quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Décimo quarto sonho:

 
Naquele dia, naquela noite, àquele instante, eu estava triste. A certeza de que o tempo passa não me consolava, e tudo era risco de nada; antes pelo contrário, a passagem do tempo me confirmava as mais tristes intuições. Eu não tinha voz, nem gesto. O sono era graça negada, companhia uma mentira, compreensão triste quimera, sina desatino. A sorte de ser quem nunca foi, quem é todo equívoco, quem não tem forma. A história de ser sem tempo: pois o tempo que passa não leva consigo a fingida ordem. Naquela hora, resignada, rendi-me à impotência e me obriguei a dormir. E tudo era tristeza, então sonhei. Ele estava sentado diante de mim, cheio de ira e tremor, dizendo que ia matar aquele que fizera companhia a ela; aquele a quem eu tentava proteger dizendo que não se sentisse assim, pois tudo era apenas equívoco, e ele , o outro, somente se sentara ao lado dela para que ela não se sentisse só.
Ele não me ouvia, insistia em sua ira descontrolada; e eu pensava que tudo estava errado, pois ela estava casada com o terceiro e não estava certo que ele, o primeiro, se sentisse assim tão irado, como se tivesse sido traído, e mais ainda, sabendo que eu garantia que ele, o segundo, apenas fizera companhia pra ela. Exausta, senti-me subitamente distante.  Melhor, senti-me dobrada em mim, cercada por imensas barreiras transparentes, de material que eu não conseguia distinguir, mas que me isolavam totalmente de qualquer sentir. Fui só entranhas. E sem dor, sangrei. E era um rio brando, constante, fluido, perene, silente, vermelho, eterno... Alguém disse ‘mulher’, eu disse ‘eu’, e voltando o sentir, quis chorar. O choro derrubou as barreiras, ele se levantou e saiu, eu respirei aliviada pensando ‘tudo é falso e frio, mas são quentes as minhas lágrimas’.

 Magda Maria Campos Pinto

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