sábado, 20 de agosto de 2011

Á arvore da vida III - A resposta de Escorel

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-cinematograficas/geral/a-arvore-da-vida-reacao-de-quem-le


Ter escrito que A Árvore da Vida é uma xaropada pretensiosa – o que realmente acredito ser o caso, embora meu amigo Nilton ache que não – teve a vantagem de provocar manifestações variadas e divergentes de leitoras e leitores. Em mais de 200 posts publicados desde dezembro de 2009, foi a primeira vez que recebi tantos e-mails, alguns de amigos, outros de alunas e também de pessoas que não conheço.
O primeiro a escrever, logo depois do post ter sido publicado sexta-feira passada, foi André Schaer, lembrando que Glória Feita de Sangue, ou seria Cruz de Ferro, ele pergunta, começa com epígrafe de Samuel Johnson (“O patriotismo é o último reduto de um canalha”). Para Schaer isso provaria que há exceções à regra segundo a qual o espectador deve se retirar da sala sempre que um filme começar com epígrafe.
Não conferi se Stanley Kubrick, em Glória Feita de Sangue (1957), ou Sam Peckinpah, em A Cruz de Ferro (1977), recorreram, de fato, a Samuel Johnson, mas concordo que há exceções à regra. Há alguns anos, eu mesmo recorri a epígrafes na abertura de alguns documentários! Digo isso antes que alguma alma malévola me acuse de incoerência. Admito a falha, renego o que fiz e asseguro não pretender apelar de novo para essa muleta quebrada. Apesar da tese de que “há exceções”, Shaer conclui dizendo que “de qualquer modo, você me convenceu. Não assistirei A Árvore da Vida. Xarope é bom para crianças.” Mesmo estando de acordo e, por um lado, feliz com a adesão ao grupo dos que se recusam a ver filmes que começam com esse recurso subcinematográfico, fico preocupado que alguém siga o dogma tão ao pé da letra.
Armando Freitas Filho foi o próximo a escrever, dizendo concordar “em gênero, número e grau com a sua [minha] apreciação sobre ‘A árvore da vida’”.
Ainda na sexta-feira à noite começaram a chegar discordâncias. Jacqueline Farid achou “o filme fenomenal. Gostei demais da maneira como subverteu as técnicas de roteiro hollywoodianas para criar algo muito próprio, que me emocionou demais e mexeu comigo, inclusive, fisicamente. Considerei uma experiência cinematográfica positivamente única e inesquecível. […] Enfim..., nesse caso eu também aplaudo o filme de pé.”
Por casualidade, reli há dias a crítica de Jean-Luc Godard a respeito de Orfeu Negro, dirigido por Marcel Camus. Publicada no nº 97 da revista Cahiers du Cinéma, em 1959, lá está algo que se aplica, com as devidas transposições, a A Árvore da Vida: “[…] o que seria da poesia sem poeta? Seria Orfeu Negro […]”, responde Godard. O filme para ele “[…] é sobretudo uma sequência de imagens barrocas e suntuosas. Um documento sobre a beleza, em suma! Como Zazie, eu digo, com polidez, ‘de jeito nenhum’ se me dizem que as imagens […] são bonitas. Elas não tem sequer a desculpa de serem intencionalmente cartões postais […].” O que chocou Godard em Orfeu foi a falta de um poeta.
No caso de Terence Malick, o problema me parece mais grave. O que ele pretende é fazer filosofia sem filósofo. Com isso A Árvore da Vida – que Jacqueline e os admiradores do filme me perdoem dizer – não passa de filosofia barata e cinema ornamental.
Espectadores guardam algo infantil de que tem dificuldade de se livrar – o prazer em se deixar iludir. Esse é o segredo do sucesso da linguagem que se consolidou a partir do final da década de 1920.
O fato de Terence Malick ter estudado filosofia em Harvard, traduzido Heidegger, e ensinado filosofia no MIT não parece ter servido bem à sua carreira de cineasta. Voltando a citar Paulo Emílio, ao qual me referi há alguns meses no comentário sobre Vincere, de Marco Bellocchio, publicado na piauí, lembraria que “o fenômeno global da pouca inteligência na criação cinematográfica durante tantas décadas era a expressão da desnecessidade e não da mediocridade. Não influiu na qualidade artística dos filmes.” Ou seja, Terence Malick sofreria do mesmo mal que os jovens cineastas franceses surgidos no final da década de 1950 – excesso de inteligência.
Meu colega Renato Terra (codiretor de Uma Noite em 67) foi ver A Árvore da Vida torcendo para discordar de mim, conforme escreveu. Começou “maravilhado com os enquadramentos, os planos e a montagem. Entusiasmado com a maneira como Malick filmava as crianças, com a câmera passeando curiosa descobrindo as pequenas coisas. A maneira como ele passava emoções sem recorrer a palavras, numa montagem sensível que nos convidava a completar as cenas. Isso me deixou com os olhos arregalados nos primeiros minutos”.
O que Renato descreve são os minutos de encantamento em que se deixou levar como uma criança a quem um adulto pega pela mão. Mas logo “começou a desconfiar da trilha excessivamente imponente e das frases soltas que pareciam saídas de um livro do Lair Ribeiro. Lembrei do texto que li na piauí deste mês sobre o cassino em Macau que simula a cidade de Veneza. O cenário construído é mais limpo, mais organizado e mais funcional que a cidade italiana. Mas é asséptico demais. Não tem alma.”
Essa foi a impressão final de Renato: “Um filme lindo, super bem filmado, montado. Mas sem alma. O que é inadmissível para um enredo que pretende dar a dimensão da vida humana no universo,” ele completa. Não seria capaz de comentar o filme com mais propriedade do que Renato Terra.
Como escreveu Magda Campos, “há que se respeitar gosto e desgosto. Há que se respeitar quem prefira xarope desprentensioso, tipo Crespúsculo, né? Enfim, respeito vai, respeito vem, já assisti cinco mil e quatrotrocentos filmes, e em tempos de mediocrização geral, gostaria de dizer que ‘pretensão’ é uma virtude, e coragem também... fazer metafísica, ou pretender fazer, em tempos de fast-tudo, é por si mesmo, uma virtude. Quanto à recomendação pra fugir das obras com epílogos [sic]... oh, cara, pensa um pouquinho, seja um tiquinho humilde, homem de Deus!!.... ou você é tão genial que não sofre de ‘influências’??”
Com todo respeito por quem gosta de xarope pretensioso, discordo de quem acredita que pretensão seja por si só “uma virtude, e coragem também…em tempos de mediocrização geral”. Agradeço, porém, o conselho da Magda que coincide com o tantas vezes repetido por minha mãe nonagenária, e prometo procurar ser ao menos “um tiquinho” mais humilde do que de hábito.
 
  PS: VIVA O CINEMA!

Um comentário:

  1. Se tem noventa anos que a mãe dele diz para ele ser mais humilde e ele não ouviu até hoje (pois continua com o papinho de xarope pretensioso)... Freud explica!

    Agora gostei do comentário de Renato Terra, fazer crítica com classe é outra história.

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