sábado, 20 de agosto de 2011

Décimo segundo sonho:

Eu me lembro de um rosto enorme que era só óculos bem perto de mim, e logo logo bem longe de mim. Havia pouca luz e uma música suave, bem baixinha. Às vezes uma mão imensa, forte, com dedos grossos e veias salientes deslizava pela mesa, ia até o rádio e rodava uma rodinha negra. Mudava a música e eu me aborrecia, resmungava e tentava alcançar a rodinha escura... Penso que eu não queria mudanças, e então, o rosto que era apenas óculos sorria, quase gargalhava, mas de abafada maneira, como se fosse necessário silêncio. Sorria, voltava a deslizar a mão e desrodar a rodinha. Voltava a música suave e então, era minha vez de rir. E assim ficamos nós por tempos eternos, óculos e sorrisos que viam e iam, mão forte que ia até a música e a roubava de mim, bronca e resmungos meus, ameaça de choro, risada do rosto com óculos e volta da música querida. 

 Depois desta eternidade quis alcançar aqueles óculos e tomá-los pra mim, nova brincadeira de alcançar, perder... Quase pegar e fugirem os óculos. Outra eternidade e mais risos tranquilos. Depois... Eu quis descer da mesa. Ele deixou, ajudou-me a descer, pegou-me a mãos e começou a me ensinar a andar. Então, nos cansamos. Ele se deitou no tapete da sala e eu continuei me arrastando em torno dele, lhe peguei os óculos, puxei os cabelos, enfiei o dedo nos ouvidos e tentei abrir os olhos. Ele sorria, resmungava, segurava minhas mãos e tentava me imobilizar. Por algum tempo eu resisti, mas logo me entreguei àquele abraço imenso e ali mesmo, dormi. 

Dormi sobre o peito do meu pai, cercada por braços fortes, ouvindo um coração sereno. Séculos depois abri os olhos de repente com mil luzes iluminando em cores fortes e felizes a sala inteira. Era o sol que invadia a janela, trazido por uma brisa mansa. Um pássaro maluco cantava uma nota só com um ritmo que fez aquietar-me e me tornar só ouvidos; era uma canção forte, um chamado, um anúncio, um pedido. Era bonito, e combinava com o ressonar sereno do meu pai. Passei a sentir o movimento do seu peito respirando em paz. E vivi outra eternidade. O sol fortaleceu, e ele acordou. Espreguiçou longamente, gemeu, me beijou a testa, pegou-me no chão, alçou-me a alturas inimagináveis, continuei sentindo seu coração, que agora estava mais bravo e com pressa; ele entregou-me para alguém, e se foi.
Pensei: mais um dia. E logo, bom dia, papai. Até outra noite.

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