terça-feira, 16 de agosto de 2011

Décimo primeiro sonho

  Vivia dentro daquele quarto pequeno, cama, cadeira e janela. Deitava-me ali todas as horas de todas as tardes, e me imobilizava tentando controlar a vida que se me impunha em meio àquelas pessoas estranhas, grosseiras, nervosas, sem tempo, sem sorriso. Sem olhos. Imobilizava-me até não sentir mais o corpo, e tornar-me só idéias. Às vezes antes que me livrasse do corpo e das memórias; do corpo e de suas dores; do corpo e seu medo, eu entrava estado de torpor e então, sentia-me abandonar a memória, as dores, e medo e então, voava pelo quarto, tocava o teto,esbarrava na janela, via-me lá do alto estirada sobre a cama exígua, imóvel,olhos fechados, pálida, triste. Outras vezes, depois de algum tempo, a idéia nova, a mais pura imaginação, dominava tudo e a transformação seguia, sem esforço, sem dor... E logo nasciam um, dois, três... cem universos. A cada tarde, um mundo novo. O quarto se estendia, se povoava, abria-se em janela ampla, da qual desciam flores como cortinas, o vento doce dançava valsa vienense  com as cortinas. Um sabiá sempre vinha e cantava forte, movimentando o mundo. Em algumas tardes, conversávamos longamente, o sabiá e eu. Então, eu ficava sabendo surpreendentes histórias das nuvens, das árvores, das matas. Descobria a tristeza dos rouxinóis e a alegria pueril dos canários. O sabiá da minha janela era um tanto temperamental, tinhas suas preferências gratuitas, gostava dos rouxinóis, das

 corujas e dos gaviões. Não se dava com os bem-te-vis nem com os pardais. Eu achava engraçado e quando ele se despedia, eu saia da sacada, descia as escadas e me debruçava sobre a janela do primeiro andar de onde assistia do belo desfile das boas pessoas. Passava o Tonico doido, carregando sua pedra de estimação, repetindo sempre que ela era o mais belo cristal e que por isso devia se comportar elegantemente e se fazer respeitar. Logo depois passava a Dona Maricas carregando flores, todas as flores- rosas, hortênsias, gladíolos, cravos e dálias -  resmungando contra as crianças que haviam invadido seus jardins e machucado suas flores, com quem ela se desculpava jurando que não mais aconteceria aquela barbaridade. O perfume que a envolvia me embriagava e um novo universo feito somente de aromas tomava minha tarde. E eu via o homem em sua carruagem branca e apressada, os meninos do circo que passeavam na bicicleta de uma roda só, as bailarinas que dançavam na corda bamba, até que a noite vinha, e eu me mudava para a

 estrela mais azul.

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