas associada a uma montagem incomum, marcando uma espécie de processo onírico, aborreceu a muita gente. Mais que aborreceu, incomodou. O fato é que todos nós estamos conectados em velocidade máxima, em imediatismos e conclusões rápidas (vamos! A fila tem que andar...), em muita ação e nenhuma contemplação. E nestas circunstâncias, A árvore da vida não se encaixa definitavemtne. De jeito nenhum. Temos ouvido que o filme é chato, é mal costurado, não tem pé nem cabeça, é, enfim, um porre. Não penso assim, muito pelo contrário. Concordo que seja um filme incomum, que assume premissas novas e intenções diversas das que estamos acostumados. Vejo um filme muito bem feito do ponto de vista técnico, uma história interessante sobre uma família americana suburbana, idealizada (como foram), da década de cinqüenta, de onde se destaca o filho mais velho, em seu temperamento curioso, reflexivo e questionador. Tudo isso sem violência, droga e rock n’roll (que eu gosto muito aliás, me refiro especificamente ao último). Vejo o grupo familiar bem situado no tempo pós-guerra, constituído em torno da crença no milagre americano do sucesso pelo trabalho e eficiência, e na ética cristã. É este grupo que atravessa a segunda metade do século vinte, e é sobre este tempo que se foca a intenção do diretor. Acho que todo o filme é constituído por um insight do angustiado filho mais velho, agora com seus mais de cinqüenta anos, vivendo numa casa linda e vazia, esteticamente contemporânea; trabalhando mecanicamente na reconstrução das torres gêmeas, e que se paralisa ao acender uma pequena vela azul. Esta vela azul desata sua memória, e reaparecerá no final do filme.  A mim parece que tudo que veremos é o quê aquela mente triste, perplexa, experimenta buscando descobrir onde e o quê se perdeu, se é que se perdeu... Daí, o clima basicamente onírico de todo o filme. Sim, trata-se de uma tentativa de dar um sentido, através da rememorização. Neste ponto, não pude deixar de encontrar uma conexão com Em busca do tempo perdido. Sim, com Proust, na forma e na intenção, e na va-ga-ro-si-da-de. Quem, nos nossos dias, poderá dizer: sim, eu li Proust, inteirinho, me perdi e me encontrei naquele esforço absurdo de encontrar o fio da meada? Pois é. Questão de tempo. Do tempo. Dos tempos. Gostei também da cor psicanalítica dada pelo diretor às relações familiares. Freud gostaria de vê-lo. Neste  momento, não me recordo  de já ter visto tamanha  fidelidade a Freud no cinema. O pai quer ser pai, gosta de ser, toma isso de peito aberto; não se furta ao peso da tarefa, e não deixa de ser amoroso, de se desculpar, de se angustiar, de errar. Mas toma pra si a função. Não é fácil.  A mãe é figura de livro: amorosa, linda, suave. Perfeita pra ser amada, a mãe dos sonhos de qualquer pirralho. Os filhos - saudáveis que são -, são impossíveis em sua curiosidade, teimosia; quase indomáveis. Creio eu que esta é outra face, passível de identificação (que se dá também na estranheza) que incomodou a muita gente. Então, trata-se desta família que perde um filho/irmão para a guerra; que vê seus melhores sonhos e mais profundas crenças desmoronarem, tal como as torres de Manhattan. É o filho que agora se pergunta: por quê? E resta apenas a resposta encontrada: a entrega, a renúncia, a aceitação. Se preferirem, noutras palavras, a castração. Sim, não encontro pieguice religiosa ali, como querem alguns. O fato é que os mais apressados sempre tomam uma forma– no sentido de veículo – pelo conceito propriamente dito (assim, como a parte pelo todo, sem rebaixamento da forma, que é também fundamental). Preferia que Malick tivesse ousado mais ainda e tivesse feito toda a cena final em cores bem vermelhas, ou qualquer cor bem quente. Lamentei que ele tenha escolhido o pastel, o branco; criou uma lamentável associação (pelo menos para nós, brasileiros) com a estética do espiritismo que anda na moda por aqui. E digo lamentável porque tal associação não procede, o final é nada mais nada menos que um insight, do ponto de vista psicanalítico. A meu ver, é claro. Insight é coisa particularíssima. E há quem deteste. Eu respeito, e repito que adorei A árvore da vida.

Magda Maria Campos Pinto

DE DRUMMOND PARA SOFIA, por Gisella

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
(Carlos Drummond de Andrade )
ps: Sofia, quase um ano... já um ano, somente um ano! Que mais pode haver além deste sorriso? Viva Sofia!!

Preparando a Primavera:

Setembro é mês da saudade de Wolf, de Pablo Neruda, dos amigos e da primavera. Exige concentração.

Repertorio

Yo te buscaré a quién amar
Antes de que no seas niño:
Después te toca abrir tu caja
E comerte tus sufrimientos.


Yo tengo reinas encerradas,
Como abejas, en mi dominio,
Y tú verás una por una
Cómo ellas se peinan la miel
Para vestirse de manzanas,
Para trepar a los cerezos,
Par palpitar en el humo.


Te guardo estas novias salvajes
Que tejerán la primavera
Y que no conocen el llanto.
En el reloj del campanario
Escóndete mientras desfilan
Las encendidas de amaranto,
Las últimas niñas de nieve,
Las perdidas, las victoriosas,
Las coronadas de amarillo,
Las infinitamente oscuras,
Y unas, pausadamente tiernas,
Harán su baile trasparente
Mientras otras ardiendo,
Fugaces como meteoros.

Dime cuál quieres aún ahora,
Más tarde ya sería tarde.

Hoy crees todo lo que te cuento.
Mañana negarás la luz.
Yo soy el que fabrica sueños
Y en mi casa de pluma e piedra
Con un cuchillo y un reloj
Corto las nubes y las olas,
Con todos estos elementos
Ordeno mi caligrafía
Y hago crecer seres sin rumbo
que aún no podían nacer.

Lo que yo quiero es que te quieran,
Y que no conozcas la muerte.

In Estravagario, Pablo Neruda


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Convite Legal

Queridos amigos.
No dia 27 de agosto, eu entrarei no terceiro ano de meu 4 setênio de vida. Entendeu? Então, digamos que serei, a partir de então, balzaquiana.
Em outras palavras, serão minhas 2 x 15 primaveras!
"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. [...] Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer." (BALZAC. Mulher de trinta anos.)
Chiquérrimo, não? Eu sou assim agora, quer dizer daqui a uns dias... rsrs.
Então vamos comemorar, uai:
Um caldinho quentinho e outras comidinhas e bebidinhas, picante salsa de 30 anos (será?), performances, histórias, e o que mais a presença de vocês me trouxer de presente.

Rua Lunardi, 212 - Caiçara
lá pras 20h
sábado, dia 27
festa de garagem e quintal (esta inf. é para vcs dispensarem o smoking)
84667022 e 32677022

Me avisem dizendo que vêm pra eu já ir ficando feliz e botar a água no feijão.

Muitos beijos, e até sábado.
Cristina.

 
ps. Parabéns, Cristina!! Saudades!, e vai aí nosso quintal, pra matar saudades, e ter ainda mais vontade de comemorar com você!! 

Primeira sugestão:

Bom dia Magda,


Vai ai uma sugestão. Poderíamos dedicar o dia 31 de todos os meses a Carlos Drumonnd.
Pediríamos a colaboração dos amigos do clube com texto, fotos, homenagens, entrevistas etc.
Poderíamos marcar uma viagem de Van para Itabira no dia 29 de outubro/2011 para comemorarmos Drummond.
Poderíamos ler os poemas cada dia 31 na casa de um amigo do Quase-Ser-Tão.
O que você acha?
O anexo é um presente meu e da natureza para vocês.
Um abraço saudoso. Amo vocês.

Rosane


PS 1. Obrigada, Rosane. Adorei tudo; seria mesmo muito legal irmos à casa de um e outro, com Drummond debaixo do braço, para degusta-lo. Eu topo, vamos aguardar as lapidações que certamente virão dos demais amigos.
PS2. Uau!! Quem ainda não viu os ipês que pipocam pela cidade pode começar a ver pelo presente da Rosane... eu acho que este aí, rosa, está, entre outros muitos, lá no campus da UFMG... acertei?

Décimo quarto sonho:

 
Naquele dia, naquela noite, àquele instante, eu estava triste. A certeza de que o tempo passa não me consolava, e tudo era risco de nada; antes pelo contrário, a passagem do tempo me confirmava as mais tristes intuições. Eu não tinha voz, nem gesto. O sono era graça negada, companhia uma mentira, compreensão triste quimera, sina desatino. A sorte de ser quem nunca foi, quem é todo equívoco, quem não tem forma. A história de ser sem tempo: pois o tempo que passa não leva consigo a fingida ordem. Naquela hora, resignada, rendi-me à impotência e me obriguei a dormir. E tudo era tristeza, então sonhei. Ele estava sentado diante de mim, cheio de ira e tremor, dizendo que ia matar aquele que fizera companhia a ela; aquele a quem eu tentava proteger dizendo que não se sentisse assim, pois tudo era apenas equívoco, e ele , o outro, somente se sentara ao lado dela para que ela não se sentisse só.
Ele não me ouvia, insistia em sua ira descontrolada; e eu pensava que tudo estava errado, pois ela estava casada com o terceiro e não estava certo que ele, o primeiro, se sentisse assim tão irado, como se tivesse sido traído, e mais ainda, sabendo que eu garantia que ele, o segundo, apenas fizera companhia pra ela. Exausta, senti-me subitamente distante.  Melhor, senti-me dobrada em mim, cercada por imensas barreiras transparentes, de material que eu não conseguia distinguir, mas que me isolavam totalmente de qualquer sentir. Fui só entranhas. E sem dor, sangrei. E era um rio brando, constante, fluido, perene, silente, vermelho, eterno... Alguém disse ‘mulher’, eu disse ‘eu’, e voltando o sentir, quis chorar. O choro derrubou as barreiras, ele se levantou e saiu, eu respirei aliviada pensando ‘tudo é falso e frio, mas são quentes as minhas lágrimas’.

 Magda Maria Campos Pinto