quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Árvore da vida: Freud e Proust (fazer o quê se continuam querendo conversa?)

 

A árvore da vida é um filme longo. Existe uma boa medida, um tempo certo para cada coisa. Para o cinema, um filme excelente não deve passar de duas horas. Temos nosso limite orgânico, nosso relógio biológico, e tudo só fica bom na medida certa. A árvore da vida tem uma temporalidade toda especial, o movimento é bem lento, os planos são excepcionais [ inesperados e lindos ], podemos examinar um braço, mão, pés de uma criança bem de perto, passear pelo céu, subir numa árvore, ver a mesma curva do rio uma dezena de vezes, experimentar o silêncio de uma casa vazia, de uma rua sem trânsito. Tudo isso é excepcionalmente lindo, com a característica de se repetir lentamente, o quê, pra mim, parece ser uma decisão consciente do diretor Terrence Malick. Acontece que a duração do filme (boa parte em imagens que lembram fotografias do mega telescópio Hubble, jogando-nos num abismo de cores, em formas que não se definem, ou que se definem vagarosamente, tentativa de nos mostrar o começo dos tempos, de maneira bem poética), a maneira lenta e repetitiva das cenas associada a uma montagem incomum, marcando uma espécie de processo onírico, aborreceu a muita gente. Mais que aborreceu, incomodou. O fato é que todos nós estamos conectados em velocidade máxima, em imediatismos e conclusões rápidas (vamos! A fila tem que andar...), em muita ação e nenhuma contemplação. E nestas circunstâncias, A árvore da vida não se encaixa definitavemtne. De jeito nenhum. Temos ouvido que o filme é chato, é mal costurado, não tem pé nem cabeça, é, enfim, um porre. Não penso assim, muito pelo contrário. Concordo que seja um filme incomum, que assume premissas novas e intenções diversas das que estamos acostumados. Vejo um filme muito bem feito do ponto de vista técnico, uma história interessante sobre uma família americana suburbana, idealizada (como foram), da década de cinqüenta, de onde se destaca o filho mais velho, em seu temperamento curioso, reflexivo e questionador. Tudo isso sem violência, droga e rock n’roll (que eu gosto muito aliás, me refiro especificamente ao último). Vejo o grupo familiar bem situado no tempo pós-guerra, constituído em torno da crença no milagre americano do sucesso pelo trabalho e eficiência, e na ética cristã. É este grupo que atravessa a segunda metade do século vinte, e é sobre este tempo que se foca a intenção do diretor. Acho que todo o filme é constituído por um insight do angustiado filho mais velho, agora com seus mais de cinqüenta anos, vivendo numa casa linda e vazia, esteticamente contemporânea; trabalhando mecanicamente na reconstrução das torres gêmeas, e que se paralisa ao acender uma pequena vela azul. Esta vela azul desata sua memória, e reaparecerá no final do filme.  A mim parece que tudo que veremos é o quê aquela mente triste, perplexa, experimenta buscando descobrir onde e o quê se perdeu, se é que se perdeu... Daí, o clima basicamente onírico de todo o filme. Sim, trata-se de uma tentativa de dar um sentido, através da rememorização. Neste ponto, não pude deixar de encontrar uma conexão com Em busca do tempo perdido. Sim, com Proust, na forma e na intenção, e na va-ga-ro-si-da-de. Quem, nos nossos dias, poderá dizer: sim, eu li Proust, inteirinho, me perdi e me encontrei naquele esforço absurdo de encontrar o fio da meada? Pois é. Questão de tempo. Do tempo. Dos tempos. Gostei também da cor psicanalítica dada pelo diretor às relações familiares. Freud gostaria de vê-lo. Neste  momento, não me recordo  de já ter visto tamanha  fidelidade a Freud no cinema. O pai quer ser pai, gosta de ser, toma isso de peito aberto; não se furta ao peso da tarefa, e não deixa de ser amoroso, de se desculpar, de se angustiar, de errar. Mas toma pra si a função. Não é fácil.  A mãe é figura de livro: amorosa, linda, suave. Perfeita pra ser amada, a mãe dos sonhos de qualquer pirralho. Os filhos - saudáveis que são -, são impossíveis em sua curiosidade, teimosia; quase indomáveis. Creio eu que esta é outra face, passível de identificação (que se dá também na estranheza) que incomodou a muita gente. Então, trata-se desta família que perde um filho/irmão para a guerra; que vê seus melhores sonhos e mais profundas crenças desmoronarem, tal como as torres de Manhattan. É o filho que agora se pergunta: por quê? E resta apenas a resposta encontrada: a entrega, a renúncia, a aceitação. Se preferirem, noutras palavras, a castração. Sim, não encontro pieguice religiosa ali, como querem alguns. O fato é que os mais apressados sempre tomam uma forma– no sentido de veículo – pelo conceito propriamente dito (assim, como a parte pelo todo, sem rebaixamento da forma, que é também fundamental). Preferia que Malick tivesse ousado mais ainda e tivesse feito toda a cena final em cores bem vermelhas, ou qualquer cor bem quente. Lamentei que ele tenha escolhido o pastel, o branco; criou uma lamentável associação (pelo menos para nós, brasileiros) com a estética do espiritismo que anda na moda por aqui. E digo lamentável porque tal associação não procede, o final é nada mais nada menos que um insight, do ponto de vista psicanalítico. A meu ver, é claro. Insight é coisa particularíssima. E há quem deteste. Eu respeito, e repito que adorei A árvore da vida.

Magda Maria Campos Pinto

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